quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Retrato falado

 

Retrato falado

 

A fim de se preservar impressionante, dono de vozeirão intimidador, já que era muito homem pra falar grosso, ele falava pouco.

Não era exibido pra esgoelar denunciando ter tomado gol contra em plena peleja. Não preferia tal discrição, via-se obrigado a viver naquele mundo estreito. Nem que a partida começasse na chuva, com o campo que só lama, nem que estivesse atrasado, mal tendo o jogo começado, era bom no cumprimento de tabela.

Nunca adiassem nenhum jogo, uma vez que estava treinado a não escancarar o vexame. Sabia como garantir um honesto WO.

Sem pinta de competidor debelado, disfarçado perdedor contumaz, não chegava solando sem piedade. Não precisava nem tirar o pé, pois dificilmente entrava em dividida com quem lhe apontava a marca maior dos derrotados: o emparedamento pelas quatro linhas.

Com horror aos pigarros de comandante de trovoadas, que a quarta parede jamais desabasse na testa como vaia, ou o barco erraria longe do cais da sua tão almejada boa fortuna, dando rumo certo à sorte.

E tinha voz firme, forte, grossa, com filigranas de grosseria pontuais, pois ao jogo de cena fosse admitida a plateia hipnotizada, vidrada, sem condições de notar a cortina de fumaça como efeito do gelo seco.

Truque, ou artimanha, que ficasse invisível a falta de encantamento. Seguisse a vida como se viver dispensasse a graça dos afetos. Agisse com o gesto preciso à palavra bem-posta. Que fosse absurdo o desejo de ver-se como pessoa trancafiada numa voz de impostor, tonitruante.

Véu ajustado do rosto, a voz era a chave para não oferecer a face oculta. Pois só um raríssimo pio (nada, nada ocasional) tinha o condão pra denunciá-lo em maus lençóis, como fantasma despido do medo e da ameaça de dar medo.

Falando grosso, falando pouco, falava ao ponto.

Temia as tramoias do improviso.

Em pânico, pensando-se uma chuva passageira, um chuvisco leve, garoa que derrubaria pandorgas, mas não derrubaria urubus nem faria aviões serem desviados das rotas.

Como tinha que sustentar com a voz essa nuvem aterradora, de um chumbo enfurecido por raios mil, os seus olhos não sorriam.

A cara, reparando bem, não tinha como defendê-lo do quanto tinha recolhido do sereno das esferas escoado para o fundo dos vales. Sério, podia imaginar como não se revelar tão humano quanto alpinistas mais preparados. Rindo, vivia a um passo de ver aflorados seus solecismos de solipso embromador.

Embora seus vulcões fossem gordurosos, marcantes, cicatrizados, mapeava-os minúsculos, muito pequenos, que suas rugas não fossem bastantes nem suficientes, fossem tão ínfimas, as menores possíveis, dos tamanhos que permitissem o engenho da malícia engendrar a voz da montanha sobre a planície.

Aparecida, Auxiliadora e Socorro, as suas três estrelinhas, todavia, estatelavam-no um tartamudo todo afônico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2021.

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