Ao
léu
Ele abre os olhos. Pela baba na
camiseta, é certo que adormecera. Desconfiando que o espreitavam, nem olha ao
redor. Se olhasse, veria as pessoas ocupando-se de viver pros seus celulares.
Sim, o embaraço foi tanto que ele aprovou
ter cochilado. Isso, foi a vergonha que o fez aprovar-se. Embora estivesse no
ônibus, cochilou, babou, e talvez até tenha roncado. Embora se sentisse
envergonhado, era óbvio que tenha roncado alto e babado um bocado.
Sentado no último banco à direita, aonde
o ônibus o leva?
Sim, a vergonha tem essa força, ou tira
a gente do incômodo ou faz a mente mergulhar à raiz do desconcerto.
Sentado naquele ônibus, que situação
esquisita é não saber como entrou, sentou-se e caiu no sono.
Sim, melhor não tocar a campainha,
melhor não se levantar, melhor não olhar as pessoas ― há tanto a ser visto lá
fora.
Apesar da impressão de que as pessoas
ocupam-se dos celulares apenas para confundi-lo, ele prefere seguir no ônibus
até o ponto final. Embora nem saiba para onde está indo, irá até o fim.
É irrelevante que seja informado onde
fica o ponto final.
Mas, há uma sensação esquisita. Como
perceba alguma mudança, está diferente. Embora fosse o mesmo, está esquisito. Estranha-se
por sentir uma qualquer diferençazinha, uma coisa sutil, tênue, pusilânime, algo
frágil, alguma coisa tão frágil que é melhor nem ficar especulando sobre o que
seja, melhor experimentá-la, ainda que nem alcance qual o grau desse
sentimento, o quão profunda seja aquela sensação.
Haverá mesmo esse desassossego que o põe
desconcertado?
Acordar num ônibus que nem se sabe para
onde está indo, isso, até para ele que não é uma pessoa dada a reflexões, isso dá
motivo para pensar-se intimidado, precisando cochilar novamente.
Ele olha pra fora do ônibus, a cidade
parece a mesma.
Sentado no último banco à direita, ele
vê o mundo lá fora e percebe que a cidade nem liga que o ônibus trafegue cheio.
Os automóveis, porém, estão mais
estilosos. Têm faróis diferentes, o desenho mostra arrogância; não são faróis
redondinhos com aba que pareça pálpebra, como cílio único de plástico duro.
Eles, os automóveis, estão despidos da aparência de brinquedo nas mãos dos
adultos, são máquinas suficientemente orgulhosas para transitar sem titubeios,
são máquinas soberbas que freiam abruptamente, são máquinas evoluídas que podem
freadas indulgentes, para as pessoas serem poupadas.
Há máquinas que não atropelam porque
dominam a cidade.
Mas, a cidade é mesmo uma arena?
O homem no último banco à direita vê que
há asfalto e calçadas e faixas. Ele não quer atravessar a rua, embora as
pessoas vivam sendo atropeladas na faixa, na rua ou na calçada.
E o homem acordado teme descer, teme ser
atropelado, não deseja a carne violada, não quer ser visto como indivíduo
sacrificado.
Mas ― havendo cruzamento, há pistas para
despistar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de outubro de 2024.
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