terça-feira, 5 de novembro de 2024

Hora morta

 

Hora morta

 

Acautele-se, Seu Rodrigues. Ao que parece, o senhor se acha num daqueles dias ― quando não precisa ser feliz, bastando sentir-se, para que cometa idiotias, prodigalize estupidezes e vulgarize imbecilidades, uma vez que sua incompletude conta que se veja integrado ao mundo nem que seja feito sombra.

Indo às compras, acompanhe o seu duplo, veja a figura projetada na calçada e pense: sejamos mais do que a soma destas partes, a da carne que caminha e a da escuridão deslocada; sejamos à parte, que o mundo vá adiante; e poderemos penar este instante, podemos padecer deste instante, nós poderemos incluir o que você pensa sobre si ― um instante, confie que possamos, você e eu, Seu Rodrigues e sombra, confie que saberemos ir lado a lado, passo a passo.

Para que seja o que precisa no instante, para que descubra você o seu instante, ou será preciso outro exemplo de idiotice, que será desejo de ser senhor e servo pelo que o faz desejar-se?

Permita-se, bobo, as tolices que o ridicularizem.

Pelo que possa, deseje respirar um instante sem que o sufoque do ar que respira. E passo a passo, vá às compras.

Passe pelo homem que vende relógios. Evite aquela espiadinha de soslaio. Não troque olhares. Ouça, são cem reais, mas não veja qual o modelo que está à venda por cem reais. Passe batido, vá reto, que os seus olhos olhem onde pisa, queira que olhem onde pisa, e pise.

Chegue logo. Pegue a senha. Espere a vez.

O homem que vende relógios nem pega a senha, pois o açougueiro o chama. Pois bem, o açougueiro lhe dá preferência. Pela idade a mais sobre qualquer na fila? Ele passe e peça a carne que deseja.

Ele ajeita a mochila que traz ao ombro. Ele pergunta sobre maminha e costelinha, mas pede vinte reais da toscana mais em conta.

Então, Seu Rodrigues, já que você sabe que o homem que vende relógios chama-se Amadeu, suponha que ele seja filho do Zé Caetano, aquele que tocava pífaro e demorou um ano e meio para vir da Paraíba, pois seu polegar tinha muita dificuldade que lhe dessem carona, ainda que a sua música fosse assaz supimpa.

Suponha, ainda, que o Amadeu vendedor de relógio tenha nascido no dia 27 de janeiro, como o Mozart. É possível, também, que seu pai tenha trabalhado pra um comerciante muito fã de Don Giovanni, ópera do referido Wolfang Amadeus.

Em outras palavras, é provável que o açougueiro tenha pedido que o ambulante passasse à frente porque ele, açougueiro, tenha por ídolo precisamente o Wolfgang Amadeus Mozart, pois, mesmo sem prever que um dia seu pai, dele açougueiro, viria a ser honrado como Rei do Amor Efêmero, ele, Mozart, compôs As Bodas de Fígaro.

No mundo há gente boa que sabe ganhar a vida vendendo coisas bacanas, não um CD pirata de A Flauta Mágica, mas um Rolex que ninguém em sã consciência há de testar na água, só pra constatar que os cem reais são um preço justíssimo a relógio que se afoga fácil.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2024.

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