Redemunho
O barulho veio de fora; fui ao quintal.
Olhei que olhei; sem nada que assombrasse, dei meia-volta. Com a mão na
maçaneta, o pé-de-vento varreu de minhas expectativas a inocência do curioso: era
chuva o que vinha, era a entrada de outra frente fria, a que trazia chuva.
Ainda que o tempo contasse a ladainha de
temporal anunciando-se por rajadas súbitas, nenhuma vaca passou por sobre casas
e nenhuns namorados largaram dos beijos pro espanto de ter uma vaca mugindo
alucinada em sobrevoo pelos telhados familiares.
Nas cercanias de jardins bem podados, dado
o fim do mistério, que a ventania, natural, pressupunha que alguma coisa caíra
pela sua força à passagem, folguei em beber vinho, esticar as pernas, não me escorar
em almofadas: melhor, a leitura era-me oásis cativante.
Outra vez houve ruídos; dos vários
seguidos, destacou-se um. Uma vez estrondoso, e grave, foi o que alarmou o pavor;
tal acontecido deu-se dentro, e perto, foi algo diverso do rangido dos dentes.
O saci que vira em um cisco não haveria
de ser quem testemunhasse a meu favor. Tornado corajoso, compreendi que eu
mesmo era quem, pé ante pé, averiguaria a origem do ocorrido.
Pois então, mesmo cismado, lá fui eu.
E dei com gatos.
Vi a janela pela qual os dois entraram,
corridos pela chuva. Lembrei-me do vidro espatifado que derrubara à tarde. A
janela escancarada, porque já esvaecido o cheiro de álcool, fechei-a. Os cacos,
no chão da despensa, que ali eles restassem pro dia seguinte. A dupla, ela
correra para longe do meu alívio, que nenhum E.T. viera abrigar-se na mesma
residência em que ambos nos encontrávamos, os bichanos assustados e eu aflito,
porque me acutilavam intuições sobre o ouvido.
Minha mente não esquece, nem de repente,
o que me atormenta.
Como não dormia, apelei aos barbitúricos;
passava de uma da tarde quando fui acordado por uma sede danada.
Já que a luz me feria nas retinas, e
para não dar na cara, pus óculos escuros de lentes espelhadas e fui ao bar.
E fui penhorado desse mantra: 1, 2, 3, fico
melhor a cada vez.
E pedi o meu refri: 1, 2, 3, estou de
bode, Marinês.
Me sentei e informaram-me que houve uma
briga no bar; foram dois chapas conhecidos que vieram, beberam, jogaram dardo e
resolveram que a desordem começaria por uma coisa qualquer, até banal.
Quem primeiro testemunhou o que houve na
noite de ontem foi um barbudão com uma tatuagem de uma risonha caveira fumando
charuto no bombado tríceps esquerdo.
Ele disse que a briga foi por causa de
umas fotos que não deveriam estar no celular de quem as exibiu mesmo sabendo
que a pancadaria começaria tão logo elas fossem vistas.
Outra testemunha refutou o barrigudo
tatuado, porque, nesta outra versão, o quebra-quebra só ficou perigosamente
descontrolado assim que o dono do bar reconheceu a filha de treze anos naquelas
poses.
ꟷ 1, 2, 3, me exclua dessa, Marinês.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de junho de 2023.
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