quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Um instante a bel-prazer

 

Um instante a bel-prazer

 

Perdido de mim um instante, é bem provável que justamente neste instante, que a mente deixa passar e dele, por suposto, não tenha nada de razoável a dizer, é bem possível que me sinta só, irremediavelmente só, e estranhamente calmo.

No entanto, o tempo tem uns troços difíceis de digerir. Eu não forço a barra pra engolir. Não fico enjoado nem faço cara de bobo, pois bobo que é bobo não fica querendo entender este estado d’alma e desfruta a calmaria que o pasmo produz.

Se nem me sinto fora de mim sequer por um segundo, como posso estar surtado?

Engano-me que eu gosto e, por muito gostar de mim a fazer truques como diversão inocente a me resignar vivo entre os vivos, peço paz às pessoas que reconhecem minha condição de ser humano que se acha sentado, começando a comer e portanto sem tempo pra mais nada.

A reboque do instante, percebo que posso mas não quero saber de nada. Por um momento, é prático não ficar pensando na vida.

Agora, neste exato momento que a paz de espírito me controla, não tenho a necessidade de dizer que não estou adiantado nem atrasado, pois estou sentado e, numa boa, nem gosto nem desgosto disso.

Se raciocinasse em função do que faço, e sem ninguém carecendo de atenção, sinto que estou feliz por estar comendo.

Talvez a satisfação pela boca explique a cara de bobo. Com alguma imbecilidade a me convencer a seguir pensando que me preocupo com o caos da vida, e depois do almoço, então, muito mais.

Corto o bife, mastigo o tanto do filé que o garfo espeta. Quero o que entra pela minha boca. Sem drama de passarinho guloso, vou cortando e abocanhando, e automaticamente me desligo do mundo.

Comporto um autômato que come quieto.

Do meu ritmo descuido eu, que não me ocupo do que vou fazendo. No entanto, é melhor prevenir: quando manipulo o garfo, tenho certeza de que posso ser ameaça às pessoas.

De fato, represento perigo a quem me force a comer em paz.

Que minhas palavras não iludam: se não preciso lutar pela paz nem acho necessário defender minha paz enquanto estou comendo, façam o obséquio de ignorar-me comendo sozinho.

Pois, sem ofensa, sei como engolir sem engasgar: a mão tem faca e garfo, a boca tem dentes e a química do corpo faz o resto.

Portanto, não ficarei olhando à toa a comida no prato. É para fazer justiça com a boca que farei bom uso da coordenação motora e usarei garfo e faca com propriedade.

A bem da verdade, a vida avisa que passa.

Com a calçada cheia de gente, com a rua movimentada, tem quem atravesse fora da faixa. Buzinando, há quem mostre o tanto de irritação com quem só vai atravessando sem ligar pros carros.

Sem ter sobre mim o controle preciso de um chip, pagarei a conta, bicarei o cafezinho e lamentarei a traição do juízo: se fumasse, tragaria à felicidade devoradora de charutos de folhas de repolho sem que meu coração disparasse por um escondidinho de camarão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2022.

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