O
sol de cada um
A vida não facilita, e retribuo na mesma
moeda. Não tergiverso, pois admito que não sou fã de gente que espera viver num
mar de rosas de facilidades benévolas. Tenho o gosto de complicar; e tanto não facilito
que me alegra dificultar o que a simplicidade considera prático.
Sei, não, acho muito conveniente tratar
o mundo como se ele fosse uma caravana que empaca de repente.
Lamento dizer, mas o comboio do circo
para na estrada mesmo sem acostamento ou porque tem pneu furado pela topada no
buraco ou ficar bebendo um copo atrás do outro foi acumulando água nos joelhos.
Donde se conclui que motorista pisa no
freio quando não tem como impedir o funcionamento dos rins encharcados de
birita.
Aliviar a bexiga, aliás, não altera em
nada essa maravilha dionisíaca que é encher o rabo de goró. Desce mais, nem
penso, e desço cervas, vinho e cachaça. Tomo porque gosto, mas exagero. Machuca,
dói, e já não chega, e já não paro.
Na praça, sem imitar um bêbado que quer
trocar pneu com a banda passando, não lamento que o pernilongo tenha decidido
que não tinha como ignorar a falta de sangue no organismo hematófago.
Não sei de onde vem o vampiro: seja
morcego que ataca vaca, boi ou bezerro; seja carrapato que chupa canelas moças ou
senhorinhas; seja o chupão na minha nuca.
Decidi deixar o bicho em paz. Que me
esquecesse, buscasse outra disposição. Sem febre, mas deitado no escuro, com a
mente obcecada em fixá-lo, entraria em transe com o mantra:
ꟷ Vá, pernilongo, vá ser feliz na
parede.
A minha mente anda fraca, sem gerar magnetismos
psíquicos, pois o dito sugador de sangue não foi dormir em parede alguma nem
entrou pros hematófagos anônimos.
Posto que não nasci pra facilitar a vida
de ninguém, sequer a minha, nasci pra pensar que tenho multiplicados os
pensamentos porque não sei dominar as forças do pensamento, e elas brincam
comigo de modo implacável, insondável, já irrespirável.
Como uma Jolly Roger tremulando pilhada
ao sol do Caribe, e pirata de tapa-olho, perna de pau e um papagaio chamado
Errol Flynn, salto do lado obscuro da mente pra Rua das Flores bem na horinha
em que o verão começa.
Não tenho como explicar, mas a minha
cachola me põe em Curitiba ao mesmo tempo que estou em Ibiúna, chupando
sorvete. Sim, sim, lá como cá, chupo um delicioso sorvete de brigadeiro com a cobertura
de caramelo.
Opa!
Desconfio: há razão pra tudo, até pra isso.
Se é para complicar a bagaça, então, complico-a
todinha.
E este todo inclui o Vampiro caminhando
em paz. Sem boné, óculos escuros ou uma pasta 007. Uma da tarde, e Dalton
Trevisan passa que nem aí pro Dalton Trevisan que muita gente projeta que ele
seja.
Opa! Opa!
E tudo se encaixa. Encaixando, a crônica
não entra pelo cano. Com isso, pra ir indo pra cucuia, a vida segue não fazendo
sentido. E porque não faz ideia do absurdo, a graça de viver aí está, derretendo-se.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2021.
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