O
presente
Primeiro dia do ano, é bom pôr as coisas
nos seus devidos lugares, daí que dá essa comichão de exagerar os defeitos dos
outros e tirar o peso dos erros cometidos no ano recém-passado. Porém, para não
se prender ao já vivido, ou se pega leve com a ressaca ainda parada na boca do
estômago ou uma dor de cabeça hiperbólica topa transformar os abusos da virada nuns
cataclismos irrefreáveis.
Decididamente, é por excesso de motivo
aparente que capotar de bêbado na beira-mar torna fácil explicar o porquê de escarrar
espuma. A dificuldade, no entanto, está em se livrar das sete ondinhas sem
ficar enjoado com a maré subindo boca afora, como se a indiscrição pedisse estes
arrotos carnavalescos.
Melhor imaginar alguma coisa menos cômica
e nojenta.
Sabe aquela pessoa amiga, legal, que
curte um papo descontraído, que está fazendo aniversário justamente nesta data
querida?
Escolha ir visitá-la, peça para abraçá-la,
tente trocar beijinhos. Faça isso e talvez você aguente o perfume azedando a
cena tão singela.
Vá, mas não vá porque sente que tem que
ir. Não queira ir só para agradar ou não fazer feio. Não aja por obrigação. Pois
marcar presença é atitude burocrática, e não comece a agir de maneira passiva.
Pondo de lado as burrices que sempre pedem para ser perpetradas de novo, lembre-se de que janeiro é ótimo para encarar o
futuro.
Vamos, não volte a empurrar com a
barriga a sujeira para debaixo do tapete. Não se iluda, a montanha majestosa
proeminente no meio da sala é fruto do seu ego. Com a vassoura e a pá formando um conjunto harmoniosamente fotogênico, o jogo é inútil.
Livre-se da balela de acreditar-se mudado,
empenhe-se em mudar. Anime-se, não deixe pra depois: varra e faxine. Pois varal
de camisetas pingando prova que roupa suja se lava com água e sabão.
Não duvide, abrir janela não impedirá a
mente de ficar babando com pudim. Suar de um lado pro outro não diminui um
tiquinho a queimação do estômago. Aceite logo, não há frase feita que abale um alicerce.
Você acha que rabiscar parede não quebra
ponta de lápis?
Tem quem viva ambicionando outro amanhã.
E tanto fala nisso que a gente nem pensa duas vezes ao lhe emprestar a
credulidade. Porém, quando não tem ninguém olhando, a saliva ajuda na hora de contar
a bufunfa ganha com a nossa sensibilidade perdulária.
Ligue os pontos.
Por amor à amizade, vá.
Ainda que servido gelado, experimente o vinho
tinto.
Ganhe fôlego. Pense no livro maravilhoso
que precisa indicar, pois seus versos incríveis saem diretamente da memória.
Ouça com carinho. Queira assistir àquele
filme que nem tinha posto na sua lista de desejos.
Sinceramente, só promessas honradas
merecem ser assumidas.
Por isso, e consequentemente, a mão espalmada
do aniversariante adora sentir reais as cem pratas da aposta.
Afinal, suas doze latinhas de breja
sempre vêm pra festa.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2022.
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