Assombroso
Se era pra perder dinheiro, aquele homem
tinha sorte.
Devoto de Judas Tadeu, agradecia ao
santo por cada real que tinha o privilégio de desperdiçar ou as suas orações
seriam vazias. Para que os centavos fossem repostos, era preciso malbaratá-los.
Como não era de esperar a banda passar,
corria atrás do prejuízo.
Porque assumiu a missão de tocar
pessoalmente o lava-rápido, que funcionava, sem pausa para o almoço, das oito
às cinco de sábados e domingos, contava que o boca a boca tornasse popular a
sua empresa, que foi à falência somente um mês depois de aberta.
Tal lição foi aprendida: a vantagem de
ser empregado é não ter que arrancar os cabelos quando falta grana para cobrir
despesas, o patrão que se vire pra honrar o salário depois do mês trabalhado.
Embora falido, estava pronto pro
vindouro sucesso.
Pra maior alegria pessoal na superação
dos fracassos, pela dor de ter falhas, sem medo da felicidade coletiva que há
de vir, saber-se qual legítimo agente para mudanças ꟷ tal tentação é tabu.
Precaver-se dos próprios impulsos?
Saber o que a vida ensina é estar consciente
de que o aprendizado é mesmo para valer quando a pessoa não mente apenas para
angariar vantagens a todo momento; só nas circunstâncias em que o saldo será positivo
é que escamotear o negativo não será fingimento vão.
Motivar-se pro futuro? Espelhar-se em
famigerados sortudos.
Como não era de lamuriar-se de trabalhar
pra não passar fome, ele não jogaria fora a graninha contada porque há sempre
uma lotérica na esquina mais próxima das suas ansiedades.
Sem bufunfa sobrando, só apostar quando a
dobra é certa?
De fato, invejável é quem remedia a pobreza
acertando no bicho, uma vez que é quem vai de ônibus e volta em carro elétrico.
Há de ver que ultimamente estava bem
mais sensível aos anúncios de que bastava jogar para ganhar. Ora, o que
ganhasse com facilidade, perderia facilmente. Quanto maior fosse a fortuna,
maior o valor de se entregar ao fiasco.
Aceitou que o orientassem. Havia dezena,
centena e milhar. Jogou cem, ganhou duzentos. Apostou no milhar, dobrou o mil
apostado.
Que fazer com a experiência adquirida?
Quando menino, sonhara alto, sonhara com
a Europa.
“Quero passar um mês jogando. Irei de
cassino em cassino. E tudo o que ganhar, eu hei de perdê-lo”.
A Mega da Virada? Melhor evitá-la. E
máquinas caça-níqueis? Isso.
Jogar nas maquininhas, isso o atraiu aos
botecos mais fuleiros.
Jogar discretamente, isso o limitou a
tirar mil reais por máquina.
Jogar anonimamente, pelos mil reais, isso
o fez jogar apenas uma vez por semana em cada máquina.
Sem que ninguém jurasse, juntou um
milhão de reais.
Pronto, foi à Europa. Ganhou aqui, ali,
acolá. Chegou ao milhão de euros. Dobrou-o? Pois, ousou triplicá-lo.
Fez a festa na Europa toda? No
Mediterrâneo.
Casou-se com a crazy crupiê do
primeiro cruzeiro? Bingo!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de junho de 2023.
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