domingo, 30 de janeiro de 2022

O linguarudo

 

O linguarudo

 

Desde que o mundo é mundo, sempre tem quem apareça cheio de novidades. Esperta que só, tal pessoa atingida pelo raio da sabedoria ganha audiência porque a sua arte está em ir pondo pitadas pitorescas até no cochilo depois do almoço.

A pestana não chega a extirpar da alma estranhamentos, tanto que os olhos deixam-se possuídos por uma fatia de torta holandesa; ainda que continue intacta, no limite da obsessão, ela desaparece.

Sem nenhum garfinho, lambendo-se nos beiços, a guloseima entra no circuito nervoso. Faz a eletricidade do prazer pegar em correntezas, as que sobem ao coração e as descarregadas pelo cérebro. Sem tirar nem pôr, a língua saliva de felicidade.

E a boca quer outro pedaço. Não é gula nem é vício, a boca entende que é tortura ficar esperando outro bocado. Afinal, uma torta holandesa merece condicionar a ideia de ser saborosa até em pensamento.

Contudo, há vida; e vida depois de uma torta holandesa saboreada por uma mente deliciada é bem outra. Há o abismo da escassez.

De repente, o mundo parece ainda mais cruel quando a torta falta.

De fato, criar um mundo menos abjeto exige mais de quem se pega querendo transformar a fraqueza da carne em fortaleza da mente.

É certo aumentar a confiança de quem se põe a pensar ideias que não agradam. É bom diminuir o barulho pra que seja captado direito o que incomoda. Enfim, tramando para que tal sensibilidade dissimulada venha à tona sem as névoas da covardia, intua-se o alumbramento de que o desejo segue sendo senhor de si.

Sim, a autoridade do medo escusa ser reconhecida legítima. Quem acha que domina o que sente pode se gabar um legítimo representante da razão, todavia não passa de mero espalhador de vento.

Todavia, voltemos.

Desde que o mundo é mundo, andará no caminho do conhecimento quem se der ao trabalho de encadear os eventos como fatos. Vem essa ideia à mente alvoroçada: aquele bicho que olhava sombras não soube juntar o sol esplêndido com a vida projetada na parede? Na sequência, a matraca traz notícias de outro mundo, do mundo iluminado pelo fogo brilhando no céu. Se o sol existe, por que a pele está molhada?

Como a curiosidade dá ânsias para sondar o desconhecido, alguns arriscam botar o nariz para fora da caverna. Desses indomáveis, muito menos gente aposta colocar a cabeçorra sob os raios de luz que vêm lá do alto. Finalmente, os raríssimos gatos-pingados comem dos frutos, nadam nos rios e fornicam na relva macia.

Este mundo é mesmo muito ordinário.

A vida moderna é bem melhor do que a dos cavernícolas ignorantes da própria sombra. Hoje não precisa fazer fogueira, porque celular tem lanterna. Nem precisa correr atrás da torta holandesa de cada dia, pois entregador atende por aplicativo. Aliás, nem convém andar com grana no bolso, pra não rodar na esquina com a cuca pilhada de açúcar.

A beleza da vida pesa na gente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2022.

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