terça-feira, 15 de outubro de 2024

Trabalhar cansa

 

Trabalhar cansa

 

Com o excelso pudor de quem não contemporiza sequer em nome da amizade, as pessoas que dizem o que pensam não se preocupam em ser verdadeiras, são justas consigo pelo que pensam.

Esses amigos, quando lhes dói um dente, apoiam ou cismam sob o impacto desta dor no momento errado, porque um dente doendo nunca tem momento que não seja errado.

Se lhe dói um dente, a sinceridade do amigo que diz o que pensa é indiscutível, porque ele tem a palavra certa no momento certo.

― Amigo, essa é pergunta que se faça? Se aconteceu alguma coisa para eu estar azedo? Que é isso! A verdade é que estou falando o que penso. Se o desagrada, preste atenção no que está afirmando, porque o azedume que está ouvindo não sai de mim. Embora eu o perceba ter alguma dificuldade pra escutar a opinião que o contrarie, meu dever de amigo é falar como se me doesse um dente, mesmo que não esteja.

A surdez oportuna é como a cegueira a ser negada por quem busca a renovação do direito de dirigir automóvel. Para que o examinador não note com precisão qual o grau de deficiência, a pessoa examinada diz o que está acontecendo como se estivesse mesmo dizendo a verdade, que os seus olhos míopes têm dificuldade com as letrinhas.

― O meu drama, doutor, está em ler as letrinhas pequenininhas da última linha. As demais, doutor, eu vejo que nem preciso ter decorado letra alguma, tudo vem sem maiores esforços da minha parte.

Por bem me conhecer, o amigo sabe que acontece comigo quando fico nervoso. Tanto enervo que olho de soslaio mais de uma vez, mas, mesmo olhando várias vezes pro cartaz com as letras ao lado da mesa do oculista, não consigo gravar as três últimas linhas do quadro.

Se eu fechasse os olhos, o oculista sacaria; então, com o tampo da mesa escondendo isso do doutor, coço-me na palma das mãos.

Dá vontade de piscar, mas o médico usa um colírio que embaça a visão. É desagradável não ver as coisas com nitidez, é igual a recusar sorvete, pois o dente cariado doerá. Se vai virar a doer tão logo a gente veja o pote de sorvete, é melhor tirar os óculos ou pingar colírio.

― Para ser honesto contigo, amigo, eu lembro o tempo em que não tinha nervosismo que me impedisse de decorar tudo, até as miudinhas da última linha. Eu sabia a posição de vogais e consoantes. Sabia qual a ordem; sem embaraço, eu ia da esquerda pra direita e da direita pra esquerda. Não tinha razão pra tensão, bastava me concentrar no meu papel. Entrava, olhava o cartaz, via e revia o quadro; não importava o colírio, eu mantinha a felicidade de lembrar qual a letra, em qual ordem. Sem me importunar que a cachola me traísse, confiava que o médico dos olhos validasse o meu desempenho.

Não escondo do orgulho que é a facilidade pra evitar que problemas me exponham: tomo o sorvete que tenho para tomar e ninguém precisa saber que a vista cansada é como um dente que dói.

― E que trabalheira é viver!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2024.

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