terça-feira, 6 de junho de 2023

Espeloteado

 

Espeloteado

 

Se o convidarem, não se precipite. Embora o rancoroso mostre-se satisfeito quando contrafeito, veja-se entre quem não adula nem deseja que o bajule. Por se importar com a tranquilidade, particularmente com a sua, recuse rastejar seu ego festeiro entre festeiros.

Acredite, embora goste de demonstrar-se atento ao instante, a ele não se apegue, que o momento passa e segue virando. Se hoje é lama grudada na roupa, amanhã são cacos contando histórias.

Torne-se menos impetuoso, conscientize-se, dar like é registrar-se ativo, comentar com sinceridade fotos postadas faz com que seja visto como rude. Como incomoda tal rudeza sinceramente consciente, pode crer que o consideram um chato, petulante, um babaca metido a besta. Que seja. Só esteja seguro que é preferível ir dar pipocas a rinoceronte, pela distância daquelas pessoas, convivas de caco cheio.

Bastante distante, pra que as palavras desairosas não o atinjam em um dos seus pontos fracos, as orelhas. Pois orelha queimando diz que reprimendas e contestações voam ligeiras e cobrem quilômetros assim que profetizadas por aquelas bocas encharcadas de cachaça.

Vá para longe e fique lá pelo tempo necessário para que as pragas esfriem no caminho. Lembre-se de que há quem o queira adestrado, a tirar selfies com todo mundo, que isso é normal, bacana, coisa de gente bem simpática.

Seja antipático, vá à festa para contrariar quem o queira sorridente, sóbrio, um exemplo maravilhoso de pessoa iluminada. Dê o melhor de si: leve a escuridão e faça trovejar. Seja autêntico, pois não é problema seu que o repilam, que desgostem de temporais.

Sim, pecado é faltar à festa boa. Frente à felicidade fotogênica, não seja outro ressentido. Comentários irônicos não bastam, esteja lá com o semblante carregado, de quem pode chover a qualquer momento.

No clima da festa, com você já alegrinho, pela malícia de mentiroso que não se envergonha das próprias bazófias, solte essa: o rinoceronte come pipoca.

Com certeza a alegria embriaga, brinde a isso.

Embriagado, seria um pecado não se alegrar com as fanfarronices de achar falhas morais em quem não se anima com a embriaguez que a consciência ventila ao bel-prazer de gozar na hora o que tenha para ser gozado.

Porque dá pelota do quão verdadeira é esta ideia, você a pensa de passagem: maravilhoso é ir ao zoológico que a cidade não tem.

Já que a invenção coloca-o no mapa, o zoo existe. E qualquer um pode achá-lo, basta usar a bússola afetiva que o configura mais longe que a inexistência: na mente em que o coração não a cativa.

Onde ofegante o afobado?

Onde convém visitar quando o medo puxa pelo ar, sufoca, paralisa. Onde as verdades desconcertantes são içadas do pântano mental em que a gente naufragada nem se sabe encoberta pelo vistoso do coral.

Travesso, se rinocerontes são bestas, belo é ser coral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2023.

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