quinta-feira, 8 de junho de 2023

Doce balanço

 

Doce balanço

 

Quisera hoje folgar, mas nem cansaço nem fastio chancelam minha disposição para ficar de papo pro ar. Como querendo a gente encontra o que legitime o ócio, apelo à falta de assunto para ir às ruas em busca do que se me revele pitoresco ou afete-me por estranheza, ineditismo ou avacalhação descarada.

A caminho do bar, depois de reconhecer desanimadora a labuta de repaginar o que não me satisfizera ontem nem há pouco e pra que não me entorpeça em amargura, beberei laranjada.

Sem açúcar e sem açodamento, atento à movimentação dentro do bar, tenho uma jarra de laranjada para beber, e a vou bebendo de gole em gole. Com alguma tranquilidade, pois eu a bebo sozinho.

Ainda que esteja decepcionado comigo por escafeder-me da página em branco, eu seria grato a quem me houvesse proposto um servicinho remunerado.

Nada de espantoso, pois me apetece que o valor prometido não me demova de conjeturar que uma jaqueta, tentação em couro há meses corporificada na vitrine, a mim não esteja afortunadamente reservada.

Não fantasio: ela exposta, desejo-a. Tão logo eu junte a quantia que preciso para comprá-la, será minha.

Se fosse de sonhar, ou de assumir o que tenho sonhado, vislumbro-me convertido no Lou Reed que a cachola afeiçoa-me revistá-lo tal qual o recordo na capa de Transformer, tremendamente sensual.

Como desafinado é pesadelo até no chuveiro, reconheço que tenho dotes minúsculos, como cantor e manequim irremediavelmente sexy.

Uma vez que bar não dá palco a quem não sabe cantar, não pedirei vodca na laranjada e manterei a bossa de que tenho muito a ouvir.

Ouço o burburinho, falam de mortes e achaques, dizem que odeiam e amam. Pouco a pouco estou envolvido, até meneio sins e nãos.

Antes de vir sentar-se comigo, Luisinho pede uma KS gelada e um pacotinho de amendoim japonês.

Reclama do quanto terá de pagar à Receita. Não tem dúvida que o escritório deve ter errado na sua declaração. Pela renda que tem, acha um absurdo não entrar em alguma faixa de isenção. Se falam tanto em inteligência artificial, por que o sistema não o reconhece pobre?

Meneio nem sim nem não, que ele entende como quer.

ꟷ O país tem forçado a gente passar por uma fase complicada.

ꟷ Complicadíssima, faz quinhentos anos que ela não passa.

Para aliviar, peço uma porção de calabresa na chapa.

Para entortar de vez, Luisinho pede uma caipirinha.

Os dois homens da mesa ao lado não param de falar, e acham que prisão por falta de pagamento de pensão é vergonhosa, pois deveriam prender criminosos de colarinho branco, que é vergonhoso um tribunal condenar salafrários e descondená-los, que nunca obrigam poluidor de rio a despoluí-lo, que o ouro extraído de terra demarcada é exportado ilegalmente, meninos são forçados a fazer a mata virar carvão.

Doce de pessoa, Luisinho mata a charada:

ꟷ Botam coisa na água que a gente bebe, camará.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2023.

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