Dia
bom pra breja e picanha
Sem dúvida, é domingo. Com certeza, o
domingo está meio gelado. Então, naturalmente, isso mais aquilo resulta neste
caso interessante: na casa ao lado da minha, dois adultos e duas crianças estão
vestidos como se este dia estivesse ensolarado, cujo ventinho sul é propício a
bermuda e camiseta de manga curta.
Pela camiseta com o Seven Up
acima do nº 7, infiro que o adulto é torcedor do Botafogo há muito tempo.
Ontem de manhãzinha, enquanto a família
descia suas bugigangas, fomos simpáticos, Marx e eu, que não a estorvamos que
circulasse do carro para a casa e vice-versa.
Também fomos afáveis: Marx, gracioso,
latiu e lambeu a carinha da menina e a do menino, que o encheram de cafunés; e eu até
calei o bico sobre ter estranhado que a motorista tivesse parado o veículo na
frente da casa, ainda que, na garagem, caibam uma dúzia de automóveis, no
mínimo.
Porém, agora há pouco, ao encontrar o
torcedor do time da Estrela Solitária com a camiseta nº 23, do Almada, não tive
dúvida:
― Você deve ser descendente de
botafoguenses, hein?
― Que nada! Virei torcedor do Fogão por
causa da minha esposa.
― Você tá tirando onda, né?
― Não é mentira, não. A bem da verdade,
esta pode ser mais uma autêntica história carioca, porque a família dela morava
perto de uma senhora chamada Joan.
― Aaah! Isso não é incrível? Uma senhora
estrangeira, certamente inglesa, que só podia ser botafoguense...
― Não, não. O marido dessa vizinha é que
tinha verdadeira paixão pelo Botafogo. Deu-se, então, que ela, a dona Joan,
nunca falava nada sobre futebol, jogo no Maracanã ou os dribles do Garrincha.
― Não entendi. Se ela não falava de
futebol, como é que ela veio a influenciar sua esposa pra que virasse torcedora
do Botafogo?
― Pelas camisetas que ela dava de
presente. Não tinha aniversário que não desse um manto do Glorioso.
― E você virou torcedor por causa...
Quanto amor, né?
― Tem coisa que só explicando pra
dimensionar o quanto a vida de torcedor do Botafogo foge à razão, a
explicações.
― E Freud complica!
― Quando o time tem uma equipe que realmente
empolga, como acontece hoje, o manto sagrado do Fogão vira uma segunda pele pra
minha mulher, pros meninos e pra mim.
― Pois é. Me desculpe, mas eu também reparei
que os quatro não tiram a camiseta do Botafogo desde que chegaram, parece que torcer
pro Botafogo é obsessão, hein?
― A gente toma banho! Mas a gente veio
curtir, e a nossa curtição é vestir camisas do Botafogo. Aliás, amigão, essa é
a marca registrada da família. Em todas as nossas fotos no Insta a gente usa
camisas do Botafogo. Se quiser seguir, somos @bandeirantesdofogão.
― Do fogão e da grelha. Rá rá rá! Já que
você está assando uma carninha... Mas, fale a verdade, você veio de São Paulo
neste dia por que não é Boulos nem Nunes, certo?
― Errado! Eu voto consciente! Assim como
o Botafogo é o melhor, meu voto é Tabata!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de outubro de 2024.
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