O
garboso Joaquim
Cientistas que se deslumbram com o
admirável da natureza, ainda que compusessem redondilhas sobre o quão
maravilhoso é entender-se consigo, porquanto pessoa sob o fluxo de desencantado
lirismo que o cosmos carreia, por sentirem na mente a serenidade das marés, tais
cientistas dispensam-se de explicar o poderio merencório da lua.
Pescadores, por sua vez, nem jogam minhoca fora nem buscam os porquês de certos cardumes pulularem de fase a outra, eles se dão por satisfeitos porque, ainda que manuseiem uma solitária vara, o coração, são amadores natos que amam o luar que os fisga.
Tarimbados, a turma da ciência e o
pessoal do caniço não mordem a isca de quem torna difícil de acreditar em
história contada como se o naturalmente maravilhoso fizesse verossímil a tilápia
multiplicada entre o pigarro minguante e a cheia da tosse.
Todavia, os lunáticos confiam na auréola
da lua, pois essa novidade sinaliza que o calor humano escapa da Terra mesmo
nas madrugadas vazias, que o amor pode entusiasmar até mesmo as mentes
distraídas, que o dragão de labaredas ceifadoras há milênios está de guarda
pelo mais cavalheiro dos funâmbulos.
Corda bamba enamorada, por que se
encanta a lua das eras?
Na rede do destino, o amor de Greta
Garbo por Joaquim.
A atriz Greta por quem, Joaquim?
Cantam antiquíssimos alfarrábios que
Joaquim nascera príncipe às margens do Ganges, mas, com obscuridades, um
repentino sol brilhou às pessoas para que não pudessem mais cortejá-lo.
No lugar do adorável príncipe, embora
passiva na suavidade da sua mansidão, viam a uma fera; ao paquiderme, temiam à besta
o que eles não viam: transfigurada pela quimera, aquela alma desfortunada.
Joaquim, o príncipe, nesse elefante?
Nesse, e neste.
Tal atração que o circo trouxe e expôs, subsumiu-se
em cena.
Porque a natureza tem leis que os
próprios legisladores hão de tê-las como suas, Joaquim ganhou o picadeiro,
recebeu aplausos, causou arrepios, alvoroçou sensibilidades e magoou meninices,
foi a fera que por ela houve rotundas paixões, tão abissais desejos.
Naquela noite de trovões e relâmpagos, no
dia 24 de junho de 1947, no centro do Circo-Teatro Sonhos do Mundo, montado atrás
da Matriz de São Francisco do Belo Monte, foi então que Greta Garbo parou de
cantar Lili Marlene.
Frente a frente com Joaquim, o astro majestático
que atendia dócil aos comandos de uma exibida amazona equilibrista, foi que a Esfinge
Melancólica acabou petrificada.
Vendo-a terrificada, apaixonada pelo
bicho de alma de príncipe, foi então que Marlene Dietrich, não a Cigana
Feiticeira mas a pajem, tirou da ribalta a Greta alumbrada, outro Mito Mudo.
Quiçá possam contestar a patacoada, já
que o bom pressentimento diz que emendar soneto ruim não faz melhor ao poeta mixuruca,
tolere-se: o dito não passa de outra pérola extraordinária.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de junho de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário