Tempestiva
autocrítica
Acabado de chegar, vindo da escola onde
votou, ele foi direto tomar banho, pois, um tanto a mais que o aceitável, o
suor incomodava-o.
A ducha morna era calmante, e, já que
foi e voltou pedalando, tinha que medir o quanto o minara aquela atividade tão
pouco usual, pedalar contra o relógio.
Ainda bem que, no portão, lembrou-se de
que o número de ônibus circulando era menor no domingo. Com pressa para votar e
voltar, não acharia salutar ficar quarenta e cinco minutos plantado ao sol.
Antes de montar na bicicleta, porém, certificou-se
de que precisava encher os pneus e, tão logo pisou na calçada, repreendeu-se,
pois era imperativo buscar proteger-se com o capacete.
Como andava bastante esquecido, fez bem
ao abrir a carteira para não sair sem o título, que continuava na gaveta da
cômoda.
Em outras palavras, tinha razões para
achar o quão relaxante era a chuveirada. Também pelo efeito regenerador, até
mesmo pra sentir-se revigoradamente tranquilo, demorar-se-ia o quanto precisasse.
Ainda que economicamente nocivo pro bolso,
seu banho prologava-se, pois ele percebia que tinha muito em que pensar.
Se a voz da urna é a voz do voto, a quem
dirigira a sua voz?
Ele votou em quem fez a melhor promessa
quanto aos ônibus, cuja frota de veículos, em nome de um ar menos intoxicante,
haveria de ser todinha elétrica. Menos poluidora e mais econômica, mesmo a quem
a usa diariamente, a frota poderia ser maior.
Para que a bicicleta não fosse roubada
enquanto estivesse na fila, pra não ter que tomar o cuidado de passar-lhe em
corrente e cadeado, ele votou em quem assumiu a incontornável promessa de
aumentar a paz de espírito, diminuindo o sufoco que tal sensação de insegurança
tanto produz, mesmo em quem, vez ou outra, anda de magrela.
Com mais vagar, nesse banho ansiosamente
apreciado, ele poderia aferir a qualidade do voto se não o atropelassem os
pensamentos.
Avaliou que fizera bem em não perder
tempo com o café da manhã, pois, por afoiteza: não verificaria os pneus, e
comeria pão amanhecido; não colocaria o capacete, e beberia pingado gelado;
esqueceria o título na cômoda, e, sem se lembrar do desodorante, vestiria a
camiseta que envergara ontem e anteontem.
Fez bem em ir votar sem ver TV, pois não
atulhou a cachola com o emaranhado de problemas pesando no lombo da gente, da
maioria da gente que vota porque tem em alta conta sua obrigação cívica.
Embora obrigado, foi confiante de que o
candidato escolhido tinha verdadeira preocupação com a saúde mental dos seus eleitores;
então, previdente, ele só pegou da cola para digitar o número certo.
Ele digitou, esperou que a foto
aparecesse na tela, apertou a tecla que confirmava como certo o seu voto; então,
consciente, ele desejava que fosse eleito quem lhe indicara uma colocação, boa
o bastante para segurar um 4X4 novinho em folha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de outubro de 2024.
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