domingo, 11 de junho de 2023

Por amor aos fatos

 

Por amor aos fatos

 

Pastel de carne seca com garapa levam-me à feira quase que toda semana; falto quando chove, mas peço que entreguem em casa.

Sem relógio a confranger-me a bebê-la gelada; com pimentinha que me destempere a língua: desdenho da minha medíocre pessoa quando sucumbo achar deliciosa uma vida sem aditivos.

Dou vivas às pílulas que me condicionam mentalmente estável, um sujeito confiável, aperfeiçoado pela cachola quimicamente adulterada, outro homem comum que escolhe ter consciência das coisas boas que possa fazer; por óbvio, faço-as pro irrestrito bem geral.

Azeitado pros eixos do cotidiano, contem comigo para tagarelar que a concórdia humana é a boa nova que a qualquer momento haverá de ser comunicada via celular.

Creio que a rede é fonte incontornável pra quem espontaneamente aumenta a confusão debaixo desse céu candidamente anil.

Não duvido que preciso estar em sintonia com medos e alegrias da época em que vivo ou, na ignorância de como ajo, estarei feito ameba, sincronizado por inércia às petulâncias do mundo.

Entre fazer o bem por escolha própria e ser feliz sob pressão, mordo o pastel frito na hora, aprecio o limão posto na garapa e acredito que o telefone que carrego logo tocará.

Se o mundo anda intragável, trato de lutar pra transmutá-lo.

Enquanto como e bebo, eu teria razão se rateasse com a estudante que veio a mim com um questionário sobre hábitos de leitura. Não sei se por prevenção ou acaso, mas ela de mim mantém uma distância tal que me possibilita escutá-la sem alucinações de cenófobo zureta.

Quantos livros eu leio por semana, mês, ano? Sei lá.

Gosto mais de ler romance, contos ou poesia? Crônicas.

Quais meus autores favoritos? Aquelas e aqueles que ainda não li.

A adolescente escreve as respostas sem sorrir ou encarar-me, até que ela quer saber qual personagem eu gostaria de ser.

ꟷ Sem dúvida, é a Emília.

De testa franzida, interpela-me a aluna:

ꟷ Senhor, será a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo?

ꟷ Ela mesma.

ꟷ O senhor vai ter que trocar porque a Emília é uma boneca, não é personagem humano que seja masculino.

ꟷ Não posso pretender ser a Emília?

ꟷ Vou explicar melhor, senhor. Para não ter confusão, a professora acha que o homem tem que escolher um personagem que seja homem e a mulher tem que escolher uma personagem que seja mulher.

“Regras simples facilitam a vida.”

Posto que entendo os fatos da circunstância, não digo o que penso; para atender ao proposto pela simpática pesquisadora, digo:

ꟷ Garota, glorioso seria voltar ao mundo como a célebre criaturinha apaixonante nomeada Orlando por Virginia Woolf.

Basta ouvir ‘Orlando’ pra identificá-lo como homem, então, dela eu mereço um sorriso, o de quem dá sua aprovação.

Sei me portar de maneira civilizada, é sorrindo que a agrado. Já que também sorrio de dentro pra fora, tal sorriso me sai tão verdadeiro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2023.

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