O
trivial do instante
Consciente das minhas fraquezas, admito
que a que tem produzido mais alegrias que vergonha é o apego à razão: lógico!
Conscientemente lógico, confesso-me
outro hedonista que se apraz em fazer do melhor modo o que o dia a dia tem para
mim: beleza!
Não me condeno pelo prazer em tomar
banho depois de ter corrido bancos e lojas. Me condenaria se, no meio da
correria, tivesse deixado de assistir à moça interpretando Trem das Cores:
bravo!
É comovente a lembrança vir dar comigo a
querer um prodígio que me desperte pro tédio que é sempre ter fé na irritabilidade,
embora eu fique embaraçado ao andar pelado pela praça: tô gordo.
É hilariante querer dormir mais do que
tenho dormido quando o sol bate nas pernas, como se a manhã comunicasse que
tenho de acordar e mandar consertar a TV, mas, mesmo dormindo eu sinto, é óbvio
que vou da irritação comigo à raiva com o vizinho que não tem TV, e meus olhos traduzem
os algarismos no celular: tô atrasado.
É mimoso pensar no gatinho que toma sol
ao lado da cama, ele não finge que dorme nem eu finjo que concordo com quem diz
que a pressa é dos outros, porque não tenho nada de me meter na vida alheia,
pois ansiedade me dá fome, e fome lembra almoço: oba!
É estimulante pensar que vou almoçar,
que tem mais gente em casa e que a mesa estará posta quando eu me sentar, ora,
se o alarme não disparou é que a pessoa me conhece e quem agrada o bichano sabe
que a manhã continuará ensolarada: maravilha.
É maravilhoso ter quem goste do gato, cuide
dele como se cuidasse de mim, embora eu não mie nem quando estou tenso, sei que
preciso levantar antes que me telefonem, sei do prazo pro envio do texto, tenho
que fazer esse trabalhinho: já tá pago.
É esquisita a sensação de que sou outra
pessoa: quem é você?
É salutar o desejo de acordar sem tédios
nem melancolias, embora essa outra pessoa não queira papo comigo, porque eu
tenho perguntas e quero que as respostas sejam sinceras, porque a verdade é uma
só, ou a gente conversa ou o mundo continuará na mesma: uma droga.
É estranho outra pessoa cuidar da gente
como se cuidasse do gato que continua dormindo mesmo com o sol forte, porque já
é meio-dia e o marmitex em cima da mesa vai precisar do micro-ondas, ou a gente
come a comida fria ou a gente fica feliz por compartilhar: eba!
É contagiante a ideia que o mundo pode
ser melhorado, desde que se saiba qual seja esse melhor a ser construído,
embora eu me enerve só de temer a frustração, porque os meus momentos de
lucidez andam escassos, tenho sentido medo; quando estou com medo é que entendo
que os dias são tristes, de tristezas pesadas, que me atrapalham, tiram de mim
a vagareza, que eu corro e sei que estou correndo: é pra já.
É repentino o mundo que me revela
ordinário, porque a gente pode conversar numa boa, embora eu ainda esteja cochilando:
peraí!
É tenebroso esse mundo de sol com o gatinho
faltando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de junho de 2023.
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