Sortudos
Por uma baita coincidência, que só as
estrelas para explicar por que série de circunstâncias miraculosas aquilo se
tornou um acontecimento incrível: sem que soubessem da disposição de cravar as
seis dezenas durante as doze badaladas, eles entraram na lotérica minutinhos
antes do meio-dia, tomaram lugar em filas paralelas e, justamente na décima
segunda badalada, cada um teve apostado o jogo que levou de casa.
Como se as energias renovadoras do Ano
Novo não os orientassem em tudo que iam fazendo, eles suspiravam de quando em quando.
Determinados, mas só com olhar de lince
pra retratá-los agindo com a certeza de que um não sei que transcendental lhes
havia tocado em algum momento de suas rotinas tão normais.
Passando-se por história, o mistério se fazendo
ordinário, cada qual tomava a ducha diária. Entre seis e meia e sete horas, com
quarteirões a distanciá-los um do outro, a ligá-los, todavia, um curto-circuito.
Então, o formidável deu o ar da sua graça: o cheiro de queimado cresceu-lhes o
êxtase no instante em que cada qual não pronunciava em vão o nome daquela poderosa
deusa do funk.
Contudo, as faíscas do chuveiro não foram
um detalhe qualquer, já que a conexão cósmica começou a se tornar real na
madrugada, pois, pelejando pra escalar a Seleção do Tite pra Copa do Catar, os
números da sorte foram repassados pela mesma deusa do funk.
E essa boca carnuda sussurrou-lhes José,
nome comum a ambos, porque de fato os dois tinham esse nome, José.
Ao serem despertados pela deusa do funk,
cada José tratou de não esquecer os números que dariam fim ao desastre de viver
sem maiores alegrias. E o melhor meio de continuar lembrando as seis dezenas
era anotando-as num volante. Logo correndo, com o azul que não era mais o
simples azul, a Sena foi marcada.
Os dois Josés sabiam que a sonhada vida feliz
não haveria de ser construída solitariamente.
O primeiro José devia arrumar casamento
ou gastaria a dinheirama toda numa só noitada de Keep Cooler com a sublime
Suelen Cristine, aquela rainha sórdida nascida Marciana Maria.
Embora José estivesse contente por continuar
empregado, ou seja, embora reconhecesse o coração do patrão que poderia tê-lo
despedido porque o restaurante ficara fechado durante a primeira onda do
corona, não mais se vendo obrigado a ficar somente contente, o segundo José queria
ser mais útil à sociedade inteira.
Desconfiados, já que alguma coisa muito
boa estava pra acontecer, os dois Josés comeram pastel, beberam guaraná, ouviram
as notícias, tiraram uma casquinha de quem ainda não tinha tomado vacina e, com
o temporal armado, sumiram que nem saci.
Uma vez que a esperança estivesse lançada,
José e José, cada um no seu lar, entraram, beberam, fumaram, quedaram desdenhar
do céu carrancudo, pois a deusa do funk, ela própria, era a mãezona de todas as
Megas Premiadas.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2022.
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