domingo, 4 de junho de 2023

O sogro

 

O sogro

 

Livre da chateação de querer-se perfeita, pessoa interessante que revela o que é capaz não pela felicidade que possa alcançar, mas pelo que compreende de si ao entender-se com as coisas do mundo, à flor da pele, Dona Cremilda faz-se brisa.

Sobrevivendo ao sufoco do tempo rarefeito, não se dispensa de ver na folhinha que encargos terá no domingo: tem anotado um churrasco de aniversário pra ir. Só depois do meio-dia, irá.

Com uma elegância sutil, chega sem fanfarras, senta-se ao lado de quem não está cativado pelo celular. Conversa amenidades, distrai-se, sorri de vez em quando. Com meninas e meninos que brincam com os cachorros, diverte-se. Bebe suco, come quibe. Com a barra do vestido suja de barro, sem temer um tombo nesta terra, corre com os cães.

Pelas cervejinhas a mais, a aniversariante inventou de contar:

Precisamos que chovia e a chuva havida foi a dádiva ansiosamente pedida e nossa súplica atendida caiu madrugada adentro e madrugada afora, tanto que houvemos por bem que chorássemos e emocionados choramos. Por nossa gratidão, por sermos ouvidos pelas nuvens, pela água das nuvens, pela terra que acolheu a chuva, recolheu fecunda a água da madrugada, o que nos encheu de alegria, convictos de sermos abençoados. Pessoas íntegras, inteiramente humanos, que somos nós de corpo e alma, tanto que choramos e suplicamos, seres penhorados de gratidão, fomos dormir e dormimos. Não sonhamos pesadelos com a morte pela água nem com a carência d’água no chão, tanto choramos de contentamento que fomos dormir e dormimos. E apenas dormimos, exauridos por dentro e extenuados por fora, pois éramos os cansados. Agradecemos, e então, dormimos. Vivas!

Foi quando o bêbado entrevado na sabedoria de seus fios cofiados, foi então que levou Dona Cremilda a recordá-lo sábio justamente pelo imponderado, pessoa impulsiva, mente embebida no conhecimento do mundo pela pele que sente, um ser humano belo, estúpido, patético e emocionado, que se deixa emocionar pelo que conhece ao sentir-se à tona do mundo, entregue à vida no instante:

ꟷ Vou buscar pastel. Quem vai querer?

Foi quando a irmã da aniversariante apareceu:

ꟷ Vai comprar ali na esquina?

ꟷ Vou, sim. Eu vi o carrinho ali na esquina.

ꟷ Traz pra mim um pastel de vento.

ꟷ É sério que não leva nada a sério?

ꟷ Não faço piada. Achei cinco reais, e é só o que eu tenho. E pastel de vento custa justo cinco reais, colega.

Dona Cremilda comia um coraçãozinho quando lhe contaram que o pai do marido da aniversariante chegara bêbado, que chegou tomando uma latinha, falava a língua engrolada dos bêbados, achando graça de arrotar a cada gole, que ele estava mesmo se julgando em casa.

Gente que não menospreza a felicidade alheia, quiçá para criticar a alegria desmesurada, Dona Cremilda deu àquele sogro solto no vento a latinha que deram a ela, a ainda abstêmia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2023.

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