Bobeira
As três últimas semanas não me
convenceram a gostar de sopa de beterraba, tanto que, ao terceiro dia, voltei à
sopa de mandioquinha.
Ter pernas cansadas foi o primeiro
desconforto, o vascular receitou o uso de meia de compressão, que me provou o
quão chatinho é calçá-la e retirá-la, esse rolamento de pedra morro acima.
Em seguida, na segunda semana, deu-se o
AIT, evento que me foi desnorteante, a ponto do esquecimento da máscara mesmo
indo parar no hospital, em meio a outro surto de Covid na cidade.
Na última das três semanas tive
restringida a vida pública, sedento de notícias das eleições, sequioso de
entusiasmar-me com os embates eleitorais, uma vez que a política anima-me a ser
mais que democrata, socialista e comedor de sopa de mandioquinha.
Assim, não fui pagar boletos; deixei avolumar
a roupa suja no chão do quarto; sequer um dia deitei-me na rede para ouvir os
passarinhos; gostei, no entanto, que a comida me fosse entregue; como nem só de
futuro alimenta-se a minha alma, e sopa demais enjoa, lembrei-me da minha
primeira surra pública.
Aos cinco anos, no prezinho, queria
abraçar e ser abraçado, queria beijar e ser beijado, queria ser amado pelas
meninas amáveis, e houve uns abraços e beijo tive um, somente um, que foi o
bastante pro choro sentido da beijada, uma vez que o amor era fruto da minha cachola.
Denunciado pelo choro da surpreendida
pelo meu beijo, fui levado ao desvelamento: além de recreio, escola tem
diretoria.
E o diretor fez-me esperar por mamãe. E
a secretária proibiu-me de desamassar papéis da lixeira, porque aviõezinhos não
devem voar nas dependências da direção.
E mamãe veio, ouviu o que tinha que
ouvir e deu-me a conhecer a cura que sabia que eu precisava sentir por mim
mesmo, na pele.
A TV mostrou o homem pisando a Lua,
minha mãe chinelou-me na bunda. O AVC do Costa e Silva não comoveu mamãe.
Lamarca sumiu com 63 fuzis, a minha mãe continuou surrando a minha bunda. O
Nobel do Beckett não afetou as mãos de mamãe, que não ia ficar esperando que a minha
bunda ficasse corada diante de tanta gente estranha.
Pergunto: estará o passado conforme ao
que lembro?
O passado continua lá, nesse recanto
iluminado pela memória, farol que não impede barcos à deriva de chocarem-se em penedos.
Não digo que é divertido controlar a luz
do farol e também não sofro o constrangimento de ser uma falésia. Não digo que
me lembro porque desejo lembrar, é a memória que tem as suas bobeiras.
Se recordo as mãos de mamãe na minha bunda,
não me ocorre de que cor eram minhas calças curtas ou por quanto ficaram arriadas.
Se não vem a cara da mãe batendo, ressoa
a risada de quem viu a cena, e aquela gargalhada muito apoquenta, tanto.
Todavia, tenho uma nova pergunta: aos
cinco anos, sem saber que dar tempo ao tempo quiçá não seja a melhor solução, o
que podia um menino a não ser roubar selinhos às meninas?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de outubro de 2024.
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