Momento
crítico
Fiz algo simples. Não o fiz por escolha
ou pela recusa ao poder de decidir o que faria: eu simplesmente apaguei a luz.
Tendo apagado a lâmpada da sala, quis ir
à geladeira; também me propus que chegaria lá sem esbarrões nem joelhadas. De
estranho, os móveis portaram-se indiferentes ao meu deslocamento.
Minha sensibilidade acendeu o alerta. Por
que uma poltrona ou uma maçaneta poderiam achar que minha presença era
irrelevante, que eu nem merecia tomar uma topada bem dada?
Me moveria sem ficar tateando o espaço à
volta com algum respeito aos móveis, fossem os comprados por mim ou os
herdados.
Se bati com os cotovelos, não foi para
abrir passagem: quis marcar a epiderme das coisas com fragmentos da minha pele.
Por minúsculas que fossem, tais lascas contaminariam com minha realidade a
genética artificial de um cenário que se porta afrontoso aos fantasmas de gente
viva, porque sou fonte claudicante de desejos.
Se não há em mim um traço de desastrado,
forço derrubar um vaso. Mas o diabo do vaso fica que nem aí pro meu
despropósito, o que fere o orgulho que tenho da minha vaidade de pessoa ativa.
Não me perco, reajo de maneira
transparente às circunstâncias.
Sei de mim pelo comportamento de ser vivo,
que busco me localizar entre paredes, portas, janelas. Como viro sondar o
desassossego, trato de lapidar as farpas que agudizam as dores e sofrimentos.
Quero tanto que a casa sinta que estou circulando em suas entranhas.
Como a um bebê é permitida a gestação
com os desconcertos que transformações acarretam, ajuízo: vida é permanente mudança.
Todavia, não preciso de me conformar
congelado na sala da minha casa, que não é nem um palco nem uma cela. Não quero
esbarrar por esbarrar, quero-me vulnerável, frágil, quebrável. Quero ser tocado.
Sinto a treva. Pela confiança de não me ver
barrado, alegrar-me-ei com a deselegância de arrepiar os pelos da nuca.
Sinto, e me arrepio.
Chove forte na escuridão de minhas
angústias. Há rajadas de vento que uivam pelas frestas de minhas vergonhas. Suo,
não patino na urina das minhas temeridades infantis. Sem dó nem piedade, a
consciência arrepiada estarrece os olhares tão familiares dos retratos.
Como não gosto nada de perder, aposto?
Perco quando não consigo o que quero, e
quero um vaso em cacos. Mesmo tentando, minhas mãos dão na porta da entrada.
Perdido, não encontro a mesinha de centro. Giro, rodo, rodopio, desabo de
joelhos. Bato com tudo no chão. Tonto e tendo os joelhos doloridos, fico pê da
vida, é patética a incompetência pra quebrar um vasinho de violeta. As mãos
buscam os pés da mesa. Ergo-me, endireito-me o quanto posso, como consigo. A
dor não é tanta. Não finjo que não sinto dor. Que doa onde estiver doendo.
Quero ir à geladeira, e decido que vou. Pegarei
o copo sem dar com a boca na borda. Respiro fundo: beber água não mata sede alguma.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2022.
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