domingo, 13 de outubro de 2024

Sorriso amarelo

 

Sorriso amarelo

 

Um infeliz não se satisfaz com o bolo cortado, pouco se lhe dá em quantos pedaços tenha sido cortado ― par ou ímpar, dá no mesmo ―, pois entende que é mais um bolo a despertar aquele bem-estar que a muitos fundamenta-se como necessário, para que o dia seja cumprido de cabo a rabo, sem fundos estresses e jactâncias rasas, ou seguiria sendo uma pessoa pronta a sorrir por obrigação, pelo reconhecimento de que o prazer do pedaço oferecido produz sentimento menos vulgar que a generosidade do pedaço entregue, porque o primeiro é igual ao último, ainda é bolo, e é um pedaço de um bolo cujo sabor foi escolhido por outrem, ou seja, o infeliz não sente alívio à infelicidade, faz questão do sorriso amarelo, conserva-se infeliz porque pode aquele sorrisinho, a marca da sua insatisfação, pelo prazer de ter comido de um bolo que lhe foi educadamente oferecido.

Já os tristes, a eles não se aplica tal lógica.

O bolo cortado em sete ou oito pedaços, como está cortado, não se trata de um mesmo bolo, quem o cortou talvez nem perceba, mas sua mão é o veículo que materializa o que precisa ser dito.

A realidade apresentada pode ser desprezada pelo infeliz, ao triste, porém, o bolo cortado existe tal qual o número dos pedaços, pois o par difere do ímpar, assim como um bolo de chocolate dista de um bolo de laranja.

O bolo tal qual ele é, a realidade que ele representa há que ser lida e, pelo tanto que seja possível, entendida.

Pelo mais simples entendimento, o bolo que se desfruta é como o barro transfigurado em escultura, é fruto das mãos humanas, está além dos elementos que o constituem.

Por estar além da farinha, dos ovos, do açúcar, do chocolate ou da laranja, cabe à cachola fermentar-se em compreensões.

Há quem diga que o calor do forno não guarda relação com o calor do mato queimando, deliberadamente fica apagado o tempo em que a lenha era queimada para que pães, bolos e pizzas fossem assadas.

A humanidade pode ser avaliada pelo que fazem os benfeitores, os malfeitores e os sensabores.

Sim, há quem se ocupe de correlações entre o cabo que liga o forno à rede elétrica; como se macho e fêmea se completassem, é o mundo visto pelo infeliz.

Mas os tristes não enxergam o mundo como pinos e orifícios, o bolo é bom, é gostoso, dá vontade de comer outro pedaço, às vezes a gente come mais um, às vezes não faz boa presença pedir mais um.

Tem gente triste que sabe das coisas: que a felicidade, o bem-estar e satisfação divergem da alegria; que a alegria não se compra, pois os tristes não se empanturram; que há tristes capazes de transmiti-la pelo bolo assado em forno elétrico, e nem por isso se engrandecessem da renúncia de queimar lenha por um bolo mais cheiroso.

Às vezes, gente triste se alegra por bobagem; e, mesmo sabendo que é coisa passageira, ela sorri; não o infeliz sorriso amarelo, todavia comovida, sorri tristemente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2024.

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