domingo, 3 de novembro de 2024

As outras coisas

 

As outras coisas

 

Sem importância a quem não me conhece ou ligue que existo, neste primeiro dia do mês de novembro de 2024, faço 61 anos.

Embora os parentes mais chegados, os amigos menos ranzinzas e empresas interessadas nos meus créditos lembrem-se dos parabéns, permaneço na moita, escutando os passarinhos.

Em que moita estou metido? Da cama, ouço o mundo.

O primeiro deles, um que reconheço pelo canto, é o joão-de-barro, cujo volume do som do canto vem aumentando conforme venha vindo da sua casa, a quarteirões daqui, até o abacateiro do quintal da minha casa, esse bichinho põe-se a cantar lá pelas cinco e tralalá.

O joão-de-barro canta, eu ouço e compreendo, a natureza é bela e os números do boleto são feios, e surgem feiíssimos no meu sono, com os dentes da engrenagem a ranger desde o tralalá, e eu coço a palma da mão, pois é coçando-a que se encontra dinheiro na rua.

Em seguida, entram em cena os bem-te-vis; logo um coleirinha, que tem seu ninho na jabuticabeira do meu quintal, canta a plenos pulmões; e tem também as maritacas que moram no forro da lavanderia ― tudo é algazarra, tudo é alvorada.

O que eu não quero ver, imagino: a moça do caixa apertará botões e o valor pago restará registrado, registradíssimo no sistema.

Como estou condicionado a acordar pelos acasos do sono, seja por pesadelos neuroticamente sombrios seja por uma vontade danada de urinar, o que me despertou não foi toda esta cantoria.

Preciso urinar, vou urinar, mas nem urinando a cantoria para. Ainda que eu não urine fiando-me que tenho o poder sobre a natureza.

Adeus cantoria ― já o celular toca, já o taxista está à porta.

Os vidros estão fechados, o rádio está ligado, o motorista conversa consigo como se papeasse comigo.

Porei bolo na mesa, porque a Dona Cremilda, o Aristeu e o Luisinho cantarão os parabéns e contarão histórias. Serão as melhores pessoas que eu haveria de convidar. E elas são mesmo admiráveis porque não as convidei pra festa que não quero. Ainda que eu esteja indo comprar o bolo que as delicie e satisfaça e incentivem-nas a cantar parabéns e a repassar histórias que não me deixarão sossegado de que hoje faço esses 61 anos.

Mesmo sem velinhas para apagar? Sopram-me que os faço, todos eles, os tais 61, que são anos que não acabam mais, até que eu cesse de fazê-los.

Depois de comido? O bolo serão fezes que eu não comerei.

Todavia, os passarinhos voltarão ao crepúsculo, o taxista fará mais uma corrida, a doceria venderá mais bolos, a TV mostrará os estragos dos temporais e os apresentadores louvarão a ação de voluntários que se dispõem a limpar um trechinho de uma famigeradíssima praia.

Preciso distrair-me: seja vendo tevê, seja comendo bolo ou sorrindo ao motorista que fala com o espelhinho retrovisor.

― Nossa! O senhor parece mais velho, disse o moço do balcão.

Distraído de mim, vou rir quando houver que rir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2024.

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