Sem
novidade
Que eu vá acertar o valor do serviço
feito, ligam do escritório. Tudo bem, irei depois do almoço. Ainda que eu
lembre o combinado, cobram a mais. Por quê? Porque não enviei os recibos
médicos, odontológicos e psiquiátricos. Aviso que passarei no banco, informo
que pagarei em dinheiro, estou muito agradecido por justificarem o valor
majorado que terei de pagar. O que não escapa do pensamento é um comentário que
a mim mesmo me rebaixaria, mas, educados, despedimo-nos.
Contrariam-me, silenciam-me.
Ainda que ranja os dentes e mordisque os
lábios, o emudecimento é recurso a quem se exalta com impertinências. Se é para
ter mais uma discussão estúpida, agastar-se é uma das fraquezas menores.
Posto que ajo sabendo que não tenho
poder bastante que faça valer o que penso, desejo, o que espero que aceitem
como verdadeiramente justa a razão sobre o que esteja em discussão, eu dou como
irracional quem ousa me contrariar.
Por não depreciar o bem que uma afronta
quase sempre produz em mim, valorizo o que evidencia meu desajuste momentâneo,
o riso.
Não sou o mesmo de quando saí de casa,
porque, a quatro passos da porta que chaveei, elevaram a pressão:
ꟷ Quer comprar bombom?
Compraria se gostasse ou se estivesse
disposto a ajudar.
ꟷ Tenha coração, é por uma boa causa.
Ainda que falte depois, é fraterno
gastar sem medir o quanto?
Eu até tendia à colaboração espontânea, mas
a insistência chateou tanto que não dei bola para a caixinha a cinco reais, um
terço do preço cobrado em supermercado.
Não sou a pessoa que eu era antes de assistir
ao noticiário, menos ainda depois dessa aporrinhação à saída da minha casa.
ꟷ Quer comprar capinha de celular?
Abordaram-me à entrada do contador, mas
a minha situação era a mesmíssima de quando eu rejeitara a pechincha dos
bombons.
ꟷ Não tenho celular.
ꟷ Tá tirando comigo, é?
ꟷ É verdade. Eu não tenho celular desde
que fui assaltado.
ꟷ Roubaram, é?
ꟷ Se não tivessem levado meu relógio,
diria que me assaltaram faz quinze minutos.
ꟷ Pensa que sou trouxa pra entrar nessa
roubada?
Com a cabeça no travesseiro, quieto no
quarto escuro, no momento de minimizar aflições, foi quando percebi que estava
certo de que nada havia de errado comigo.
Sorrindo sozinho, meio dormindo, não
estranhei a naturalidade com que rememorei o que eu ouvi na farmácia:
ꟷ Vovô Vivaldi, velhice pega ou só dá em
velho?
Como Vovô Vivaldi nunca foi de varejar
vivaldinos:
ꟷ Nelsinho, meu querido, seja um bom
netinho e compre capinhas, bombons e bilhetes de loteria quando tiver o seu dinheiro.
Com a vivacidade dos dadivosos, virei
sorrir, pois Vovô Vivaldi não era mais um mão-de-vaca, era mesmo um mestre.
Vovô Vivaldi, se nos carnavais da vida entrasse
nas vestes de pirata da perna de pau, não me ratificaria nesse olho de vidro
que não revela as maravilhas encruadas em quase tudo que a rua tem oferecido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de junho de 2023.
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