quinta-feira, 1 de junho de 2023

O trivial do instante

 

O trivial do instante

 

Consciente das minhas fraquezas, admito que a que tem produzido mais alegrias que vergonha é o apego à razão: lógico!

Conscientemente lógico, confesso-me outro hedonista que se apraz em fazer do melhor modo o que o dia a dia tem para mim: beleza!

Não me condeno pelo prazer em tomar banho depois de ter corrido bancos e lojas. Me condenaria se, no meio da correria, tivesse deixado de assistir à moça interpretando Trem das Cores: bravo!

É comovente a lembrança vir dar comigo a querer um prodígio que me desperte pro tédio que é sempre ter fé na irritabilidade, embora eu fique embaraçado ao andar pelado pela praça: tô gordo.

É hilariante querer dormir mais do que tenho dormido quando o sol bate nas pernas, como se a manhã comunicasse que tenho de acordar e mandar consertar a TV, mas, mesmo dormindo eu sinto, é óbvio que vou da irritação comigo à raiva com o vizinho que não tem TV, e meus olhos traduzem os algarismos no celular: tô atrasado.

É mimoso pensar no gatinho que toma sol ao lado da cama, ele não finge que dorme nem eu finjo que concordo com quem diz que a pressa é dos outros, porque não tenho nada de me meter na vida alheia, pois ansiedade me dá fome, e fome lembra almoço: oba!

É estimulante pensar que vou almoçar, que tem mais gente em casa e que a mesa estará posta quando eu me sentar, ora, se o alarme não disparou é que a pessoa me conhece e quem agrada o bichano sabe que a manhã continuará ensolarada: maravilha.

É maravilhoso ter quem goste do gato, cuide dele como se cuidasse de mim, embora eu não mie nem quando estou tenso, sei que preciso levantar antes que me telefonem, sei do prazo pro envio do texto, tenho que fazer esse trabalhinho: já tá pago.

É esquisita a sensação de que sou outra pessoa: quem é você?

É salutar o desejo de acordar sem tédios nem melancolias, embora essa outra pessoa não queira papo comigo, porque eu tenho perguntas e quero que as respostas sejam sinceras, porque a verdade é uma só, ou a gente conversa ou o mundo continuará na mesma: uma droga.

É estranho outra pessoa cuidar da gente como se cuidasse do gato que continua dormindo mesmo com o sol forte, porque já é meio-dia e o marmitex em cima da mesa vai precisar do micro-ondas, ou a gente come a comida fria ou a gente fica feliz por compartilhar: eba!

É contagiante a ideia que o mundo pode ser melhorado, desde que se saiba qual seja esse melhor a ser construído, embora eu me enerve só de temer a frustração, porque os meus momentos de lucidez andam escassos, tenho sentido medo; quando estou com medo é que entendo que os dias são tristes, de tristezas pesadas, que me atrapalham, tiram de mim a vagareza, que eu corro e sei que estou correndo: é pra já.

É repentino o mundo que me revela ordinário, porque a gente pode conversar numa boa, embora eu ainda esteja cochilando: peraí!

É tenebroso esse mundo de sol com o gatinho faltando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2023.

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