terça-feira, 22 de outubro de 2024

Ao léu

 

Ao léu

 

Ele abre os olhos. Pela baba na camiseta, é certo que adormecera. Desconfiando que o espreitavam, nem olha ao redor. Se olhasse, veria as pessoas ocupando-se de viver pros seus celulares.

Sim, o embaraço foi tanto que ele aprovou ter cochilado. Isso, foi a vergonha que o fez aprovar-se. Embora estivesse no ônibus, cochilou, babou, e talvez até tenha roncado. Embora se sentisse envergonhado, era óbvio que tenha roncado alto e babado um bocado.

Sentado no último banco à direita, aonde o ônibus o leva?

Sim, a vergonha tem essa força, ou tira a gente do incômodo ou faz a mente mergulhar à raiz do desconcerto.

Sentado naquele ônibus, que situação esquisita é não saber como entrou, sentou-se e caiu no sono.

Sim, melhor não tocar a campainha, melhor não se levantar, melhor não olhar as pessoas ― há tanto a ser visto lá fora.

Apesar da impressão de que as pessoas ocupam-se dos celulares apenas para confundi-lo, ele prefere seguir no ônibus até o ponto final. Embora nem saiba para onde está indo, irá até o fim.

É irrelevante que seja informado onde fica o ponto final.

Mas, há uma sensação esquisita. Como perceba alguma mudança, está diferente. Embora fosse o mesmo, está esquisito. Estranha-se por sentir uma qualquer diferençazinha, uma coisa sutil, tênue, pusilânime, algo frágil, alguma coisa tão frágil que é melhor nem ficar especulando sobre o que seja, melhor experimentá-la, ainda que nem alcance qual o grau desse sentimento, o quão profunda seja aquela sensação.

Haverá mesmo esse desassossego que o põe desconcertado?

Acordar num ônibus que nem se sabe para onde está indo, isso, até para ele que não é uma pessoa dada a reflexões, isso dá motivo para pensar-se intimidado, precisando cochilar novamente.

Ele olha pra fora do ônibus, a cidade parece a mesma.

Sentado no último banco à direita, ele vê o mundo lá fora e percebe que a cidade nem liga que o ônibus trafegue cheio.

Os automóveis, porém, estão mais estilosos. Têm faróis diferentes, o desenho mostra arrogância; não são faróis redondinhos com aba que pareça pálpebra, como cílio único de plástico duro. Eles, os automóveis, estão despidos da aparência de brinquedo nas mãos dos adultos, são máquinas suficientemente orgulhosas para transitar sem titubeios, são máquinas soberbas que freiam abruptamente, são máquinas evoluídas que podem freadas indulgentes, para as pessoas serem poupadas.

Há máquinas que não atropelam porque dominam a cidade.

Mas, a cidade é mesmo uma arena?

O homem no último banco à direita vê que há asfalto e calçadas e faixas. Ele não quer atravessar a rua, embora as pessoas vivam sendo atropeladas na faixa, na rua ou na calçada.

E o homem acordado teme descer, teme ser atropelado, não deseja a carne violada, não quer ser visto como indivíduo sacrificado.

Mas ― havendo cruzamento, há pistas para despistar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2024.

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