Na
retranca
Eu estava pensando em sair, mas chegou visita.
Pra minha diversão, quem veio nem teve o
cuidado de perguntar se desagradava-me a sua chegada. Chegou e pronto: que fosse
recebido com a simpatia costumeira, sem salamaleques.
Incapaz de mimimi, e por cultivar os
bons modos de gente educada, eu não retruquei que fosse logo se sentando na
minha poltrona.
Porque visita tem o privilégio de estar sempre
com a razão, e antes que as costas indicassem desconforto, até lhe atirei uma
almofada.
As pessoas que convivem comigo acham-me
razoável. A elas o que vigora é a postura de sujeito que só explode quando bem contrariado.
Irreverências à parte, só tenho louvores
a fazer a quem enxerga as qualidades que consideram primordiais em uma pessoa
agradável, que nem eu, gente evidentemente nascida para bem servir.
Por possuírem um conhecimento profundo
sobre mim, por saberem que sou fleumático, com enraizados acentos civilizados, escusando-as
de elogiar-me a afabilidade, sinto-me gente verdadeiramente polida se abusam e
tratam de extrair de mim o meu melhor.
Bem-criado, em vez de ter oferecido
água, preferi os ouvidos.
Na verdade, ofereci água; não apenas um
copo d’água, pois ofereci a escolha: água gelada ou nada.
Ora, estou ciente de que as boas
maneiras dão-me consciência de que posso gentilezas e cortesias, que jogar a
favor da identidade como bom jogador é apostar em mim como gente pragmaticamente
servil.
Se posso ser útil, ainda que isso me
vulgarize um serviçal esforçado aos olhos de quem sabe que sou capaz de
vaidades menos banais, é perfeitamente natural que eu me realize gentil, cortês
e aprovado.
Aprovo minha atitude, que a visita perceba
que posso deixá-la leve, motivada a falar, porque eu sei ser o bom ouvinte.
E eu ouço o que o meu coração canta: que
o corpo sente que é bom o pulso seguir tranquilo, leve, tão leve e tão
tranquilo que minha mente capta o impulso constante que gera uma alegria
serena.
Gente amena que sorri quando entende o
mundo durante uma visita ao meio-dia, não me abate a felicidade que é a
revelação desta faceta de ser humano feliz, alegre e satisfeito.
Se minha generosidade estivesse
condicionada a biscoitos e sucos, eu me implicaria em separar as visitas:
aquelas merecem ter estragada a saúde com salgadinho de camarão e estas,
pessoas amigas que não se rebelam por ninharia, nego-lhes o copo estupidamente gelado.
Camaradinha a quem não me cativam os confrontos
com o mundo, prudente ao refletir: que o sorriso de anfitrião desarmado
comprovasse a ânsia de ser melhor compreendido, feito tolo.
Como perna de pau que não sabe fintar o
instinto, abri o jogo:
ꟷ Vamos almoçar?
Ela tinha acabado de acender um cigarro,
baforou-o, bateu a cinza no vasinho de violeta e, na marca da cal, foi
elegantemente sábia:
ꟷ O que você ficou fazendo até agora que
ainda nem almoçou?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de maio de 2023.
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