Tolices
“Vivemos dias em que é preciso escrever
tolices”, agrada-me fazer pilhagem destas palavras de Antônio Maria, sobreviventes
a 1964.
Se fosse escrever um livro, se tivesse a
audácia de propor uma obra repleta de parvoíces, jogaria as aspas do Maria logo
na abertura, como aperitivo leve, sem dar coral às oxidadas âncoras bem-pensantes,
pois me serviriam de epígrafe às tantas Tolices do bom amigo.
Menos, não se exalte, menos.
Pois, então, o sabiá da crônica sabia
que, naquele inferno redentor, no coração de cada brasileiro havia uma dor intensa,
demasiadamente sufocante, que tangia os livres aos matadouros quase clandestinos,
tal qual a presente apocalíptica bem-aventurança de proclamar aos céus
augustos, com cara de pau diabolicamente angelical, que seja negada, quiçá apenas
adiada, aos braços das crianças a salvação pela vacina.
Sem tirar nem pôr: então e agora,
estupidez é o que nos une.
Estúpido, não um tolo, é que concordo em
arrumar algumas tralhas destrambelhadas que trago corroendo dentro de mim, como
suco ácido inventando de danificar tudo por onde passa. Ou, ao menos, me ajude
a converter amor, calma e prazer num alvo menos abstrato; a gosma ganhe corpo;
pra que o bem encarnado possa ser benzido por um belo beijo, e que esse beijo
tenha tudo de misericordioso.
Piedoso, não um estúpido.
Nem preciso falar que este bicho benigno,
que agora está fervendo, arranhando, carcomendo, apodrecendo, empesteando e corrompendo
a mim que vivo à solta no mundo, tão à toa, só que, subitamente atento às
tolices que digo, acho redundante falar que esta força sobrenatural me mesmeriza,
porque o monstro que me encara com meus olhos tem o olhar de gente pura que diz
o quanto estou curado, é um milagre!
Por ingenuidade, não por crueldade: é melhor
virar a página.
Desejoso de saltar o abismo para cair
feliz da vida no colo de 2023, tenho vertigem de precisar de algo bem forte.
Não quero café, suco de acerola ou chazinho
morno de hortelã.
Se quero mel, não quero vinho. Pois não quero
apanhar de vara de marmelo. Que nunca gostei de ser surrado com vara de marmelo
nem com rabo de tatu. Nunca gostei.
Só não sei se no Marmeleiro, no mosteiro
dos carmelitas descalços, não sei se terei o mel de marmelo que quererei.
Lá posso orar por camelos travessos na
travessia do deserto que já descortino novo no próximo ano.
Se os frades confrades só bebem licor de
marmelo que não beberei, a eles não perguntarei o nome do camerlengo que eles
não têm.
Ademais, sem vigiar transeunte cansado, vou
orar por quem pira na batatinha e, por tanto adorar um purê, recua de pronto, que
o apavora o pomodoro do molho cobrado em dobro.
Com os olhos tentados a me tapear sem dó,
por pura perdição, esse molenga frívolo, que não passa de outro tolo sentimental,
esse coitado estraga a barriga: empanturro-me com miojo frito no bacon.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2021.
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