O
linguarudo
Desde que o mundo é mundo, sempre tem quem
apareça cheio de novidades. Esperta que só, tal pessoa atingida pelo raio da
sabedoria ganha audiência porque a sua arte está em ir pondo pitadas pitorescas
até no cochilo depois do almoço.
A pestana não chega a extirpar da alma
estranhamentos, tanto que os olhos deixam-se possuídos por uma fatia de torta
holandesa; ainda que continue intacta, no limite da obsessão, ela desaparece.
Sem nenhum garfinho, lambendo-se nos beiços,
a guloseima entra no circuito nervoso. Faz a eletricidade do prazer pegar em
correntezas, as que sobem ao coração e as descarregadas pelo cérebro. Sem tirar
nem pôr, a língua saliva de felicidade.
E a boca quer outro pedaço. Não é gula
nem é vício, a boca entende que é tortura ficar esperando outro bocado. Afinal,
uma torta holandesa merece condicionar a ideia de ser saborosa até em
pensamento.
Contudo, há vida; e vida depois de uma
torta holandesa saboreada por uma mente deliciada é bem outra. Há o abismo da
escassez.
De repente, o mundo parece ainda mais cruel
quando a torta falta.
De fato, criar um mundo menos abjeto exige
mais de quem se pega querendo transformar a fraqueza da carne em fortaleza da
mente.
É certo aumentar a confiança de quem se
põe a pensar ideias que não agradam. É bom diminuir o barulho pra que seja
captado direito o que incomoda. Enfim, tramando para que tal sensibilidade dissimulada
venha à tona sem as névoas da covardia, intua-se o alumbramento de que o desejo
segue sendo senhor de si.
Sim, a autoridade do medo escusa ser
reconhecida legítima. Quem acha que domina o que sente pode se gabar um
legítimo representante da razão, todavia não passa de mero espalhador de vento.
Todavia, voltemos.
Desde que o mundo é mundo, andará no
caminho do conhecimento quem se der ao trabalho de encadear os eventos como
fatos. Vem essa ideia à mente alvoroçada: aquele bicho que olhava sombras não soube
juntar o sol esplêndido com a vida projetada na parede? Na sequência, a matraca
traz notícias de outro mundo, do mundo iluminado pelo fogo brilhando no céu. Se
o sol existe, por que a pele está molhada?
Como a curiosidade dá ânsias para sondar
o desconhecido, alguns arriscam botar o nariz para fora da caverna. Desses
indomáveis, muito menos gente aposta colocar a cabeçorra sob os raios de luz
que vêm lá do alto. Finalmente, os raríssimos gatos-pingados comem dos frutos, nadam
nos rios e fornicam na relva macia.
Este mundo é mesmo muito ordinário.
A vida moderna é bem melhor do que a dos
cavernícolas ignorantes da própria sombra. Hoje não precisa fazer fogueira, porque
celular tem lanterna. Nem precisa correr atrás da torta holandesa de cada dia, pois
entregador atende por aplicativo. Aliás, nem convém andar com grana no bolso, pra
não rodar na esquina com a cuca pilhada de açúcar.
A beleza da vida pesa na gente.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2022.