Tarde
boa
O menino estava no quintal. Naquela
tarde sem chuva, uma alegria pegou no menino, que ele sentou no chão, na terra
úmida, porque tinha chovido. E o menino nem sabia quanto ficaria sentado,
poderia a tarde toda, porque a sua mãe disse à sua avó que escola só no ano que
vem, que ele era novo, que podia brincar a hora que quisesse. As aulas que
demorassem um bocado. Que o menino brincava a qualquer momento, começava e
pronto. E o bom de brincar era não ter de pedir pra brincar. Ele começava a
brincadeira que quisesse. O menino erguia torres com gravetos que pegava no
quintal, subia chupar laranja no pé. E tudo era brincadeira, e ele brincava como
queria. Para que a brincadeira ficasse gostosa, bastava ele sozinho chutar bola
ou andar descalço.
O menino sabia que brincava, e que a sua
vida era brincar o tempo todo. Acordava e tomava café, aquilo era divertido,
que bem o menino enchia a boca de café com leite e segurava o quanto achava que
podia, só depois o café com leite descesse pra barriga. O menino gostava de
amolecer bolachas no café que a mãe tinha posto no copo, que aquele copo era
dele, tinha o Batman. Podia deixar uma bolacha ficar tão mole que ela sumia no
café, e tinha açúcar no café com leite da mãe.
Então, o bom da vida andava dentro do
menino. Era do jeito que ele olhava pro mundo, a começar pela família, porque
na sua casa tinha o pai, a mãe, mais a irmã. Sem pôr caso que fosse um menino
de família, e ele teria de ir à escola. E o menino gostava de brincar por saber
que tinha uma família boa. E ele brincava onde vivia, que a casa era boa.
O menino era pequeno, mirrado, franzino,
de pouca idade, que ele iria pra escola só no ano que vem. A sua mãe disse pra
sua avó que o menino poderia brincar, sem falar que não era bom sentar na terra
do quintal. E o chão atrás da casa estava meio enlameado, bem molhado, mas o
menino sentou e o seu short ficou sujo, pegou umidade do barro e aquilo não
tinha importância. Ficar de calção sujo e meio molhado é que não iria impedir a
brincadeira, que ele tinha visto uns passarinhos numa bananeira.
Então, o menino pegou uma pedra, atirou,
mas o tiro foi fraco, que ele nem chegou aos pés da bananeira. O menino pegou
outra pedra, pôs mais força, achou que tinha posto bem mais força do que fez. A
pedra deu no meio do tronco da bananeira, que o menino não gostou de ter feito
errado o tiro. Ele queria acertar um passarinho, algum dos passarinhos que
estavam no pé de banana que tinha no quintal. Pois o menino achou de atirar
outra pedra, pegou uma grande, brincou com a pedra, jogando pro alto e pegando
sem deixar cair.
Então, o menino mirou bem, pôs fé que
acertaria desta vez, que a pedra derrubasse o bicho. A pedra passou raspando, foi
longe, passou que foi lambendo a bananeira, e assim foi que ela sumiu no riacho
que corre atrás do terreno.
Achando bom não perder tamanha tarde
linda, o guri pulou no rio.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário