quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Pacote completo

 

Pacote completo

 

Na semana depois do Natal, não tendo sido atendido o pedido bem simples ꟷ só quero relaxar um pouco esta pessoa presa à consciência que gosta de tumultuar para seguir parada ꟷ, resolvi que me mexeria.

Embora quisesse um dedinho de paciência para comer sem pressa mais um pedaço de panetone, engoli depois de umas três mastigadas, consegui enfiar na cabeça que nem valeria tanto assim exigir respeito à lista de realizações inadiáveis.

Como não me preocupo com o funcionamento do fígado, virei beber copos e copos de leite enriquecido com cálcio, que isso era bom pros ossos, mas a quantidade exagerada atacou a vesícula.

Que vesícula? A minha foi retirada.

Pois é, vai entender como o organismo humano trabalha...

Ajo e falho, gero frustrações; vitorioso, crescem as expectativas de que eu possa virar especialista em conquistas avassaladoras.

Avassaladora foi a minha impotência diante do poder, pois o Papai Noel bem que poderia ter alguma simpatia por mim e ter valorizado a predisposição a errar cálculos banais, até pra não ultrapassar os limites recomendáveis ao trabalho normal das entranhas.

Sempre achei que poderia viver acreditando que um mundo melhor depende de nossa barriga digerir numa boa o que tem pra digerir, sem abrir o bico e pedir clemência à flora intestinal.

Peraí!

Uma ova que vou ficar chorando as pitangas.

Com um mercado pela frente, fui convicto, realmente esperançoso, pois ninguém agiria em nome deste cidadão.

Tenho direito a voto e exerço-o com alegria.

E declaro de peito aberto, voz mansa e sorriso sem nada de santo: estou certo de que depois do relâmpago vem o estrondo.

Radiante de lúcido, fui às compras com cinquenta reais.

Cinquenta?

Cinquenta, pois, ao vê-la tão curtinha na carteira, deu um dó sentido da gaita, então, peguei a nota que gerasse o maior número de notas.

Se dinheiro anda valendo o volume que faz, queria estufado o bolso.

Acredite, fiz o certo. Levando a carteira, as merrecas me deixariam incomodado. Atrás de algum compartimento secreto, iria fuçar ansioso.

De ansioso pra furioso, adeus bonde da felicidade.

E pior! Meu último amor me sorriria da foto que o zíper da bolsinha de moedas faz bem em resguardar do meu rancor.

Não quero viver outra vez o que passei.

Aliás, fiquei sozinho, em paz, nem fui à missa do galo. E, sem gente reclamando, fiz coro à Nara Leão, porque nasci feliz, nasci para bailar, e bailei até cair bêbado no sofá.

Finalmente, acordei! E acordei querendo sequilho.

No caixa, a mocinha sugeriu que trocasse aquele pacote que estava uma farofinha que dava nojo.

Não só não troquei, como juntei outro pacote. Porque não sou burro, não seria uma farofa que iria me impedir de constrangê-la a me sugerir a esperada troca, e ela cobrou sem dizer um A.

Comi tudo de uma vez. Tive azia, diarreia e vomitei.

Putz! Que olho gordo do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de janeiro de 2022.

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