quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A maçã assada

 

A maçã assada

 

Às segundas, só porque não é domingo nem se cogita que seja uma quinta-feira, mantenha-se alerta, Seu Rodrigues.

Com relação ao domingo, recapitule-se a rotina: chegando o meio-dia ― a barriga ronca; a geladeira é aberta; a lista na porta da geladeira está atualizada, faltando apenas acrescentar o queijo Minas.

Sem inquietações mais teatrais que sérias, bem se lamurie de estar no interior paulista e não estar no interior de Minas.

Lá como cá, há torresmo, fatias de bacon e pão de queijo na estufa do balcão, porém a malandragem, o sotaque e a boa-fé têm diferenças, porque o interior mineiro e o interior de São Paulo têm tradições.

Seu Rodrigues, tenha a pachorra de admiti-lo, que a sua boa-fé tem horas que fraqueja, manquitola em trejeitos de cínico e pigarreia como quem sabe se apresentar como esperto pra caramba.

Ninguém é tão esperto que consiga convencer beltrano que sicrano é um farsante excepcionalmente sutil que nem se esforça de agir como sendo fulano ― o senhor mesmo, Seu Rodrigues.

O corpo fala, a mente ilude-se, a boca diz as mentiras que a cachola inventa de tomar por verdadeiras, fazendo do reles uma pérola.

Torresmo, bacon e pão de queijo, Seu Rodrigues, não são a pérola que o senhor tanto ambiciona no seu olho de escrevinhador atento ao mundo que o rodeia ou o que o senhor tem rodeado com o medo besta de ser tomado como cômico canastrão sem graça, um frustrado.

De novo, o senhor diz torresmo, bacon e pão de queijo, pois o corpo fala, sente falta, pede sal, gordura ― e que se dane a dieta.

O senhor não foge ao bom da vida porque é racional, emociona-se moderadamente e acha chique ser um cara sentimental, ainda que o seja discretamente.

Por um demônio de alambique, lambisque-se.

Seu Rodrigues, beberique, embriague-se a pouco e pouco; todavia, não se engane: o fogo das ventas é que nem o fogo das tripas.

Tornado o dragão da feracidade, responsabilize-se pela farra do dia anterior, que será quinta, a quinta-feira de computar os investimentos, porque muito lucra quem computa como salutar cair de cara na jaca, e jacas caem, enfim, pois jaqueira aprova a lei da gravidade.

Seu Rodrigues, não tome gravemente a sua alegria, viva o instante e não exagere em avacalhação, autocrítica, e no remorso.

Tome água. Lave-se. Diga que, na próxima vez, vai moderar.

Na próxima vez, tomara que o torresmo, o bacon e o pão de queijo estejam mais caros, tomara que o senhor esteja sem carteira e tomara que o dono do bar lhe tenha cortado o crédito.

Seu Rodrigues, será surreal?

Não saia de casa nesta segunda-feira; veja um pouco de TV, ou leia um livro, quem sabe o senhor queira ler poemas, ou ouça música, quiçá não desista antes do refrão, ou escreva a crônica sobre o dia em que, estando em Minas, trocou torresmo por pizzas e teve, tanto as teve que o terrificou ter uma leitoa a maldizê-lo desde o forno.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2024.

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