domingo, 20 de outubro de 2024

O melhor da vida

 

O melhor da vida

 

Ainda há pouco, estive na feira.

Aos domingos, já escrevinhada a crônica ou adiada sua publicação, vou comer pastel e tomar garapa, e, já que estimo hortaliças e legumes por suas vitaminas e seus minerais, também escuto os outros.

Tendo sobrevivido a pouco mais de vinte milhares de manhãs, além de vestir-me com elegância, sábio é proteger os pulmões com moletom forrado de lã e, a resguardá-lo da garoazinha, escondendo-o sob uma japona impermeável.

Uma vez que me envaideço da figura de velho bem vivido, embora até possam me retratar como pessoa fora de moda, cobri a careca com a minha surrada boina de anarquista, e janota.

Se me perguntam por que o sessentão foi à feira em manhã gelada, respondo que daria como vício se precisasse da garapa, trataria como tradição arder a língua com a pimenta no pastel, diria um contrassenso o cronista contentar-se na ignorância daquele burburinho.

Fluindo entre as barracas, fui indo, fui parando conforme o papo me soasse interessante, fui amarrando cadarços ainda amarrados, fui indo até voltar ― repassando a feira como labirinto de viela única, cuja mão dupla era caótica, cujo caos tinha um tráfego saudavelmente vagaroso, cuja lentidão compactava as pessoas tal qual um riachinho, cuja massa de água fluía feito serpente a boiar à tona do espelho.

Enquanto ia, observei quem apalpou mamões, pediu o que achava preciso e pagou o que lhe foi cobrado ― era quem tinha ânsia de gente que sabe que os sinos sempre hão de badalar pela missa das dez.

Sentados no meio-fio, havia os fumantes.

Dentre quem teria de esperar, havia quem mendigasse. Ainda que fumassem, clamavam pela misericórdia das pessoas que entravam na feira já a Matriz assinalando o meio-dia.

Como cheguei cedo, zanzei. E foi zanzando que fui me achegar ao pastel só quando estava com fome.

Numa das mesas, comiam pai e dois filhos. Comiam e papeavam. O menor dos garotos tinha perguntas, muitas; lá pelas tantas, ele quis saber se era verdade que macaxeira e mandioca são a mesma coisa; coube ao pai dizer que sim. A mais velha das crianças, a que exibia na camiseta um coloridíssimo Bob Esponja, insistiu tanto que era bom pôr pimenta no pastel que o caçula caiu nessa, só que, assim que a sentiu, ele começou a chorar, e tanto chorou que o pai teve que se morder pra não soltar o que pensou, que era chamá-lo de criançola chorona.

Sim, mesmo na feira pertinho de casa, convivo com essa gente que preza os laços familiares, venera a transmissão dos saberes de nossas tradições, cultua e honra o bom nome da nossa gente.

Depois de outra manhã na labuta por uma vida menos inadimplente, os feirantes carregaram consigo o que podia ser vendido, deixando aos xepeiros o que restasse feio, batido, amassado ou murcho.

Além de salsinha e cebolinha, trouxe o que a boleira me assegurou ser saboroso, um bolo tipo cake.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário