O
décimo segundo
Se a vida fosse um jogo, teria regras.
Porque, sem regras, não seria simples determinar se há vencedor, ou mais de um,
quando a disputa acaba. Aliás, sem fixar o fim, e consequentemente definir as
posições de cada jogador, acarretaria embaraços e confusões. Note-se que não se
está sugerindo injustiças ou erros de julgamento, aponta-se que há começo e fim
ꟷ tais salvaguardas admitem emparelhar vida com jogo.
Aceita a brincadeira de dar à vida o
sentido de uma partida, que se faz ludicamente mórbida quando a contenda
considera integrantes: os tolos que se matam de trabalhar a troco de merrequinhas
de nada; os pacóvios que entregam o que não têm a quem não recusa ter mais do
que tem; e os inocentes que sentem que precisam bandear-se para os bobocas com
câimbras dolorosas que lutam pra nunca deixar a peteca cair ou brigam para
serem vistos como gente que gosta de se lambuzar enfiando a mão na cumbuca
alheia.
Pois é, fala-se da imparcialidade do
jogo como se não houvesse um determinismo cruel desde o nascimento. Sim, há
certos joguinhos que ludibriam pela leviandade desde o berço, que são os que
escondem a carta na manga porque trazem marcadas as cartas, todas elas, desde a
seleção dos felizes perdedores escolhidos a dedo para cometerem o erro de
pensar que jamais deixarão de perder.
Naturalmente, vence quem não conta com a
sorte pra alcançar uma vitória consagradora, porque pode manipular sem parecer estar
agindo como se a neutralidade estivesse instituída de antemão, com as regras indo
pro papel como instruções estabelecidas pro jogo limpo.
Como a honestidade pede, nada mais
cristalino do que avisar quem pode ganhar no final. De todo modo: quem pode, ganha
mesmo; e não precisa fazer muito esforço; com um pé nas costas, sagra-se
vencedor quem calça luvas de pelica pra lidar melhor com batata quente.
Muito bonito ficar falando assim, da
vida feito jogo, mas que jogo se estará imaginando? De xadrez, com sua malha
fina em que peões dão o sangue ao bispo que parte pra cima bradando lealdade ao
trono real? De damas, com os seus ziguezagues que dão tontura mal a gente veja
que jogou fora a chance de um baile menos indigno? De truco, que não faz conta
de querer controlada a gritaria bestial de seis, nove, marreco! Ou se está
propondo uma pelada em que a bola nossa das divididas é sempre a favor da zaga
truculenta?
Para evitar que a bola se perca pela
linha de fundo, estrile-se o apito pro intervalo regulamentar. Sim, é bom ter
um tempo pra respirar, ainda mais com a camisa já pesada, bem encharcada, tão calorosa.
Dá um nó nas tripas ter de dividir o ar
com quem chama o tira-teima apenas pra confirmar que a jogada besta só serve para
detonar a infeliz da nossa equipe.
Justiça seja feita a quem leva vermelho sempre
no banco: nada tem de esportivo ter de contar até dez atuando na cancha
adversária.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2022.
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