sábado, 25 de março de 2017


contramão

não faço poesia
como quem ouve nos versos
a música de todo dia

não faço poesia
como quem vê nos versos
a miragem de todo dia

não faço poesia
como quem inscreve nos versos
o pensamento de todo dia

faço poemas
ao silêncio de quem me ouve
à escuridão de quem me encontra
ao vazio de quem me entende


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


quinta-feira, 23 de março de 2017


vampirismo

a manhã é um túmulo
havia sangue nos dedos
os dedos no braço
um morto na agulha

o túmulo é uma manchete
haveria outra saída
a saída pelo sangue
um corpo à dose

a manhã nem fora a dose seguinte
o túmulo nem fora uma notícia

espelho é ausência


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



quarta-feira, 22 de março de 2017


à contraluz

há quem veja o alvo no imundo
há quem veja o mundo em alvoroço
mas mesmo no poço mais fundo
há também o fundo do poço



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 21 de março de 2017


o imaginário do poeta

queria traduzir seus atos em palavras
queria trazer para si o sentido
queria induzir-nos ao infinito
queria tudo isso

mas cometeu um etc


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)





segunda-feira, 20 de março de 2017



melindrado

não sou de esperar pelas respostas represadas
ou caminhar meus ossos sobre as formigas
faço festa sozinho

e sei o fogo sinto o cheiro vejo a chama
faço farra com quem queira

crianças sozinhas não perturbam

amigo
não sou de responder a chamados noturnos
ou morrer de medo normalmente

respiração ofegante não desmata a minha mente

o afogado temente à água?
o tremido na mágica de um afago?
nada!

olho penso digo

mamã, há holandas debaixo d’água!



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

sábado, 18 de março de 2017


pirapora

o barco eram crianças
era estranho o poente

naquele odor tudo era esquisito
as narinas ancoravam a náusea

peixes boiando nas nuvens
entre outros farrapos flutuantes

o banco de areia submerso na espuma?

esse incerto caís
a memória


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



sexta-feira, 17 de março de 2017


precariedade

agora há pouco
mas houve dias em que havia mais
tempo de ouro

há muito
como nunca houvera antes
à altura dessa fartura
tempo de sobra

há muito pouco
como sabe toda gente
o tempo todo


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)




quinta-feira, 16 de março de 2017



angústia

livrar-se das escamas
para melhor nadar
tal ensino o peixe conquista
ao cardume lunar

livrar-se das escamas
para solar tão só
tal peixe o ensino conquista
às voltas de si

livrar-se das escamas
para chegar longe
tal conquista ensina esse peixe
a danação que salva


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)






quarta-feira, 15 de março de 2017


indomabilidade

amestre-se, melhor amigo do homem.
abane o rabo. finja-se de morto a transbordar
humanidades. role no chão, tão impulsivo.
a feracidade do pensamento? que tormento!
pela disponibilidade do efusivo,
adestre-se, exemplo de fidelidade.
deixe-se ensinar à felicidade
das crianças, mas aprenda a largar
o osso, não queira escondê-lo.
e não se esqueça: se mostrar
as garras, dá-lhe focinheira!
que isso de espumar de raiva é besteira.
se sentar bonitinho, que gracinha!
e se ficar de guarda? e se der a patinha?
ô espantalho do sensato,
nem precisa tanto espalhafato,
o nove é mesmo pra falar com a atendente!

dizem que sou grossa... ora, gente,
grossa é a lã do novelo...
aliás, cadê o meu novelo?



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 14 de março de 2017


temor

tremem os dedos
confundem-se os olhos
falha a língua

e há tanto a dizer
dá um branco
faltam as palavras
confunde-se no todo

e há tempos quer dizer
mas ébrio do mar
como um barco a naufragar
bem que o tenta dizer

poeta ao mar
treme nem consegue falar
gagueja trava fica na mesma

burro a zurrar pelo olhar


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


segunda-feira, 13 de março de 2017



último poema


contraditório por costume
o poeta meio que atravessa o poema
imanando espelhos quando fala
afinado ao dissonante que o diz

assuntado no verbo
dá um peteleco numa rima
e vai sentar-se numa ideia

desequilibrado como um palhaço
desfia o seu tecido decorado
desfila sua fantasia
a do homembomdebemcomavida

sem o riso do divertido
como se as piscadelas de sua arte
nem pedissem a cumplicidade do aplauso
nem resistissem direito ao aparte
de um desgosto enxerido

perplexificação:
travestida nessa reflexão
a gente tira a corda do pescoço


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



sábado, 5 de março de 2016



na batucada

eis o poço em que me abrigo
de corpo inteiro na queda

não é preciso um sol sustenido
ao chumbo da saliva

o musgo zunindo-se paredes

escapando à escuridão
vem desse ventre
vem de baixo

corda feita de lama
imundando-me

a boca sangra
uns fonemas malabares
palavras sem língua

silva o translúcido
quase em harmonia
e ensurdecido


(rodrigues da silveira, 2015

sexta-feira, 4 de março de 2016


espanto 

raio de sol
o drama desse farol
fogo tramado

um vagalume cego

(rodrigues da silveira, 2015)







terça-feira, 1 de março de 2016


vagal

vago sobre a vaga
algo ou alga

demoro
imoto devoto
me rememoro

me devoro sumo
desmaio

arvoro o desrumo
como vário

(rodrigues da silveira, 2015)






segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016


sonho 

a face do visível na folha
escapa ao argumento
à vibração do olhar
vento branco

ao fundo outro branco
onde as palavras naufragam
indômitas informes transeuntes
aí a fantasia brinca
seus trancos mais necessários

espanto?

lápis às palavras
sem essa de pomba afogada
ou de sombra branca

faz da faísca
pensamento!

 (rodrigues da silveira, 2015)





sábado, 27 de fevereiro de 2016



proximidade

não sinto a borboleta não a sinto
na mão assentada em minha mão espalmada
o sentido do que não há

não solto a rã não a solto
falta ao sentido soltá-la
solto o ar ao saltá-la

não sigo o rio não o sigo
o tronco sobe o rio não o sobe naturalmente
a mente olha-se imóvel

não vejo o porto não o vejo
à margem do próximo bem aqui
aqui como ali

(rodrigues da silveira, 2015)