quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Vento solar

 

Vento solar

 

Zanzando por aí, ganho abraços de amigos da velha guarda, gente da minha idade, um pessoal que adolesceu nos anos setenta, é patota que sabe dizer o nome dos três patetas sem recorrer à Wikipédia.

Que experiência boa poder abraçar uns e outros sem a angústia de desconfiar, sem recusar as demonstrações carinhosas de afeto. Prefiro abraços calorosos a constrangimentos boçais.

Que delícia encontrar pessoas que elogiam quando recebidas com elogios. Que maravilha saber que podemos compartilhar alegrias com entusiasmo, que sobrevivemos ao pandemônio causado por um vírus. É muito bom seguir vivo apesar do cotidiano insistir em inocular em nós uma torrente de infelicidades.

Ter sobrevivido ao medo me autoriza a mudar de calçada ao avistar quem vem sem máscara. Sobrevivente, não faço drama algum ao virar as costas a quem vive a azucrinar as vacinas.

Condescendência não me fortalece e o que não fortalece deixa-me triste. E ficar reprisando um filme hediondo tantas vezes visto é burrice. Prefiro receber beijinhos a ter que denunciar velhacarias.

Com astral lá em cima, nada macambúzio, eis que meu cérebro vai abrindo janelas a cada cumprimento amistoso. E o ar flui, a brisa dá a renovada necessária, e o ambiente fica mais agradável, com muita luz, menos tóxico. Porque as tristezas derrubam e prostram, delas eu quero distância. Eu ando feliz da vida. Naturalmente contente, aliás.

Atualmente, quero muito ter distância de pessoas de mal com a vida porque, depois do susto da doença sem controle, quero manter o foco no que for positivo para todo mundo, exclusive os velhos babacas.

Estou de bem comigo. Penso nas borboletas polinizando laranjais. Imagino filhotes mamando. Mentalizo bagres limpando o leito dos rios. Tenho o dia todo para seguir desejando que o dia prossiga bom.

Como eu não quero discutir que o ar mortiço de ambiente fechado intoxica, mofa e repele quem gosta dos espaços aprazíveis, arreganho as janelas.

E o vento gira as pás, o moinho produz a farinha, a moagem reduz a pó o que é milho. Sendo ainda milho na substância de sua essência, o grão tem transformada sua existência, feito fubá. E fubá vira polenta, broa, torta, bolo. Gosto muito de angu. Então, o vento destrói a matéria, transfigura-a, dá-lhe outra condição e, nessa nova configuração, segue sendo alimento a quem tem fome. E há que se digerir com o estômago que se tem. No fundo, o milho sempre serve para fortalecer corpos.

E como não hei de pipocar...

Embora soe uma fantasia absurda a quem adepto do realismo, cuja prédica fundamental diz que é razoável evitar comparações aleatórias, porque a maioria das pessoas quer entender, compreender e repassar o que lhe dizem sem parecer confusa, enfatizo que não dá para reduzir a beleza solar da vida a cheiro azedo de milho de lavagem que o vento escarra na minha cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2022.

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