Fora
do padrão
Aquele homem queria parar, mas não sabia
como. Se soubesse ou se alguém o tivesse alertado, como não soube nem ninguém
lhe gritou que prestasse atenção, deu-se aquele incidente.
Ele não sabia como parar e as pessoas
preferiam ignorá-lo, sem ter a ajuda de quem fosse, então, aconteceu que ele
caiu no buraco.
Com a queda, bateu a cabeça num cano e a
vala encheu de água; só quando chegaram os primeiros trabalhadores, perto das
sete, uma ambulância foi chamada.
Se tivessem reparado, veriam que sofria para
andar. Se buscassem a raiz daquela dificuldade, saberiam das dores nos pés e em
ambos os calcanhares.
Se lhe perguntassem, culparia o ácido
úrico pela gota.
Apesar dos gastos para manter-se bêbado
a maior parte do dia, não era amargurado nem se ressentia da vida. Aliás, não
entendia o porquê de não beber uma taça de vinho à noite, achava bem esquisito.
Sofria. Se sofria tanto, por que o amor
o mobilizava?
Ele só queria amar o próximo, mas sua
barba grisalha tornava difícil que percebessem qual sua missão. As pessoas
diziam que a barba era falsa, o ho ho ho era forçado e o barrigão era
enchimento; no todo, não passava de um Papai Noel de araque.
Pra piorar, o cheiro de cachaça
incomodava até mesmo as crianças. Não tinha jeito de ser amado pelo próximo,
daí que o seu amor estava voltado pros vira-latas.
Não era amor exclusivo, mas fiel o bastante.
Tanto era com os cães que nem precisava chamá-los, de manhã ou à tarde, para
que viessem deitar perto. Gostavam de sol e baba, e tanto gostavam que a
lambiam escorrida da boca.
Habituara-se a deitarem juntos.
O Papai Noel de araque sofria quando abraços
e beijinhos lhe eram negados. Por doer-lhe tanto, bebia mais. O enjeitado
queria ser amado, abraçado, que o beijassem. Só os cães lambiam sua boca.
Por falta de quem o aceitasse amável, o homem
chamado de Papai Noel de araque não choramingava. O sono vinha logo. Não tinha
de se sentir uma pessoa desprezada. Queria ter quem o amasse, o deixasse
abraçar, beijá-lo, desejar-lhe o bem. Pena que não tinha.
O homem solitário tomara banho, jantara,
desnudara-se, pegara no sono; sonhou, porém não ficava assuntando conexões
entre um pardal abatido por pedrada e o frango assado dos domingos.
Todavia, tal homem não era de araque.
O barrigão era por causa dos pratões de
comida. E bebendo o tanto que bebia, era inexplicável que encarasse aquelas
montanhas.
A risada era esquisita porque pegara
infecção. Durante uma chuva que não parava, com a enchente pelo peito, veio
cobra ou ratazana do banhado. A picada coçava, a ferida sangrava. Deram injeções.
Curado, mas com a voz rouca.
A barba era real. Não era para trabalhar
na época natalina, era pra não virar monstro da cara rubra, pois o rosto ficava
empipocado a cada vez que se barbeava.
O socorrista sequer sorriu ao escutá-lo:
ꟷ É errado amar quem não quer ser amado?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de junho de 2023.
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