quinta-feira, 15 de junho de 2023

A descoberto

 

A descoberto

 

Doutora, sou-lhe grato por ajudar-me a compreender que é fácil ver a realidade do que está visível e que o problema está em fazer os olhos conhecerem o imprevisto da realidade.

Doutora, hoje eu entendo que consegui superar minhas dificuldades pra perceber que a vida é basicamente o que sinto. Doutora, reconheço que o conhecimento mais profundo eu aprendi a construí-lo com a sua mediação, pois sem a sua colaboração eu continuaria pensando que a realidade que existe é só a que eu vivo.

Doutora, a senhora fez-me ver que silêncios abrem feridas mas nem toda mágoa precisa ser cicatrizada. É fundamental as dores educarem a ir além do sentimentalismo, pois emocionante é revelar-se em carne viva no mundo descoberto além das opacidades.

Doutora, eu sei, mesmo quando estou à vontade com o que desejo, não estou livre do mundo. É autoengano achar conveniente perder-me da realidade em nome da paz espiritual que traz resignação.

Quando não ouço a revolta que trago em mim, doutora, escuto-me na indiferença que me faz insensível.

Como não quero acomodar-me à escuridão que entorpece, porque a apatia me afeiçoa a mim, gosto de andar na chuva.

Quando chove, saio dar uma volta, uma volta bem longa, demorada o bastante para que os meus olhos fiquem limpos ou identifiquem quais as impurezas do dia a dia que me irritam.

Porque não vejo de outro modo, acho degradante atrelar quem sou ao cidadão que não protela nada do que tenha que ser atendido, como se as demandas diárias fossem de fato barreiras a serem vencidas.

Desculpe, doutora, mas não acho abuso eu sentar molhado. Porque indigno é reforçar: se o pagamento garante a qualidade da sessão, tem também que afiançar alguns direitos não descritos.

Mas eu não vim dar pito; conto que a senhora responda: quem teme se conhecer não quer revelado nenhum monstro?

Doutora, tenho essa questão porque lembrei o que ocorreu faz vinte anos. Desde aquele acontecido na chuva, creio que o mundo, de forma veladamente engenhosa, é movido pelo insólito.

Acho que a ciência nem queira dar explicação. Não interessa, pois o sentido do evento eu entrevi com ajuda da senhora.

Naquela época eu estava desempregado, pois tinha parado de dar aula e duvidava dessa vocação que é escrever.

Nesse dia de chuva, o Camões puxou conversa. E falamos de igual. O Poeta sentia o que me fez errar debaixo do aguaceiro. Ele percebia o que fui fuçar na caçamba de lixo.

Saber quem era? Foi fácil, doutora, foi pelo tapa-olho.

O esquisitíssimo caolho, que enxerga 2013 em tudo o que esmiuça, quando me falou, comigo encharcado de brasilidade, ensopado desde o cocuruto, fez-me ver a figura borrada, enevoada pelo não vivido.

Minha senhora, embora eu não tenha nascido escritor, fissurado no mundo ainda não escrito, este clássico estrangeiro põe-me estimulado a perseverar no papo com a vida toda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2023.

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