terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo.

Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu.

Nem ri nem chorei, não perdi tempo tentando argumentar.

Ao perceber minha incapacidade para impedir a cabeça começando a pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal. Se saí sem calombo algum na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Contudo, foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, foi-me útil ao proteger os fundilhos e fugir do “marcha soldado”.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. E adoro viralizar as besteirinhas que curto.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que fui dormir. Sequer tive o prazer de um frugal copo d’água acompanhado de uma bolachinha água e sal.

Barriga vazia é oficina do diabo, professa o único faquir compulsivo que não faz parte da família. Não faz e continuará de fora porque esse magro de ruim tem a pachorra de convencer qualquer pessoa de que o inferno está cheio de gente que não aceita comer na sua mão.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada. A diatribe do balacobaco, porém, é que eu salivo como se fosse meu este pensamento.

Contrariado. Irritado. Sucumbo, e deixo vir à mente que o meu corpo é um gato tocando cuíca. Que coisa ridícula! Rio alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. E observo, quem está perto nem ouviu o riso solto ou nem chegou a se interessar pela gargalhada supostamente idiota.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Excelente! Esboço um interesse no homem que pinta.

Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo, o homem está pintando uma menina que balança.

Tomando o cuidado de parecer desinteressado, pois não quero que fique aborrecido, ponho um olho no quadro pintado e outro na menina balançando.

Tem alguma coisa que não está batendo.

A mancha colorida parece não retratar a cena da menina no balanço à frente do homem trabalhando.

Forçando um pouco o pescoço, consigo ver o que o quadro tem de esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2022.

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