quinta-feira, 22 de junho de 2023

Redemunho

 

Redemunho

 

O barulho veio de fora; fui ao quintal. Olhei que olhei; sem nada que assombrasse, dei meia-volta. Com a mão na maçaneta, o pé-de-vento varreu de minhas expectativas a inocência do curioso: era chuva o que vinha, era a entrada de outra frente fria, a que trazia chuva.

Ainda que o tempo contasse a ladainha de temporal anunciando-se por rajadas súbitas, nenhuma vaca passou por sobre casas e nenhuns namorados largaram dos beijos pro espanto de ter uma vaca mugindo alucinada em sobrevoo pelos telhados familiares.

Nas cercanias de jardins bem podados, dado o fim do mistério, que a ventania, natural, pressupunha que alguma coisa caíra pela sua força à passagem, folguei em beber vinho, esticar as pernas, não me escorar em almofadas: melhor, a leitura era-me oásis cativante.

Outra vez houve ruídos; dos vários seguidos, destacou-se um. Uma vez estrondoso, e grave, foi o que alarmou o pavor; tal acontecido deu-se dentro, e perto, foi algo diverso do rangido dos dentes.

O saci que vira em um cisco não haveria de ser quem testemunhasse a meu favor. Tornado corajoso, compreendi que eu mesmo era quem, pé ante pé, averiguaria a origem do ocorrido.

Pois então, mesmo cismado, lá fui eu.

E dei com gatos.

Vi a janela pela qual os dois entraram, corridos pela chuva. Lembrei-me do vidro espatifado que derrubara à tarde. A janela escancarada, porque já esvaecido o cheiro de álcool, fechei-a. Os cacos, no chão da despensa, que ali eles restassem pro dia seguinte. A dupla, ela correra para longe do meu alívio, que nenhum E.T. viera abrigar-se na mesma residência em que ambos nos encontrávamos, os bichanos assustados e eu aflito, porque me acutilavam intuições sobre o ouvido.

Minha mente não esquece, nem de repente, o que me atormenta.

Como não dormia, apelei aos barbitúricos; passava de uma da tarde quando fui acordado por uma sede danada.

Já que a luz me feria nas retinas, e para não dar na cara, pus óculos escuros de lentes espelhadas e fui ao bar.

E fui penhorado desse mantra: 1, 2, 3, fico melhor a cada vez.

E pedi o meu refri: 1, 2, 3, estou de bode, Marinês.

Me sentei e informaram-me que houve uma briga no bar; foram dois chapas conhecidos que vieram, beberam, jogaram dardo e resolveram que a desordem começaria por uma coisa qualquer, até banal.

Quem primeiro testemunhou o que houve na noite de ontem foi um barbudão com uma tatuagem de uma risonha caveira fumando charuto no bombado tríceps esquerdo.

Ele disse que a briga foi por causa de umas fotos que não deveriam estar no celular de quem as exibiu mesmo sabendo que a pancadaria começaria tão logo elas fossem vistas.

Outra testemunha refutou o barrigudo tatuado, porque, nesta outra versão, o quebra-quebra só ficou perigosamente descontrolado assim que o dono do bar reconheceu a filha de treze anos naquelas poses.

ꟷ 1, 2, 3, me exclua dessa, Marinês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário