Vento
solar
Zanzando por aí, ganho abraços de amigos
da velha guarda, gente da minha idade, um pessoal que adolesceu nos anos
setenta, é patota que sabe dizer o nome dos três patetas sem recorrer à Wikipédia.
Que experiência boa poder abraçar uns e
outros sem a angústia de desconfiar, sem recusar as demonstrações carinhosas de
afeto. Prefiro abraços calorosos a constrangimentos boçais.
Que delícia encontrar pessoas que elogiam
quando recebidas com elogios. Que maravilha saber que podemos compartilhar alegrias
com entusiasmo, que sobrevivemos ao pandemônio causado por um vírus. É muito
bom seguir vivo apesar do cotidiano insistir em inocular em nós uma torrente de
infelicidades.
Ter sobrevivido ao medo me autoriza a mudar
de calçada ao avistar quem vem sem máscara. Sobrevivente, não faço drama algum ao
virar as costas a quem vive a azucrinar as vacinas.
Condescendência não me fortalece e o que
não fortalece deixa-me triste. E ficar reprisando um filme hediondo tantas
vezes visto é burrice. Prefiro receber beijinhos a ter que denunciar velhacarias.
Com astral lá em cima, nada macambúzio,
eis que meu cérebro vai abrindo janelas a cada cumprimento amistoso. E o ar flui,
a brisa dá a renovada necessária, e o ambiente fica mais agradável, com muita
luz, menos tóxico. Porque as tristezas derrubam e prostram, delas eu quero
distância. Eu ando feliz da vida. Naturalmente contente, aliás.
Atualmente, quero muito ter distância de
pessoas de mal com a vida porque, depois do susto da doença sem controle, quero
manter o foco no que for positivo para todo mundo, exclusive os velhos babacas.
Estou de bem comigo. Penso nas borboletas
polinizando laranjais. Imagino filhotes mamando. Mentalizo bagres limpando o
leito dos rios. Tenho o dia todo para seguir desejando que o dia prossiga bom.
Como eu não quero discutir que o ar
mortiço de ambiente fechado intoxica, mofa e repele quem gosta dos espaços aprazíveis,
arreganho as janelas.
E o vento gira as pás, o moinho produz a
farinha, a moagem reduz a pó o que é milho. Sendo ainda milho na substância de
sua essência, o grão tem transformada sua existência, feito fubá. E fubá vira
polenta, broa, torta, bolo. Gosto muito de angu. Então, o vento destrói a
matéria, transfigura-a, dá-lhe outra condição e, nessa nova configuração, segue
sendo alimento a quem tem fome. E há que se digerir com o estômago que se tem.
No fundo, o milho sempre serve para fortalecer corpos.
E como não hei de pipocar...
Embora soe uma fantasia absurda a quem
adepto do realismo, cuja prédica fundamental diz que é razoável evitar
comparações aleatórias, porque a maioria das pessoas quer entender, compreender
e repassar o que lhe dizem sem parecer confusa, enfatizo que não dá para
reduzir a beleza solar da vida a cheiro azedo de milho de lavagem que o vento
escarra na minha cara.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2022.
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