A
gorjeta
Como prezo a paciência, não refreio o
ímpeto de dar cabo de inseto que vem sugar sangue. Ora, antes ele morto do que
eu irritado.
Outro dia, veio pernilongo fazer gracinha
nas minhas pernas. Levou tapa, foi zonzo ao chão, fulminei-o de sola.
Ao lado do morto, achei cinco centavos.
E poderia ter mais. É como diz o ditado: a sorte faz o sortudo; moeda com moeda,
o rico.
Como a lucidez dos atentos ensina a
ouvir as ruas, não tirei os olhos da calçada. Fui andando lento, nem que
encontrasse apenas migalhas. Por intuição, eu sabia que estava na trilha da
fortuna. Boa, e muito boa, nem me pus a duvidar do quilate da minha lavra, e
fui projetando uma escultura com os excrementos da sorte.
De modo algum que iria descuidar da
escuta, nem por miado fortuito nem por freada bruta. Sendo homem que acredita
em muito do que diz o povo, segui, calado e confiante, à cata da mina. Vi
baganas, também vi tampinhas e, alegrando-me com minhas esperanças, fui prevendo
o ouro relinchando um futuro menos sombrio.
Não estava perdido, certo de que minha
mente, como a de qualquer outro, tinha o poder histórico de produzir boas
notícias, ia desejoso de uma felicidade construída apesar dos acasos. De fato, sentia
os meus pulmões fazendo subir mais e mais aquele monumento de indiscutível
valor. Mango a mango, lavando o meu espírito com a arte da boa ação, com milhares
de moedas desemporcalhando o caminho.
Como não deixaria pra outro o que eu poderia
fazer, ainda que haja tanta dispersão nas ruas, não desistiria de separar e
recolher moedas.
Por temer ficar suando em bica, a minha
boca secou. Precisava do refresco de uma sombra. Perto tinha uma pracinha e,
sob as árvores, eu queria beber um suco. Sabendo que tomaria uma limonada
gelada, ainda que desabasse o temporal, eu ia lento, atento, e ia sem medo.
O mormaço era de tempestade. Mesmo que a
chuva fosse intensa, a ideia de ficar onde estava foi crescendo em mim. Carregado
de folhas secas, o meu cansaço dizia que a natureza tinha ciclos. Entretanto,
sou fraco. Tenho essa fraqueza de ver as copas ressecadas, ainda que não
estejam. Penso como idiota, um triste e fraco idiota que vê estabilidade no
desespero, todavia a primavera virá.
Luisinho apareceu. E uma vez aparecido, disse
que a máquina de lavar pifou de repente. Como quem faz não fica contando papo,
o rapaz foi ágil: desmonta daqui, aparafusa dali e o troço voltou a funcionar.
Com a lava-roupa novinha outra vez,
Luisinho sugeriu um desconto porque pagaria à vista, só que o moço dava
garantia do serviço feito. Embora não pretendesse ofender quem sabia o justo
pelo tempo gasto no conserto, Luisinho insistiu no choro camarada.
Obtido o abatimento, a bondade em pessoa
tratou como generosa gorjeta a quantia abatida que foi reposta ao valor pedido
inicialmente.
Caramba, isso não é ridículo nem
mesquinho, é brilhante.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2022.
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