terça-feira, 13 de junho de 2023

Fora do padrão

 

Fora do padrão

 

Aquele homem queria parar, mas não sabia como. Se soubesse ou se alguém o tivesse alertado, como não soube nem ninguém lhe gritou que prestasse atenção, deu-se aquele incidente.

Ele não sabia como parar e as pessoas preferiam ignorá-lo, sem ter a ajuda de quem fosse, então, aconteceu que ele caiu no buraco.

Com a queda, bateu a cabeça num cano e a vala encheu de água; só quando chegaram os primeiros trabalhadores, perto das sete, uma ambulância foi chamada.

Se tivessem reparado, veriam que sofria para andar. Se buscassem a raiz daquela dificuldade, saberiam das dores nos pés e em ambos os calcanhares.

Se lhe perguntassem, culparia o ácido úrico pela gota.

Apesar dos gastos para manter-se bêbado a maior parte do dia, não era amargurado nem se ressentia da vida. Aliás, não entendia o porquê de não beber uma taça de vinho à noite, achava bem esquisito.

Sofria. Se sofria tanto, por que o amor o mobilizava?

Ele só queria amar o próximo, mas sua barba grisalha tornava difícil que percebessem qual sua missão. As pessoas diziam que a barba era falsa, o ho ho ho era forçado e o barrigão era enchimento; no todo, não passava de um Papai Noel de araque.

Pra piorar, o cheiro de cachaça incomodava até mesmo as crianças. Não tinha jeito de ser amado pelo próximo, daí que o seu amor estava voltado pros vira-latas.

Não era amor exclusivo, mas fiel o bastante. Tanto era com os cães que nem precisava chamá-los, de manhã ou à tarde, para que viessem deitar perto. Gostavam de sol e baba, e tanto gostavam que a lambiam escorrida da boca.

Habituara-se a deitarem juntos.

O Papai Noel de araque sofria quando abraços e beijinhos lhe eram negados. Por doer-lhe tanto, bebia mais. O enjeitado queria ser amado, abraçado, que o beijassem. Só os cães lambiam sua boca.

Por falta de quem o aceitasse amável, o homem chamado de Papai Noel de araque não choramingava. O sono vinha logo. Não tinha de se sentir uma pessoa desprezada. Queria ter quem o amasse, o deixasse abraçar, beijá-lo, desejar-lhe o bem. Pena que não tinha.

O homem solitário tomara banho, jantara, desnudara-se, pegara no sono; sonhou, porém não ficava assuntando conexões entre um pardal abatido por pedrada e o frango assado dos domingos.

Todavia, tal homem não era de araque.

O barrigão era por causa dos pratões de comida. E bebendo o tanto que bebia, era inexplicável que encarasse aquelas montanhas.

A risada era esquisita porque pegara infecção. Durante uma chuva que não parava, com a enchente pelo peito, veio cobra ou ratazana do banhado. A picada coçava, a ferida sangrava. Deram injeções. Curado, mas com a voz rouca.

A barba era real. Não era para trabalhar na época natalina, era pra não virar monstro da cara rubra, pois o rosto ficava empipocado a cada vez que se barbeava.

O socorrista sequer sorriu ao escutá-lo:

ꟷ É errado amar quem não quer ser amado?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2023.

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