terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A gorjeta

 

A gorjeta

 

Como prezo a paciência, não refreio o ímpeto de dar cabo de inseto que vem sugar sangue. Ora, antes ele morto do que eu irritado.

Outro dia, veio pernilongo fazer gracinha nas minhas pernas. Levou tapa, foi zonzo ao chão, fulminei-o de sola.

Ao lado do morto, achei cinco centavos. E poderia ter mais. É como diz o ditado: a sorte faz o sortudo; moeda com moeda, o rico.

Como a lucidez dos atentos ensina a ouvir as ruas, não tirei os olhos da calçada. Fui andando lento, nem que encontrasse apenas migalhas. Por intuição, eu sabia que estava na trilha da fortuna. Boa, e muito boa, nem me pus a duvidar do quilate da minha lavra, e fui projetando uma escultura com os excrementos da sorte.

De modo algum que iria descuidar da escuta, nem por miado fortuito nem por freada bruta. Sendo homem que acredita em muito do que diz o povo, segui, calado e confiante, à cata da mina. Vi baganas, também vi tampinhas e, alegrando-me com minhas esperanças, fui prevendo o ouro relinchando um futuro menos sombrio.

Não estava perdido, certo de que minha mente, como a de qualquer outro, tinha o poder histórico de produzir boas notícias, ia desejoso de uma felicidade construída apesar dos acasos. De fato, sentia os meus pulmões fazendo subir mais e mais aquele monumento de indiscutível valor. Mango a mango, lavando o meu espírito com a arte da boa ação, com milhares de moedas desemporcalhando o caminho.

Como não deixaria pra outro o que eu poderia fazer, ainda que haja tanta dispersão nas ruas, não desistiria de separar e recolher moedas.

Por temer ficar suando em bica, a minha boca secou. Precisava do refresco de uma sombra. Perto tinha uma pracinha e, sob as árvores, eu queria beber um suco. Sabendo que tomaria uma limonada gelada, ainda que desabasse o temporal, eu ia lento, atento, e ia sem medo.

O mormaço era de tempestade. Mesmo que a chuva fosse intensa, a ideia de ficar onde estava foi crescendo em mim. Carregado de folhas secas, o meu cansaço dizia que a natureza tinha ciclos. Entretanto, sou fraco. Tenho essa fraqueza de ver as copas ressecadas, ainda que não estejam. Penso como idiota, um triste e fraco idiota que vê estabilidade no desespero, todavia a primavera virá.

Luisinho apareceu. E uma vez aparecido, disse que a máquina de lavar pifou de repente. Como quem faz não fica contando papo, o rapaz foi ágil: desmonta daqui, aparafusa dali e o troço voltou a funcionar.

Com a lava-roupa novinha outra vez, Luisinho sugeriu um desconto porque pagaria à vista, só que o moço dava garantia do serviço feito. Embora não pretendesse ofender quem sabia o justo pelo tempo gasto no conserto, Luisinho insistiu no choro camarada.

Obtido o abatimento, a bondade em pessoa tratou como generosa gorjeta a quantia abatida que foi reposta ao valor pedido inicialmente.

Caramba, isso não é ridículo nem mesquinho, é brilhante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2022.

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