Sorriso
amarelo
Um infeliz não se satisfaz com o bolo
cortado, pouco se lhe dá em quantos pedaços tenha sido cortado ― par ou ímpar,
dá no mesmo ―, pois entende que é mais um bolo a despertar aquele bem-estar que
a muitos fundamenta-se como necessário, para que o dia seja cumprido de cabo a
rabo, sem fundos estresses e jactâncias rasas, ou seguiria sendo uma pessoa pronta
a sorrir por obrigação, pelo reconhecimento de que o prazer do pedaço oferecido
produz sentimento menos vulgar que a generosidade do pedaço entregue, porque o
primeiro é igual ao último, ainda é bolo, e é um pedaço de um bolo cujo sabor foi
escolhido por outrem, ou seja, o infeliz não sente alívio à infelicidade, faz
questão do sorriso amarelo, conserva-se infeliz porque pode aquele sorrisinho, a
marca da sua insatisfação, pelo prazer de ter comido de um bolo que lhe foi educadamente
oferecido.
Já os tristes, a eles não se aplica tal
lógica.
O bolo cortado em sete ou oito pedaços,
como está cortado, não se trata de um mesmo bolo, quem o cortou talvez nem
perceba, mas sua mão é o veículo que materializa o que precisa ser dito.
A realidade apresentada pode ser
desprezada pelo infeliz, ao triste, porém, o bolo cortado existe tal qual o
número dos pedaços, pois o par difere do ímpar, assim como um bolo de chocolate
dista de um bolo de laranja.
O bolo tal qual ele é, a realidade que
ele representa há que ser lida e, pelo tanto que seja possível, entendida.
Pelo mais simples entendimento, o bolo
que se desfruta é como o barro transfigurado em escultura, é fruto das mãos
humanas, está além dos elementos que o constituem.
Por estar além da farinha, dos ovos, do açúcar,
do chocolate ou da laranja, cabe à cachola fermentar-se em compreensões.
Há quem diga que o calor do forno não
guarda relação com o calor do mato queimando, deliberadamente fica apagado o
tempo em que a lenha era queimada para que pães, bolos e pizzas fossem assadas.
A humanidade pode ser avaliada pelo que
fazem os benfeitores, os malfeitores e os sensabores.
Sim, há quem se ocupe de correlações
entre o cabo que liga o forno à rede elétrica; como se macho e fêmea se
completassem, é o mundo visto pelo infeliz.
Mas os tristes não enxergam o mundo como
pinos e orifícios, o bolo é bom, é gostoso, dá vontade de comer outro pedaço,
às vezes a gente come mais um, às vezes não faz boa presença pedir mais um.
Tem gente triste que sabe das coisas:
que a felicidade, o bem-estar e satisfação divergem da alegria; que a alegria
não se compra, pois os tristes não se empanturram; que há tristes capazes de transmiti-la
pelo bolo assado em forno elétrico, e nem por isso se engrandecessem da renúncia
de queimar lenha por um bolo mais cheiroso.
Às vezes, gente triste se alegra por
bobagem; e, mesmo sabendo que é coisa passageira, ela sorri; não o infeliz sorriso
amarelo, todavia comovida, sorri tristemente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de outubro de 2024.
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