Por
amor aos fatos
Pastel de carne seca com garapa levam-me
à feira quase que toda semana; falto quando chove, mas peço que entreguem em
casa.
Sem relógio a confranger-me a bebê-la
gelada; com pimentinha que me destempere a língua: desdenho da minha medíocre pessoa
quando sucumbo achar deliciosa uma vida sem aditivos.
Dou vivas às pílulas que me condicionam
mentalmente estável, um sujeito confiável, aperfeiçoado pela cachola
quimicamente adulterada, outro homem comum que escolhe ter consciência das coisas
boas que possa fazer; por óbvio, faço-as pro irrestrito bem geral.
Azeitado pros eixos do cotidiano, contem
comigo para tagarelar que a concórdia humana é a boa nova que a qualquer
momento haverá de ser comunicada via celular.
Creio que a rede é fonte incontornável
pra quem espontaneamente aumenta a confusão debaixo desse céu candidamente anil.
Não duvido que preciso estar em sintonia
com medos e alegrias da época em que vivo ou, na ignorância de como ajo,
estarei feito ameba, sincronizado por inércia às petulâncias do mundo.
Entre fazer o bem por escolha própria e
ser feliz sob pressão, mordo o pastel frito na hora, aprecio o limão posto na
garapa e acredito que o telefone que carrego logo tocará.
Se o mundo anda intragável, trato de lutar
pra transmutá-lo.
Enquanto como e bebo, eu teria razão se
rateasse com a estudante que veio a mim com um questionário sobre hábitos de
leitura. Não sei se por prevenção ou acaso, mas ela de mim mantém uma distância
tal que me possibilita escutá-la sem alucinações de cenófobo zureta.
Quantos livros eu leio por semana, mês,
ano? Sei lá.
Gosto mais de ler romance, contos ou poesia?
Crônicas.
Quais meus autores favoritos? Aquelas e
aqueles que ainda não li.
A adolescente escreve as respostas sem
sorrir ou encarar-me, até que ela quer saber qual personagem eu gostaria de
ser.
ꟷ Sem dúvida, é a Emília.
De testa franzida, interpela-me a aluna:
ꟷ Senhor, será a Emília do Sítio do
Pica-Pau Amarelo?
ꟷ Ela mesma.
ꟷ O senhor vai ter que trocar porque a Emília
é uma boneca, não é personagem humano que seja masculino.
ꟷ Não posso pretender ser a Emília?
ꟷ Vou explicar melhor, senhor. Para não
ter confusão, a professora acha que o homem tem que escolher um personagem que
seja homem e a mulher tem que escolher uma personagem que seja mulher.
“Regras simples facilitam a vida.”
Posto que entendo os fatos da
circunstância, não digo o que penso; para atender ao proposto pela simpática
pesquisadora, digo:
ꟷ Garota, glorioso seria voltar ao mundo
como a célebre criaturinha apaixonante nomeada Orlando por Virginia Woolf.
Basta ouvir ‘Orlando’ pra identificá-lo
como homem, então, dela eu mereço um sorriso, o de quem dá sua aprovação.
Sei me portar de maneira civilizada, é
sorrindo que a agrado. Já que também sorrio de dentro pra fora, tal sorriso me sai
tão verdadeiro.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de junho de 2023.
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