domingo, 27 de outubro de 2024

Dia bom pra breja e picanha

 

Dia bom pra breja e picanha

 

Sem dúvida, é domingo. Com certeza, o domingo está meio gelado. Então, naturalmente, isso mais aquilo resulta neste caso interessante: na casa ao lado da minha, dois adultos e duas crianças estão vestidos como se este dia estivesse ensolarado, cujo ventinho sul é propício a bermuda e camiseta de manga curta.

Pela camiseta com o Seven Up acima do nº 7, infiro que o adulto é torcedor do Botafogo há muito tempo.

Ontem de manhãzinha, enquanto a família descia suas bugigangas, fomos simpáticos, Marx e eu, que não a estorvamos que circulasse do carro para a casa e vice-versa.

Também fomos afáveis: Marx, gracioso, latiu e lambeu a carinha da menina e a do menino, que o encheram de cafunés; e eu até calei o bico sobre ter estranhado que a motorista tivesse parado o veículo na frente da casa, ainda que, na garagem, caibam uma dúzia de automóveis, no mínimo.

Porém, agora há pouco, ao encontrar o torcedor do time da Estrela Solitária com a camiseta nº 23, do Almada, não tive dúvida:

― Você deve ser descendente de botafoguenses, hein?

― Que nada! Virei torcedor do Fogão por causa da minha esposa.

― Você tá tirando onda, né?

― Não é mentira, não. A bem da verdade, esta pode ser mais uma autêntica história carioca, porque a família dela morava perto de uma senhora chamada Joan.

― Aaah! Isso não é incrível? Uma senhora estrangeira, certamente inglesa, que só podia ser botafoguense...

― Não, não. O marido dessa vizinha é que tinha verdadeira paixão pelo Botafogo. Deu-se, então, que ela, a dona Joan, nunca falava nada sobre futebol, jogo no Maracanã ou os dribles do Garrincha.

― Não entendi. Se ela não falava de futebol, como é que ela veio a influenciar sua esposa pra que virasse torcedora do Botafogo?

― Pelas camisetas que ela dava de presente. Não tinha aniversário que não desse um manto do Glorioso.

― E você virou torcedor por causa... Quanto amor, né?

― Tem coisa que só explicando pra dimensionar o quanto a vida de torcedor do Botafogo foge à razão, a explicações.

― E Freud complica!

― Quando o time tem uma equipe que realmente empolga, como acontece hoje, o manto sagrado do Fogão vira uma segunda pele pra minha mulher, pros meninos e pra mim.

― Pois é. Me desculpe, mas eu também reparei que os quatro não tiram a camiseta do Botafogo desde que chegaram, parece que torcer pro Botafogo é obsessão, hein?

― A gente toma banho! Mas a gente veio curtir, e a nossa curtição é vestir camisas do Botafogo. Aliás, amigão, essa é a marca registrada da família. Em todas as nossas fotos no Insta a gente usa camisas do Botafogo. Se quiser seguir, somos @bandeirantesdofogão.

― Do fogão e da grelha. Rá rá rá! Já que você está assando uma carninha... Mas, fale a verdade, você veio de São Paulo neste dia por que não é Boulos nem Nunes, certo?

― Errado! Eu voto consciente! Assim como o Botafogo é o melhor, meu voto é Tabata!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de outubro de 2024.

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