Hora
morta
Acautele-se, Seu Rodrigues. Ao que
parece, o senhor se acha num daqueles dias ― quando não precisa ser feliz,
bastando sentir-se, para que cometa idiotias, prodigalize estupidezes e
vulgarize imbecilidades, uma vez que sua incompletude conta que se veja integrado
ao mundo nem que seja feito sombra.
Indo às compras, acompanhe o seu duplo, veja
a figura projetada na calçada e pense: sejamos mais do que a soma destas
partes, a da carne que caminha e a da escuridão deslocada; sejamos à parte, que o
mundo vá adiante; e poderemos penar este instante, podemos padecer deste
instante, nós poderemos incluir o que você pensa sobre si ― um instante, confie
que possamos, você e eu, Seu Rodrigues e sombra, confie que saberemos ir lado a
lado, passo a passo.
Para que seja o que precisa no instante,
para que descubra você o seu instante, ou será preciso outro exemplo de
idiotice, que será desejo de ser senhor e servo pelo que o faz desejar-se?
Permita-se, bobo, as tolices que o ridicularizem.
Pelo que possa, deseje respirar um
instante sem que o sufoque do ar que respira. E passo a passo, vá às compras.
Passe pelo homem que vende relógios. Evite
aquela espiadinha de soslaio. Não troque olhares. Ouça, são cem reais,
mas não veja qual o modelo que está à venda por cem reais. Passe batido,
vá reto, que os seus olhos olhem onde pisa, queira que olhem onde pisa, e pise.
Chegue logo. Pegue a senha. Espere a
vez.
O homem que vende relógios nem pega a
senha, pois o açougueiro o chama. Pois bem, o açougueiro lhe dá preferência. Pela
idade a mais sobre qualquer na fila? Ele passe e peça a carne que deseja.
Ele ajeita a mochila que traz ao ombro.
Ele pergunta sobre maminha e costelinha, mas pede vinte reais da toscana mais
em conta.
Então, Seu Rodrigues, já que você sabe
que o homem que vende relógios chama-se Amadeu, suponha que ele seja filho do
Zé Caetano, aquele que tocava pífaro e demorou um ano e meio para vir da Paraíba,
pois seu polegar tinha muita dificuldade que lhe dessem carona, ainda que a sua
música fosse assaz supimpa.
Suponha, ainda, que o Amadeu vendedor de
relógio tenha nascido no dia 27 de janeiro, como o Mozart. É possível, também, que
seu pai tenha trabalhado pra um comerciante muito fã de Don Giovanni,
ópera do referido Wolfang Amadeus.
Em outras palavras, é provável que o
açougueiro tenha pedido que o ambulante passasse à frente porque ele, açougueiro,
tenha por ídolo precisamente o Wolfgang Amadeus Mozart, pois, mesmo sem prever que
um dia seu pai, dele açougueiro, viria a ser honrado como Rei do Amor Efêmero,
ele, Mozart, compôs As Bodas de Fígaro.
No mundo há gente boa que sabe ganhar a
vida vendendo coisas bacanas, não um CD pirata de A Flauta Mágica, mas um
Rolex que ninguém em sã consciência há de testar na água, só pra
constatar que os cem reais são um preço justíssimo a relógio que se afoga fácil.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de novembro de 2024.