quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Paciente

 

Paciente

 

Por causa do lançamento do filme Megalópolis, há uma entrevista de Francis Ford Coppola no Estadão, nela, depois de dizer que a arte existe para que as pessoas entendam o mundo em que vivem, vem o trecho: “talvez as pessoas estejam sendo deliberadamente mantidas infelizes para que sejam melhores consumidores”.

Embora me aborreçam os cães latindo ao gato sentado em cima do muro, percebo a ideia ― a felicidade produz bem-estar e o bem-estar tranquiliza da ânsia de querer-se o que ainda não se tem.

Eu digo que ânsias podem engulhar e não gosto de prender-me às náuseas quando as sinto, e boto fora o que enoja.

Em outras palavras, há vômito que produz bem-estar e nem por isso anseio vomitar, pois o que não tenho não me acelera o passo.

Com os bichos dispersados pela bombinha que atirei aos pés do muro, paro em querer-se o que ainda não se tem ― é a esperança.

Para Nietzsche, a esperança prolonga o suplício dos homens, pois ela é um mal. Quando Pandora destampa o jarro, os males ganham o mundo; e no jarro novamente tampado, o mal que resta é a esperança.

Mudo de ideia: as pessoas talvez gostem de ser mantidas infelizes para que gastem dinheiro com o que possam comprar; embora estejam infelizes, elas têm escolha, elas podem comprar.

Quanto a mim? Eu compro livros.

Na sala, há duas paredes tomadas por livros. Iludo-me que lerei a grande parte deles, mas o que me enfada é responder que eu não terei tempo para ler tudo.

Alegro-me, e penso que engatinhei ao que podia alcançar, passei a ficar de pé pelo que tinha vontade de ter nas minhas mãos, banquinhos ajudaram a ver acima o que tanto me interessava e desejos levam-me à escada para pousar os olhos naquilo que eu leio.

Que parvoíce a minha.

É claro que alguma vertigem virá interromper a leitura, pois ficar no alto da escada haverá de despertar o receio de desequilibrar-me.

Quando leio o que me irrita, mais desequilibrado eu fico.

E não me refiro a personagens que, às escâncaras, agem contra a moral da maioria ou àquelas que, em surdina, trabalham para si apesar dos prejuízos que causam a esta ou aquela pessoa.

Parvo, me sinto bem mesmo um tanto insatisfeito.

Compro. Folheio. Ponho na pilha do que pretendo ler em breve. Fico pê da vida, quando espano. E quando estou obrigado a espanar o livro que acreditei que leria tão logo o comprei, é aí que fico bem fulo.

Fulo e muito puto, fico bem mal.

Mesmo mal, estressado, continuo a agir como se houvesse de ficar bem. Mesmo comigo assim, mal por estressado, acho de comer.

Vou comer um pãozinho. Saio comprá-lo. Entro na fila. Sempre tem uma fila quando preciso do pão para satisfazer-me, sossegar-me, para que me tranquilize a fome que não sinto. Sim! Sempre tem quem fure a fila. Sempre há quem reclame. Sempre há quem olhe pra mim. E tem gente que se irrita ao ser ignorada.

Hein?

Porque aprendi a suportar, aguardo minha vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2024.

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