terça-feira, 8 de outubro de 2024

O circo do palhaço

 

O circo do palhaço

 

Como a vedete abandonada estava explicitamente desguarnecida, armou-se o circo: o caminhão recebeu pancadas, teve a lataria riscada por cacos de vidro, nem pôde abafar a balbúrdia dos pivetes.

Sem medo de serem escorraçados, os baderneiros destravaram as portas; o cerco não era uma guerra à máquina, buzinaram sem dó; por falta de freio, o veículo despencou ladeira abaixo, para o rio.

Só depois de encerrada a fuzarca que foi possível escutar o ébrio à sombra da caçamba, tão soberano nos balbucios de desprezo, adrede cabalístico nessa revolta.

Contra arruaceiros, bebe um gole de aguardente, mas a golada que engulha dará outra chama à rebelião, será mesmo contra? Por acelerar o pensamento, haverá a embriaguez que incendeia à lucidez?

Houve gritaria, acorreu a turba, telefonou-se à lei.

Um segundo caminhão foi chamado para tirar do rio o primeiro, que veio levar a caçamba e quebrara, foi vandalizado e viu-se enfiado nas águas do riozinho.

Houve a vinda, ocorreu o socorro, dispersaram-se os curiosos.

Além do bêbado que tanto rezingava, sem dar na vista de ninguém, calada, fumando, uma mulher, do começo ao fim do resgate, a fumante incógnita presenciou os caminhões saírem da travessa.

Entrementes, limpado o gargalo, ele ofereceu a garrafa.

Por sua vez, batido o fundo do maço, ela oferecia um cigarro.

Sem pestanejar, apenas ele aceitou a oferta.

― O senhor viu tudo?

― Não sei de nada.

― Vai me dizer que o senhor só chegou agora?

― Não vou dizer nem o que venha a me comprometer, dona.

― Se não quer falar, por que aceitou o meu cigarro?

― Saiba a senhora que eu nem tenho esse vício, dona.

― Mesmo assim, fuma que até faz pose, parecendo ator de cinema que olha fundo na câmera.

― Não trago na alma essa malícia de penetrar pelo fundo de quem me queira seduzido para essa tentação de me ver cativado.

― No entanto, o senhor traga o cigarro e dá um trago da pinga como se estivesse usufruindo de um Cohiba e um Royal Salute.

― Não faço ideia do que a senhora fala.

― Faz, sim, mas só não quer admitir que entende, sim.

― Dona, não sou de apostar. Principalmente quando eu sei que vou perder, que eu percebo ter muitas cartas contra mim.

― O senhor sabe como se diz: quem arrisca, petisca.

― Se a dona só quer mesmo é me ver enrascado, com sua licença, eu prefiro petiscar a minha cachaça, senhora.

― Se o senhor jogar a garrafa contra o muro, terei de prendê-lo.

― Então, a senhora quer me algemar?

― Se for preciso, eu algemo, sim.

― Dona, não sou engraçadinho que gosta de ser algemado.

― Então, me ofereça a cachaça, pois pode ser que eu agora tenha mudado de ideia e até aceite tomar um gole.

― A senhora aceita um gole de Velho Barreiro?

Súbito, a mulher dá uma chave de braço. Algemado o bêbado, diz-lhe ao pé do ouvido:

― Moleque que brinca com fogo quer mesmo mijar na cama.

― Carambolas! Já estou me mijando todo, minha senhora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2024.

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