domingo, 16 de janeiro de 2022

Tarde boa

 

Tarde boa

 

O menino estava no quintal. Naquela tarde sem chuva, uma alegria pegou no menino, que ele sentou no chão, na terra úmida, porque tinha chovido. E o menino nem sabia quanto ficaria sentado, poderia a tarde toda, porque a sua mãe disse à sua avó que escola só no ano que vem, que ele era novo, que podia brincar a hora que quisesse. As aulas que demorassem um bocado. Que o menino brincava a qualquer momento, começava e pronto. E o bom de brincar era não ter de pedir pra brincar. Ele começava a brincadeira que quisesse. O menino erguia torres com gravetos que pegava no quintal, subia chupar laranja no pé. E tudo era brincadeira, e ele brincava como queria. Para que a brincadeira ficasse gostosa, bastava ele sozinho chutar bola ou andar descalço.

O menino sabia que brincava, e que a sua vida era brincar o tempo todo. Acordava e tomava café, aquilo era divertido, que bem o menino enchia a boca de café com leite e segurava o quanto achava que podia, só depois o café com leite descesse pra barriga. O menino gostava de amolecer bolachas no café que a mãe tinha posto no copo, que aquele copo era dele, tinha o Batman. Podia deixar uma bolacha ficar tão mole que ela sumia no café, e tinha açúcar no café com leite da mãe.

Então, o bom da vida andava dentro do menino. Era do jeito que ele olhava pro mundo, a começar pela família, porque na sua casa tinha o pai, a mãe, mais a irmã. Sem pôr caso que fosse um menino de família, e ele teria de ir à escola. E o menino gostava de brincar por saber que tinha uma família boa. E ele brincava onde vivia, que a casa era boa.

O menino era pequeno, mirrado, franzino, de pouca idade, que ele iria pra escola só no ano que vem. A sua mãe disse pra sua avó que o menino poderia brincar, sem falar que não era bom sentar na terra do quintal. E o chão atrás da casa estava meio enlameado, bem molhado, mas o menino sentou e o seu short ficou sujo, pegou umidade do barro e aquilo não tinha importância. Ficar de calção sujo e meio molhado é que não iria impedir a brincadeira, que ele tinha visto uns passarinhos numa bananeira.

Então, o menino pegou uma pedra, atirou, mas o tiro foi fraco, que ele nem chegou aos pés da bananeira. O menino pegou outra pedra, pôs mais força, achou que tinha posto bem mais força do que fez. A pedra deu no meio do tronco da bananeira, que o menino não gostou de ter feito errado o tiro. Ele queria acertar um passarinho, algum dos passarinhos que estavam no pé de banana que tinha no quintal. Pois o menino achou de atirar outra pedra, pegou uma grande, brincou com a pedra, jogando pro alto e pegando sem deixar cair.

Então, o menino mirou bem, pôs fé que acertaria desta vez, que a pedra derrubasse o bicho. A pedra passou raspando, foi longe, passou que foi lambendo a bananeira, e assim foi que ela sumiu no riacho que corre atrás do terreno.

Achando bom não perder tamanha tarde linda, o guri pulou no rio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2022.

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