Doce
balanço
Quisera hoje folgar, mas nem cansaço nem
fastio chancelam minha disposição para ficar de papo pro ar. Como querendo a
gente encontra o que legitime o ócio, apelo à falta de assunto para ir às ruas em
busca do que se me revele pitoresco ou afete-me por estranheza, ineditismo ou avacalhação
descarada.
A caminho do bar, depois de reconhecer
desanimadora a labuta de repaginar o que não me satisfizera ontem nem há pouco
e pra que não me entorpeça em amargura, beberei laranjada.
Sem açúcar e sem açodamento, atento à
movimentação dentro do bar, tenho uma jarra de laranjada para beber, e a vou bebendo
de gole em gole. Com alguma tranquilidade, pois eu a bebo sozinho.
Ainda que esteja decepcionado comigo por
escafeder-me da página em branco, eu seria grato a quem me houvesse proposto um
servicinho remunerado.
Nada de espantoso, pois me apetece que o
valor prometido não me demova de conjeturar que uma jaqueta, tentação em couro há
meses corporificada na vitrine, a mim não esteja afortunadamente reservada.
Não fantasio: ela exposta, desejo-a. Tão
logo eu junte a quantia que preciso para comprá-la, será minha.
Se fosse de sonhar, ou de assumir o que
tenho sonhado, vislumbro-me convertido no Lou Reed que a cachola afeiçoa-me revistá-lo
tal qual o recordo na capa de Transformer, tremendamente sensual.
Como desafinado é pesadelo até no
chuveiro, reconheço que tenho dotes minúsculos, como cantor e manequim irremediavelmente
sexy.
Uma vez que bar não dá palco a quem não
sabe cantar, não pedirei vodca na laranjada e manterei a bossa de que tenho muito
a ouvir.
Ouço o burburinho, falam de mortes e
achaques, dizem que odeiam e amam. Pouco a pouco estou envolvido, até meneio
sins e nãos.
Antes de vir sentar-se comigo, Luisinho
pede uma KS gelada e um pacotinho de amendoim japonês.
Reclama do quanto terá de pagar à
Receita. Não tem dúvida que o escritório deve ter errado na sua declaração.
Pela renda que tem, acha um absurdo não entrar em alguma faixa de isenção. Se
falam tanto em inteligência artificial, por que o sistema não o reconhece
pobre?
Meneio nem sim nem não, que ele entende
como quer.
ꟷ O país tem forçado a gente passar por
uma fase complicada.
ꟷ Complicadíssima, faz quinhentos anos que
ela não passa.
Para aliviar, peço uma porção de
calabresa na chapa.
Para entortar de vez, Luisinho pede uma
caipirinha.
Os dois homens da mesa ao lado não param
de falar, e acham que prisão por falta de pagamento de pensão é vergonhosa,
pois deveriam prender criminosos de colarinho branco, que é vergonhoso um
tribunal condenar salafrários e descondená-los, que nunca obrigam poluidor de
rio a despoluí-lo, que o ouro extraído de terra demarcada é exportado ilegalmente,
meninos são forçados a fazer a mata virar carvão.
Doce de pessoa, Luisinho mata a charada:
ꟷ Botam coisa na água que a gente bebe,
camará.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de junho de 2023.
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