quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O sol de cada um

 

O sol de cada um

 

A vida não facilita, e retribuo na mesma moeda. Não tergiverso, pois admito que não sou fã de gente que espera viver num mar de rosas de facilidades benévolas. Tenho o gosto de complicar; e tanto não facilito que me alegra dificultar o que a simplicidade considera prático.

Sei, não, acho muito conveniente tratar o mundo como se ele fosse uma caravana que empaca de repente.

Lamento dizer, mas o comboio do circo para na estrada mesmo sem acostamento ou porque tem pneu furado pela topada no buraco ou ficar bebendo um copo atrás do outro foi acumulando água nos joelhos.

Donde se conclui que motorista pisa no freio quando não tem como impedir o funcionamento dos rins encharcados de birita.

Aliviar a bexiga, aliás, não altera em nada essa maravilha dionisíaca que é encher o rabo de goró. Desce mais, nem penso, e desço cervas, vinho e cachaça. Tomo porque gosto, mas exagero. Machuca, dói, e já não chega, e já não paro.

Na praça, sem imitar um bêbado que quer trocar pneu com a banda passando, não lamento que o pernilongo tenha decidido que não tinha como ignorar a falta de sangue no organismo hematófago.

Não sei de onde vem o vampiro: seja morcego que ataca vaca, boi ou bezerro; seja carrapato que chupa canelas moças ou senhorinhas; seja o chupão na minha nuca.

Decidi deixar o bicho em paz. Que me esquecesse, buscasse outra disposição. Sem febre, mas deitado no escuro, com a mente obcecada em fixá-lo, entraria em transe com o mantra:

ꟷ Vá, pernilongo, vá ser feliz na parede.

A minha mente anda fraca, sem gerar magnetismos psíquicos, pois o dito sugador de sangue não foi dormir em parede alguma nem entrou pros hematófagos anônimos.

Posto que não nasci pra facilitar a vida de ninguém, sequer a minha, nasci pra pensar que tenho multiplicados os pensamentos porque não sei dominar as forças do pensamento, e elas brincam comigo de modo implacável, insondável, já irrespirável.

Como uma Jolly Roger tremulando pilhada ao sol do Caribe, e pirata de tapa-olho, perna de pau e um papagaio chamado Errol Flynn, salto do lado obscuro da mente pra Rua das Flores bem na horinha em que o verão começa.

Não tenho como explicar, mas a minha cachola me põe em Curitiba ao mesmo tempo que estou em Ibiúna, chupando sorvete. Sim, sim, lá como cá, chupo um delicioso sorvete de brigadeiro com a cobertura de caramelo.

Opa!

Desconfio: há razão pra tudo, até pra isso.

Se é para complicar a bagaça, então, complico-a todinha.

E este todo inclui o Vampiro caminhando em paz. Sem boné, óculos escuros ou uma pasta 007. Uma da tarde, e Dalton Trevisan passa que nem aí pro Dalton Trevisan que muita gente projeta que ele seja.

Opa! Opa!

E tudo se encaixa. Encaixando, a crônica não entra pelo cano. Com isso, pra ir indo pra cucuia, a vida segue não fazendo sentido. E porque não faz ideia do absurdo, a graça de viver aí está, derretendo-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2021.

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