quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Bobeira

 

Bobeira

 

As três últimas semanas não me convenceram a gostar de sopa de beterraba, tanto que, ao terceiro dia, voltei à sopa de mandioquinha.

Ter pernas cansadas foi o primeiro desconforto, o vascular receitou o uso de meia de compressão, que me provou o quão chatinho é calçá-la e retirá-la, esse rolamento de pedra morro acima.

Em seguida, na segunda semana, deu-se o AIT, evento que me foi desnorteante, a ponto do esquecimento da máscara mesmo indo parar no hospital, em meio a outro surto de Covid na cidade.

Na última das três semanas tive restringida a vida pública, sedento de notícias das eleições, sequioso de entusiasmar-me com os embates eleitorais, uma vez que a política anima-me a ser mais que democrata, socialista e comedor de sopa de mandioquinha.

Assim, não fui pagar boletos; deixei avolumar a roupa suja no chão do quarto; sequer um dia deitei-me na rede para ouvir os passarinhos; gostei, no entanto, que a comida me fosse entregue; como nem só de futuro alimenta-se a minha alma, e sopa demais enjoa, lembrei-me da minha primeira surra pública.

Aos cinco anos, no prezinho, queria abraçar e ser abraçado, queria beijar e ser beijado, queria ser amado pelas meninas amáveis, e houve uns abraços e beijo tive um, somente um, que foi o bastante pro choro sentido da beijada, uma vez que o amor era fruto da minha cachola.

Denunciado pelo choro da surpreendida pelo meu beijo, fui levado ao desvelamento: além de recreio, escola tem diretoria.

E o diretor fez-me esperar por mamãe. E a secretária proibiu-me de desamassar papéis da lixeira, porque aviõezinhos não devem voar nas dependências da direção.

E mamãe veio, ouviu o que tinha que ouvir e deu-me a conhecer a cura que sabia que eu precisava sentir por mim mesmo, na pele.

A TV mostrou o homem pisando a Lua, minha mãe chinelou-me na bunda. O AVC do Costa e Silva não comoveu mamãe. Lamarca sumiu com 63 fuzis, a minha mãe continuou surrando a minha bunda. O Nobel do Beckett não afetou as mãos de mamãe, que não ia ficar esperando que a minha bunda ficasse corada diante de tanta gente estranha.

Pergunto: estará o passado conforme ao que lembro?

O passado continua lá, nesse recanto iluminado pela memória, farol que não impede barcos à deriva de chocarem-se em penedos.

Não digo que é divertido controlar a luz do farol e também não sofro o constrangimento de ser uma falésia. Não digo que me lembro porque desejo lembrar, é a memória que tem as suas bobeiras.

Se recordo as mãos de mamãe na minha bunda, não me ocorre de que cor eram minhas calças curtas ou por quanto ficaram arriadas.

Se não vem a cara da mãe batendo, ressoa a risada de quem viu a cena, e aquela gargalhada muito apoquenta, tanto.

Todavia, tenho uma nova pergunta: aos cinco anos, sem saber que dar tempo ao tempo quiçá não seja a melhor solução, o que podia um menino a não ser roubar selinhos às meninas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2024.

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