A
maçã assada
Às segundas, só porque não é domingo nem
se cogita que seja uma quinta-feira, mantenha-se alerta, Seu Rodrigues.
Com relação ao domingo, recapitule-se a
rotina: chegando o meio-dia ― a barriga ronca; a geladeira é aberta; a lista na
porta da geladeira está atualizada, faltando apenas acrescentar o queijo Minas.
Sem inquietações mais teatrais que
sérias, bem se lamurie de estar no interior paulista e não estar no interior de
Minas.
Lá como cá, há torresmo, fatias de bacon
e pão de queijo na estufa do balcão, porém a malandragem, o sotaque e a boa-fé
têm diferenças, porque o interior mineiro e o interior de São Paulo têm
tradições.
Seu Rodrigues, tenha a pachorra de
admiti-lo, que a sua boa-fé tem horas que fraqueja, manquitola em trejeitos de
cínico e pigarreia como quem sabe se apresentar como esperto pra caramba.
Ninguém é tão esperto que consiga
convencer beltrano que sicrano é um farsante excepcionalmente sutil que nem se
esforça de agir como sendo fulano ― o senhor mesmo, Seu Rodrigues.
O corpo fala, a mente ilude-se, a boca
diz as mentiras que a cachola inventa de tomar por verdadeiras, fazendo do
reles uma pérola.
Torresmo, bacon e pão de queijo, Seu
Rodrigues, não são a pérola que o senhor tanto ambiciona no seu olho de
escrevinhador atento ao mundo que o rodeia ou o que o senhor tem rodeado com o
medo besta de ser tomado como cômico canastrão sem graça, um frustrado.
De novo, o senhor diz torresmo, bacon e
pão de queijo, pois o corpo fala, sente falta, pede sal, gordura ― e que se
dane a dieta.
O senhor não foge ao bom da vida porque
é racional, emociona-se moderadamente e acha chique ser um cara sentimental, ainda
que o seja discretamente.
Por um demônio de alambique, lambisque-se.
Seu Rodrigues, beberique, embriague-se a
pouco e pouco; todavia, não se engane: o fogo das ventas é que nem o fogo das
tripas.
Tornado o dragão da feracidade,
responsabilize-se pela farra do dia anterior, que será quinta, a quinta-feira
de computar os investimentos, porque muito lucra quem computa como salutar cair
de cara na jaca, e jacas caem, enfim, pois jaqueira aprova a lei da gravidade.
Seu Rodrigues, não tome gravemente a sua
alegria, viva o instante e não exagere em avacalhação, autocrítica, e no
remorso.
Tome água. Lave-se. Diga que, na próxima
vez, vai moderar.
Na próxima vez, tomara que o torresmo, o
bacon e o pão de queijo estejam mais caros, tomara que o senhor esteja sem
carteira e tomara que o dono do bar lhe tenha cortado o crédito.
Seu Rodrigues, será surreal?
Não saia de casa nesta segunda-feira; veja
um pouco de TV, ou leia um livro, quem sabe o senhor queira ler poemas, ou ouça
música, quiçá não desista antes do refrão, ou escreva a crônica sobre o dia em
que, estando em Minas, trocou torresmo por pizzas e teve, tanto as teve que o
terrificou ter uma leitoa a maldizê-lo desde o forno.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de outubro de 2024.
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