domingo, 26 de dezembro de 2021

Céu a gosto

 

Céu a gosto

 

Imagine você que uma das minhas alegrias das festas de dezembro está perdida, a reunião à mesa. Já bem antes de a pandemia acentuar as tristezas, tinha me decidido a não tomar parte de ceias de Natal nem fazer a contagem regressiva pro Ano Bom. Porém, entenda-me, não é porque fuja das comilanças esfuziantes que também tenha me tornado avesso aos balanços reflexivos.

Faço-os com discrição, pois os meus rancores costumam provocar arroubos delirantes, como se as implosões da mente gerassem apenas sussurros da imaginação, mas, passado, chego a gritar.

De lápis à mão, luto comigo; e ferido, titubeio.

Com tantas mágoas dolorosas, que às vezes as percebo latejantes sem que palavras possam traduzi-las de modo inteiramente inteligível, luto por querê-las registradas por escrito. Luto e fracasso.

Embora sofra o tanto que tento evitar, procuro não capitular e dobro a aposta. Combato a tentação de dispersar-me, uma vez que, distraído pelos demônios do colapso, acabaria anotando as lembranças ligeiras, não as recordações relevantes, perturbadoras, que agem em silêncio.

Não que o azar da vida seja desprezível ou nem mereça crédito, só que vivo em trânsito, indo e vindo, entre o afável e a rispidez, o cômico e o dramático, o atrevimento e a prudência.

Cobro-me, assim, a lucidez de reconhecer que a vida até pode estar restrita ao sofrimento, mas, se vivesse em dor contínua, enlouqueceria ou, esgotado, morreria.

Fiel a mim, o quanto possível, acredito que estou consciente de que costumo me enganar achando que busco equilíbrio à vida, estabilidade ao caminhar, amortecimento ao impacto do pé chapinhando onda.

Pensando bem, a página do meu diário permanece em branco. Ora, se estou no comando, por que nada sobe à flor branca da folha?

Por amor ao texto, não aceito que o fortuito agite as águas, turve o límpido e a crônica suba à linha d’água como tábua de salvação.

Embora não tenha escrito a respeito na época nem tenha fotografia que me confirmem que estive realmente lá em 1981, não mais que de repente, brota o mar como o vi pela primeira vez. Recordo que garoava, subia uma neblina do mar. E tinha aquele taxista falando do crime que houve ali, houvera logo ali, com o corpo no Chapéu dos Pescadores.

Não há mar, há palavras.

E elas me escapolem, contradizem a vontade de comer uma pera: pegá-la da fruteira; escolhê-la por sua aparência e sua carne apetitosa; depois de lavada devagar, mordê-la sem afobação; mordê-la.

Ainda que o bom senso ache o amor uma coisa de louco, feito bobo, aprimora-me o riso, cultiva-me a lucidez, cativa-me o humor; apuro-me com o jogo.

Sem saber como a felicidade faz pra sumir com uma dor de cabeça chata, acontece: UM GOSTO DE SOL ganha minha atenção; com CÉU colada nos ouvidos, esqueço o baixo astral, e consigo dançar, assobiar e respirar, tudo isso ao mesmo tempo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2021.

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