terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Tolices

 

Tolices

 

“Vivemos dias em que é preciso escrever tolices”, agrada-me fazer pilhagem destas palavras de Antônio Maria, sobreviventes a 1964.

Se fosse escrever um livro, se tivesse a audácia de propor uma obra repleta de parvoíces, jogaria as aspas do Maria logo na abertura, como aperitivo leve, sem dar coral às oxidadas âncoras bem-pensantes, pois me serviriam de epígrafe às tantas Tolices do bom amigo.

Menos, não se exalte, menos.

Pois, então, o sabiá da crônica sabia que, naquele inferno redentor, no coração de cada brasileiro havia uma dor intensa, demasiadamente sufocante, que tangia os livres aos matadouros quase clandestinos, tal qual a presente apocalíptica bem-aventurança de proclamar aos céus augustos, com cara de pau diabolicamente angelical, que seja negada, quiçá apenas adiada, aos braços das crianças a salvação pela vacina.

Sem tirar nem pôr: então e agora, estupidez é o que nos une.

Estúpido, não um tolo, é que concordo em arrumar algumas tralhas destrambelhadas que trago corroendo dentro de mim, como suco ácido inventando de danificar tudo por onde passa. Ou, ao menos, me ajude a converter amor, calma e prazer num alvo menos abstrato; a gosma ganhe corpo; pra que o bem encarnado possa ser benzido por um belo beijo, e que esse beijo tenha tudo de misericordioso.

Piedoso, não um estúpido.

Nem preciso falar que este bicho benigno, que agora está fervendo, arranhando, carcomendo, apodrecendo, empesteando e corrompendo a mim que vivo à solta no mundo, tão à toa, só que, subitamente atento às tolices que digo, acho redundante falar que esta força sobrenatural me mesmeriza, porque o monstro que me encara com meus olhos tem o olhar de gente pura que diz o quanto estou curado, é um milagre!

Por ingenuidade, não por crueldade: é melhor virar a página.

Desejoso de saltar o abismo para cair feliz da vida no colo de 2023, tenho vertigem de precisar de algo bem forte.

Não quero café, suco de acerola ou chazinho morno de hortelã.

Se quero mel, não quero vinho. Pois não quero apanhar de vara de marmelo. Que nunca gostei de ser surrado com vara de marmelo nem com rabo de tatu. Nunca gostei.

Só não sei se no Marmeleiro, no mosteiro dos carmelitas descalços, não sei se terei o mel de marmelo que quererei.

Lá posso orar por camelos travessos na travessia do deserto que já descortino novo no próximo ano.

Se os frades confrades só bebem licor de marmelo que não beberei, a eles não perguntarei o nome do camerlengo que eles não têm.

Ademais, sem vigiar transeunte cansado, vou orar por quem pira na batatinha e, por tanto adorar um purê, recua de pronto, que o apavora o pomodoro do molho cobrado em dobro.

Com os olhos tentados a me tapear sem dó, por pura perdição, esse molenga frívolo, que não passa de outro tolo sentimental, esse coitado estraga a barriga: empanturro-me com miojo frito no bacon.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2021.

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