quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Ironias da vida

 

Ironias da vida

 

Dizer que Madalena sofre quando a vida dá uma rasteira, levando-a ao chão sem tempo pra proteger os joelhos, isso nem se discute, ela é outra coitada que, mesmo se mantendo esperançosa de não chamar a atenção, volta e meia mal se disfarça miseravelmente cambaia.

Quadro bem diferente oferece Mariana, não que a folgazã se divirta interpondo os pés no caminho de outrem, ela tem por muito engraçado qualquer tombo súbito, desde que o ridículo do trança pé dê o estrelato a terceiros.

Madalena e Mariana não são amigas; porque trabalham no mesmo supermercado, elas são colegas.

Na tarde desta que parecia ser mais uma segunda-feira entediante, um homem, ignorante das modorras do dia, procura Madalena.

― Filha, você sabe que eu te amo.

Afligida por uma angústia desesperadora, a moça toca o sininho pra que a liberem do posto, até que finalmente vieram ao caixa.

O homem que a segue é barrado por um segurança, todavia:

― Isso não está direito. Eu mereço outra chance, porque a verdade mais pura é que eu te amo. Eu te amo de verdade, filha.

Mais um segurança vem escoltá-lo para fora, entretanto:

― Estou sofrendo pra caraca, filha, pois eu te amo pra valer. E não digo isso só para que você volte a falar comigo. Como pai, filha, é meu dever lembrar que o meu amor por você não tem nada que ver com os problemas que a sua mãe tem comigo.

Já na calçada, à porta do supermercado, o homem ainda grita:

― Um pai nunca desiste do amor que ele sente, Madalena.

Contudo, no banheiro das funcionárias, Mariana diz:

― O seu pai é mesmo um canalha, Madalena.

Como as lágrimas não param, Madalena lava o rosto.

E Mariana tem algo a acrescentar:

― Mas não é porque ele traiu a sua mãe que o amor dele por você seja só da boca pra fora.

Escondendo o rosto com as mãos, Madalena senta na privada.

Mariana sente que é preciso continuar ajudando:

― Veja bem, talvez seja uma mentira das mais safadas, seja coisa de gente que não presta. Sei lá. Pode ser que ele queira parar de pagar a pensão que a lei manda que ele pague.

Por causa dos irmãos, o choro de Madalena cresce.

Sem dar papel para Madalena enxugar o rosto, Mariana insiste:

― Eita mundo absurdo!

Madalena não afasta as mãos que lhe encobrem o rosto.

― Como tem homem que nasceu pra ser calhorda, né?

Tendo conferido as notificações e recolocado o celular no bolso de trás da calça, Mariana acende um cigarro, dá uma tragada e diz com a convicção de fumante depois de uma prazerosíssima tragada:

― Caraca! Não que eu tenha muita certeza sobre o amor de um pai pelos seus filhos, mas pode ser verdade que ele realmente te ame.

E o bom senso pede?

O que Mariana não sabe é que o homem que diz amar tanto aquela colega é o mesmíssimo calhorda que nunca se interessou como anda a sua vida, estando ausente desde que ela nasceu.

Sim!

Além de trabalharem naquele supermercado, Madalena e Mariana têm o mesmo... progenitor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2024.

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