terça-feira, 29 de outubro de 2024

Teatro dos sonhos

 

Teatro dos sonhos

 

Uma vez que bem compreendo o que o mundo sussurra enquanto durmo, noite após noite, visionário míope, mal vislumbro o que o futuro parece agora me cochichar, que a vida é dura, o chão é duro e a minha cara é mole, porém, todavia, tanto enfio a fuça na areia que a máscara, com a qual acordo a cada aurora, traz estalactites e estalagmites, isso me põe revelado em altos e baixos, com algum platô de intermeio.

Respiro, tomo fôlego, me recupero, pode o amor ser o platô.

Indo de amor em amor, já que viver subidas e descidas esgota pra dedéu, um dia amei Maria, noutro amei Maria, tanto as amei que todas, tão diversas e divertidas, tanto as amei que fui amado, tanto fui que me arvoro, na brasa do sonho e na brisa do anseio, a continuar sonhando e ansiando, que sou mesmo um amorzinho.

Mas não há amor que petrifique sob infortúnios, pelo fogo que arde nas entranhas e pela fresca que sopra dos confins, portanto, ainda que a mão no barro é que erga paredes, amo a ideia de que uma borboleta batendo asas em Lumbini faz querer-me ao ar condicionado por uma bugiganga elétrica, que me oferta ao instante.

Inspiro, pois o momento requer um relato que não seja mentiroso nem verdadeiro, seja obra de ficção.

Expiro, é absurdo que eu me sinta a esfinge que sequer me imagina devorando a minha areia, a minha própria efígie, a minha triste, alegre, constrangida, oprimida e reprimida carne, porque é comigo que papeio.

A minha carne tem fome e com os dentes que tenho sustento-me, pois é comigo que tenho de haver-me, faminto de vida.

Pelo lado de cá, vejo bolo, ouço parabéns, escuto amores que riem, gracejam, que a vida é asa batendo.

Pelo lado de lá, vejo a boca que sopra, a vela que se apaga, escuto o coração magoado, alumbrado, que a vida é vento passando.

Normal pra caramba que me compreenda na encruzilhada em que eu estou metido, ou enlouqueceria.

Que a vida possa enlouquecer, são favas contadas.

Que a vida peça restaurações, isso é mel na chupeta.

Na semana, Dona Cremilda e eu nos encontramos.

― Amigo, que coisa feia...

― Mas, querida amiga, o que foi que eu fiz?

― Dá pra ver que você não tomou banho, Cascão.

Se por fora, bela viola... Se a primeira impressão é a que fica... Se as aparências enganam...

Entretanto, se na capa estiver estampado printed by Isaac Iaggard and Ed. Blount, 1623, avalie-se o fólio como raro e caro!

Contudo, apenas como charada, proponho: a pessoa me encontra dois dias seguidos ― depois de um dia sem tomar banho, ela pensará que tomo banho todos os dias, porque as roupas de um são outras no seguinte; após um dia de banho, a pessoa dirá, pelas mesmas roupas do primeiro encontro, que estou precisando de banho.

Pelo visto?

Com a humildade e a modéstia que estão implícitas na pegadinha de gente brincalhona como eu, é óbvio que Oscar Wilde possa mesmo deduzir: quando tomar banho, não troque as suas roupas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2024.

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