terça-feira, 30 de maio de 2023

Sumidade

 

Sumidade

 

Aquele homem nem disfarça, gosta mesmo de ser do contra; sobre seja lá o que seja, diz-se que é pessoa livre, autônoma, independente, um pensador que não se sujeita; no fundo, se o carimbo de gente livre for examinado de perto, é evidente que a tinta ꟷ nem a cor verde nem a azul são empregadas, só o vermelhoꟷ não infunde fundamentos nem enraíza fundamentações, apenas mancham o caráter, contaminando a leitura da sua aura, essa aura em cujo espírito o ser humano de ideias precisamente dignas e sóbrias gera a identidade oportunista de quem sabe ganhar a vida, ainda que não assuma o otimismo.

Tal otimista não avalia como estapafúrdias as opiniões que dispara assim que a comichão acossa-o. Seus dedos são rápidos na digitação, seus olhos são pródigos em leitura enviesada, em seus lábios abunda a saliva do satisfeito. Pelo êxito alcançado: milhares de curtidas a cada postagem, milhões de neurônios recompensados pelo reconhecimento do seu afeto fundamental, que é contrariar a corrente majoritária que impregna com sensatez a mente da nossa gente.

“Tem brasileiro que samba ao ter sofrido outra derrota”: a primeira ideia estapafúrdia que o otimista que sabe contradizer-se teve durante a noite passada foi que a ventania uivante garantia que o final das eras aconteceria assim que a chuvarada caísse, rios transbordassem, ruas restassem alagadas e não fosse mais leviandade afirmar que os raios eram raios tão somente raios.

Duvidar do apocalipse no seio da madrugada? Céus!

Sendo um temporal, cadê que não se escutaram os estrondos? Isso foi o que foi, que o mais assustador da noite foi que houve relampejos, os clarões terríveis, e nada disso foi evidência que o fim do mundo iria ser escuro, silenciosamente apagado, aquele breu só.

Afeiçoado a repentes apocalípticos, o homem foi às compras.

Lá ele encontrou quem gosta de felicitá-lo ao encontrarem-se; e por nada, por qualquer coisa, como se a felicidade girasse feito o girassol, ao léu desses encontros circunstanciais.

A segunda ideia idiota, ele a pensou assim que se livrou do abraço: que o sol da lágrima não aquece a língua da gente porque não é sol, é sal, é amargo, e o sal da lágrima não é dor nem sofrimento, nem sequer dá paixão à alma.

A terceira idiotice veio da segunda, que ele não tinha como assumir a autoria daquela besteira, porque ele diz o que diz e esquece, vai em frente, como se a chuva caída de madrugada não tivesse acarretado o alagamento da rua nem que os bombeiros não vieram socorrer as duas mulheres, a cacatua, a calopsita e aquele gato angorá, que, por conta daquele olho esbranquiçado, é o Simão.

Comentaram que o homem que gosta de ser do contra não merecia audiência, que ele era uma pessoa nefasta, alguém indigno de dó, até porque ele repassou: “a gente quer bem o próximo quando está bem, o contrário é vulgaridade hipócrita”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2023.

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