Um
instante a bel-prazer
Perdido de mim um instante, é bem
provável que justamente neste instante, que a mente deixa passar e dele, por suposto,
não tenha nada de razoável a dizer, é bem possível que me sinta só,
irremediavelmente só, e estranhamente calmo.
No entanto, o tempo tem uns troços
difíceis de digerir. Eu não forço a barra pra engolir. Não fico enjoado nem faço
cara de bobo, pois bobo que é bobo não fica querendo entender este estado
d’alma e desfruta a calmaria que o pasmo produz.
Se nem me sinto fora de mim sequer por
um segundo, como posso estar surtado?
Engano-me que eu gosto e, por muito
gostar de mim a fazer truques como diversão inocente a me resignar vivo entre
os vivos, peço paz às pessoas que reconhecem minha condição de ser humano que
se acha sentado, começando a comer e portanto sem tempo pra mais nada.
A reboque do instante, percebo que posso
mas não quero saber de nada. Por um momento, é prático não ficar pensando na
vida.
Agora, neste exato momento que a paz de
espírito me controla, não tenho a necessidade de dizer que não estou adiantado
nem atrasado, pois estou sentado e, numa boa, nem gosto nem desgosto disso.
Se raciocinasse em função do que faço, e
sem ninguém carecendo de atenção, sinto que estou feliz por estar comendo.
Talvez a satisfação pela boca explique a
cara de bobo. Com alguma imbecilidade a me convencer a seguir pensando que me
preocupo com o caos da vida, e depois do almoço, então, muito mais.
Corto o bife, mastigo o tanto do filé
que o garfo espeta. Quero o que entra pela minha boca. Sem drama de passarinho
guloso, vou cortando e abocanhando, e automaticamente me desligo do mundo.
Comporto um autômato que come quieto.
Do meu ritmo descuido eu, que não me
ocupo do que vou fazendo. No entanto, é melhor prevenir: quando manipulo o
garfo, tenho certeza de que posso ser ameaça às pessoas.
De fato, represento perigo a quem me force
a comer em paz.
Que minhas palavras não iludam: se não
preciso lutar pela paz nem acho necessário defender minha paz enquanto estou
comendo, façam o obséquio de ignorar-me comendo sozinho.
Pois, sem ofensa, sei como engolir sem
engasgar: a mão tem faca e garfo, a boca tem dentes e a química do corpo faz o
resto.
Portanto, não ficarei olhando à toa a
comida no prato. É para fazer justiça com a boca que farei bom uso da
coordenação motora e usarei garfo e faca com propriedade.
A bem da verdade, a vida avisa que
passa.
Com a calçada cheia de gente, com a rua
movimentada, tem quem atravesse fora da faixa. Buzinando, há quem mostre o
tanto de irritação com quem só vai atravessando sem ligar pros carros.
Sem ter sobre mim o controle preciso de
um chip, pagarei a conta, bicarei o cafezinho e lamentarei a traição do juízo:
se fumasse, tragaria à felicidade devoradora de charutos de folhas de repolho
sem que meu coração disparasse por um escondidinho de camarão.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2022.
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