Teatro
dos sonhos
Uma vez que bem compreendo o que o mundo
sussurra enquanto durmo, noite após noite, visionário míope, mal vislumbro o
que o futuro parece agora me cochichar, que a vida é dura, o chão é duro e a
minha cara é mole, porém, todavia, tanto enfio a fuça na areia que a máscara,
com a qual acordo a cada aurora, traz estalactites e estalagmites, isso me põe
revelado em altos e baixos, com algum platô de intermeio.
Respiro, tomo fôlego, me recupero, pode
o amor ser o platô.
Indo de amor em amor, já que viver
subidas e descidas esgota pra dedéu, um dia amei Maria, noutro amei Maria,
tanto as amei que todas, tão diversas e divertidas, tanto as amei que fui amado,
tanto fui que me arvoro, na brasa do sonho e na brisa do anseio, a continuar
sonhando e ansiando, que sou mesmo um amorzinho.
Mas não há amor que petrifique sob
infortúnios, pelo fogo que arde nas entranhas e pela fresca que sopra dos
confins, portanto, ainda que a mão no barro é que erga paredes, amo a ideia de
que uma borboleta batendo asas em Lumbini faz querer-me ao ar condicionado por
uma bugiganga elétrica, que me oferta ao instante.
Inspiro, pois o momento requer um relato
que não seja mentiroso nem verdadeiro, seja obra de ficção.
Expiro, é absurdo que eu me sinta a
esfinge que sequer me imagina devorando a minha areia, a minha própria efígie,
a minha triste, alegre, constrangida, oprimida e reprimida carne, porque é
comigo que papeio.
A minha carne tem fome e com os dentes
que tenho sustento-me, pois é comigo que tenho de haver-me, faminto de vida.
Pelo lado de cá, vejo bolo, ouço
parabéns, escuto amores que riem, gracejam, que a vida é asa batendo.
Pelo lado de lá, vejo a boca que sopra,
a vela que se apaga, escuto o coração magoado, alumbrado, que a vida é vento
passando.
Normal pra caramba que me compreenda na
encruzilhada em que eu estou metido, ou enlouqueceria.
Que a vida possa enlouquecer, são favas
contadas.
Que a vida peça restaurações, isso é mel
na chupeta.
Na semana, Dona Cremilda e eu nos
encontramos.
― Amigo, que coisa feia...
― Mas, querida amiga, o que foi que eu
fiz?
― Dá pra ver que você não tomou banho,
Cascão.
Se por fora, bela viola... Se a primeira
impressão é a que fica... Se as aparências enganam...
Entretanto, se na capa estiver estampado
printed by Isaac Iaggard and Ed. Blount, 1623, avalie-se o fólio como raro
e caro!
Contudo, apenas como charada, proponho:
a pessoa me encontra dois dias seguidos ― depois de um dia sem tomar banho, ela
pensará que tomo banho todos os dias, porque as roupas de um são outras no
seguinte; após um dia de banho, a pessoa dirá, pelas mesmas roupas do primeiro
encontro, que estou precisando de banho.
Pelo visto?
Com a humildade e a modéstia que estão implícitas
na pegadinha de gente brincalhona como eu, é óbvio que Oscar Wilde possa mesmo deduzir:
quando tomar banho, não troque as suas roupas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de outubro de 2024.
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