As
outras coisas
Sem importância a quem não me conhece ou
ligue que existo, neste primeiro dia do mês de novembro de 2024, faço 61 anos.
Embora os parentes mais chegados, os amigos
menos ranzinzas e empresas interessadas nos meus créditos lembrem-se dos
parabéns, permaneço na moita, escutando os passarinhos.
Em que moita estou metido? Da cama, ouço
o mundo.
O primeiro deles, um que reconheço pelo
canto, é o joão-de-barro, cujo volume do som do canto vem aumentando conforme venha
vindo da sua casa, a quarteirões daqui, até o abacateiro do quintal da minha casa,
esse bichinho põe-se a cantar lá pelas cinco e tralalá.
O joão-de-barro canta, eu ouço e
compreendo, a natureza é bela e os números do boleto são feios, e surgem feiíssimos
no meu sono, com os dentes da engrenagem a ranger desde o tralalá, e eu coço a
palma da mão, pois é coçando-a que se encontra dinheiro na rua.
Em seguida, entram em cena os
bem-te-vis; logo um coleirinha, que tem seu ninho na jabuticabeira do meu
quintal, canta a plenos pulmões; e tem também as maritacas que moram no forro
da lavanderia ― tudo é algazarra, tudo é alvorada.
O que eu não quero ver, imagino: a moça
do caixa apertará botões e o valor pago restará registrado, registradíssimo no
sistema.
Como estou condicionado a acordar pelos
acasos do sono, seja por pesadelos neuroticamente sombrios seja por uma vontade
danada de urinar, o que me despertou não foi toda esta cantoria.
Preciso urinar, vou urinar, mas nem
urinando a cantoria para. Ainda que eu não urine fiando-me que tenho o poder
sobre a natureza.
Adeus cantoria ― já o celular toca, já o
taxista está à porta.
Os vidros estão fechados, o rádio está
ligado, o motorista conversa consigo como se papeasse comigo.
Porei bolo na mesa, porque a Dona
Cremilda, o Aristeu e o Luisinho cantarão os parabéns e contarão histórias. Serão
as melhores pessoas que eu haveria de convidar. E elas são mesmo admiráveis
porque não as convidei pra festa que não quero. Ainda que eu esteja indo
comprar o bolo que as delicie e satisfaça e incentivem-nas a cantar parabéns e
a repassar histórias que não me deixarão sossegado de que hoje faço esses 61
anos.
Mesmo sem velinhas para apagar?
Sopram-me que os faço, todos eles, os tais 61, que são anos que não acabam
mais, até que eu cesse de fazê-los.
Depois de comido? O bolo serão fezes que
eu não comerei.
Todavia, os passarinhos voltarão ao
crepúsculo, o taxista fará mais uma corrida, a doceria venderá mais bolos, a TV
mostrará os estragos dos temporais e os apresentadores louvarão a ação de
voluntários que se dispõem a limpar um trechinho de uma famigeradíssima praia.
Preciso distrair-me: seja vendo tevê, seja
comendo bolo ou sorrindo ao motorista que fala com o espelhinho retrovisor.
― Nossa! O senhor parece mais velho,
disse o moço do balcão.
Distraído de mim, vou rir quando houver
que rir.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de novembro de 2024.