domingo, 6 de outubro de 2024

Tempestiva autocrítica

 

Tempestiva autocrítica

 

Acabado de chegar, vindo da escola onde votou, ele foi direto tomar banho, pois, um tanto a mais que o aceitável, o suor incomodava-o.

A ducha morna era calmante, e, já que foi e voltou pedalando, tinha que medir o quanto o minara aquela atividade tão pouco usual, pedalar contra o relógio.

Ainda bem que, no portão, lembrou-se de que o número de ônibus circulando era menor no domingo. Com pressa para votar e voltar, não acharia salutar ficar quarenta e cinco minutos plantado ao sol.

Antes de montar na bicicleta, porém, certificou-se de que precisava encher os pneus e, tão logo pisou na calçada, repreendeu-se, pois era imperativo buscar proteger-se com o capacete.

Como andava bastante esquecido, fez bem ao abrir a carteira para não sair sem o título, que continuava na gaveta da cômoda.

Em outras palavras, tinha razões para achar o quão relaxante era a chuveirada. Também pelo efeito regenerador, até mesmo pra sentir-se revigoradamente tranquilo, demorar-se-ia o quanto precisasse.

Ainda que economicamente nocivo pro bolso, seu banho prologava-se, pois ele percebia que tinha muito em que pensar.

Se a voz da urna é a voz do voto, a quem dirigira a sua voz?

Ele votou em quem fez a melhor promessa quanto aos ônibus, cuja frota de veículos, em nome de um ar menos intoxicante, haveria de ser todinha elétrica. Menos poluidora e mais econômica, mesmo a quem a usa diariamente, a frota poderia ser maior.

Para que a bicicleta não fosse roubada enquanto estivesse na fila, pra não ter que tomar o cuidado de passar-lhe em corrente e cadeado, ele votou em quem assumiu a incontornável promessa de aumentar a paz de espírito, diminuindo o sufoco que tal sensação de insegurança tanto produz, mesmo em quem, vez ou outra, anda de magrela.

Com mais vagar, nesse banho ansiosamente apreciado, ele poderia aferir a qualidade do voto se não o atropelassem os pensamentos.

Avaliou que fizera bem em não perder tempo com o café da manhã, pois, por afoiteza: não verificaria os pneus, e comeria pão amanhecido; não colocaria o capacete, e beberia pingado gelado; esqueceria o título na cômoda, e, sem se lembrar do desodorante, vestiria a camiseta que envergara ontem e anteontem.

Fez bem em ir votar sem ver TV, pois não atulhou a cachola com o emaranhado de problemas pesando no lombo da gente, da maioria da gente que vota porque tem em alta conta sua obrigação cívica.

Embora obrigado, foi confiante de que o candidato escolhido tinha verdadeira preocupação com a saúde mental dos seus eleitores; então, previdente, ele só pegou da cola para digitar o número certo.

Ele digitou, esperou que a foto aparecesse na tela, apertou a tecla que confirmava como certo o seu voto; então, consciente, ele desejava que fosse eleito quem lhe indicara uma colocação, boa o bastante para segurar um 4X4 novinho em folha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2024.

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