terça-feira, 20 de junho de 2023

A fila anda

 

A fila anda

 

Estou com sono. Mas não vou, não quero, não posso dormir em pé, em público. Com todo mundo olhando, além de muito me desagradar, é patético. Além de patético, é ridículo babar com todo mundo olhando.

A caçoarem de mim, todos sorrindo, rindo, indo.

Só eu é que não vou. Eu cochilo, toscanejo, ronco e babo.

Estou com sono, mas não cochilarei sentado, seja num ônibus, seja esperando ser chamado pra consulta. Prefiro, preciso, quero muito não ser pego pelo sono, seja sentado, em pé ou em público.

Faz tempo, na adolescência, eu aprendi que bobear é acordar com o rosto pintado. Tornado um arremedo de palhaço, eu aprendi que não se deve cochilar em qualquer canto. Porque há lugares melhores para roncar sem medo, sem temer a fanfarrice alheia.

Tenho onde dormir, tenho casa.

O sofá já está moldado, a forma do meu corpo deformou-o, que nele me assento como mamão com açúcar. É mesmo uma delícia cochilar sem que me olhem, tenham pena, não queiram me acordar pra que eu dê vexame, babe, que, ao respirar, eu ronque feito leitoa.

Estou com sono, e cansado. Mas não o bastante, tanto que continuo sentado no sofá. Não estou esgotado, tanto que não me deito, não vou me deitar na cama.

Estou com sono, cansado, mas me decido: como não tem problema deitar no sofá, tirar uma pestana, eu pego um livro, o primeiro da pilha, e retorno à leitura pela página que está marcada.

Que coisa boa. A opção pela leitura mostra que escolhi bem: o sono me abandona a pouco e pouco, o cansaço se dissipa a cada página, o sofá não é mais um incômodo, tanto que penso, repenso, recompensa-me pensar e repensar: não perco tempo achando que sou um bobalhão que baba a qualquer tempo, a qualquer lado.

Tenho contas para pagar, irei pagá-las. Tenho coisas para comprar, comprá-las-ei. Quando não tenho tempo para ler, faço que sim.

Vou lendo, sigo lendo, tanto aprecio que eu nem vejo: estou comigo, suspenso em mim, viajo a céu aberto, vou a pé, vou em velocidade de santo de barro, ando devagar e caminho tranquilo, vou pisando o chão da rua, pisando a calçada, sentindo pedras, pedrinhas e pedregulhos; sem prestar conta do que sinto: estou no mundo, sou o mundo.

Já que muito me entretém, não largo do livro nem me quero livre do gosto que me dá a leitura: com espírito entretido, cativado de contente, entro na fila que tenho, posso, escolho eu para entrá-la.

Umedeço a ponta do indicador que nem percebo, na gostosura que é ir lendo sem que me aborreça do entorno.

Reflito aos sussurros; vou na vazão dos pensamentos que nem ligo que me ajuízem atormentado da ideia.

Muito empolgado, eu encaro que nem vejo quem encaro.

E o encarado diz que sou o seguinte a dar um passo adiante.

Como não adianta nada, que a fila ande o que tenha para andar, eu sigo lento, ajustado, sigo feliz: o próximo que vem atrás, que ele passe.

Dar lugar, pois sim? A vida é curta para não ser solidário.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2023.

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