quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Ao léu - continuação

 

Ao léu ― continuação

 

Fecha os olhos. De olhos fechados, põe a têmpora direita apoiada no vidro, pois confia que as pessoas o terão como um sujeito cansado, alguém que precisa cochilar um pouco porque a estafa é maior do que a delas, pois, embora também estejam estressadas, têm celulares.

Homem que anda de ônibus, o que realmente te conduz?

Ele prefere cochilar, a pesar o que lhe seja mais compensador.

Homem que não tem automóvel nem nunca quis ter um, a você não basta fechar os olhos, apoiar a cabeça na janela e congratular-se que não adore dirigir e não tenha celular.

Nunca quis aprender a dirigir, todavia teve pai que tratou de ensiná-lo a ajustar o banco, ajustar retrovisores, ajustar-se ao cinto.

Ainda que tenham sumido da TV as mulheres de biquini que digam que, se trabalhar, mesmo que trabalhe por horas, siga no batente por horas, o destino tem um carro que lhe caiba no bolso.

Embora o homem que anda de ônibus tenha poucos bolsos, ele não precisa de calça nova, uma que disponha de bolsos perna abaixo, quer cochilar, talvez queira calcular o quanto teria de receber para ser dono de automóvel, um que nem precisa ser novo.

O homem que calcula sabe que precisa ter um emprego, ou seguirá até o ponto final dessa linha que nem sabe qual seja.

O que estranha é que o veículo segue em frente, mesmo que pare nos semáforos, parece que todo farol quer que o ônibus demore, como se o ônibus estivesse obrigado a trafegar numa velocidade de cruzeiro, que nem veleiro no mar.

O motorista do ônibus tem pé leve, o ônibus não terá de frear súbito caso um cachorro, uma velhinha, um bebum cortem o percurso.

Maravilha! O motorista está sóbrio, até da Palavra.

Já o homem sentado no último banco à direita não é pessoa que se deixa seduzir pelas mirabolantes ideias de quem manda que se faça o que fala ser o necessário pro mundo transformar-se em um lugar mais austero, mais severo, e sem disfarces.

O homem que anda de ônibus que está sentado à direita crê que o sujeito que ordena que seja feito o que é necessário para que a vida seja transformada da água pro vinho, ele sabe que o comandante não dirige o ônibus nem faz apostas, porque o celular do homem poderoso é usado pra avisar que o ônibus não pode parar, não tem de parar nem que cachorros, velhinhas e bebuns cruzem-lhe a frente.

O homem do último banco à direita vai até o motorista, nocauteia-o com um soco, toma-lhe o assento, não passa o cinto sobre o peito, pisa pesado e ignora os sinais, principalmente os vermelhos.

Nenhum passageiro fica indiferente. Todos urram. Todos imploram que pise fundo, fure todo sinal. Todos querem que o ponto final venha logo. Todos gritam, batem palmas e tiram fotos uns dos outros, porque não esperam ser tirados por molengas.

Saído do último banco à direita, ele não teme as chamas do inferno, passando por cima de cães, velhinhas e guardas de esquina, o homem é muito aplaudido, é vivamente ovacionado.

Caronte! Caronte! Caronte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2024.

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