A
arte de merecer desaforos
Pessoa que lê a presente crônica, você
me conhece, sabe que sou um narrador sensato, desses arregimentados pra não estorvar
a leitura com parágrafos prolixos ou proferir opiniões que sejam mais cabulosas
que indispensáveis à boa fluência da história.
Pessoa que me lê, você sabe que o desejo
mais sensual que posso ter é convencê-lo da minha discrição, que preciso ficar recoberto
pelos acontecimentos que vão revelando a anedota que a motive a continuar
lendo, ainda que Seu Rodrigues apenas subscreva o escrevinhado.
Pessoa que me lê ainda que saiba que o Seu
Rodrigues apela para que o acuda tão somente porque acredita estar impossibilitado
de bem servir, por estar convalescendo-se de moléstia que não torna doloroso trabalhar
em prol do próprio nome, mas, uma vez vagabundo, ele tem o direito de respaldar
a vagabundagem num diagnóstico médico.
Primordialmente, a minha função é mofar
da picaretagem do autor, que delega a mim que selecione as palavras, concatene-as
em ideias e ultime o que seja captado como peça lealmente rodriguiana.
Não me entenda mal, pessoa que me lê, porque
não quero que Seu Rodrigues fique oprimido por ter acordado com a boca torta, a
fala meio bêbada, um braço lânguido, pois acidente isquêmico transitório enreda
até quem se assegura imune à plausibilidade dos fatos.
A cadeia de eventos é esta: houve uma dor
de cabeça repentina tão logo se deitou; os lábios ficaram secos; na madrugada, o
braço esteve mole, mole, tanto que nem conseguiu alcançar os lábios mais
salgados que o costumeiro; a língua estava mais áspera que o normal.
Por óbvio, o Seu Rodrigues foi pro
hospital.
E foi-lhe dado soro e, pra que fosse
confirmado que AIT era mesmo AIT, não um AVC ou outra sigla mais preocupante
por obscuridade, lá ele foi ficando, mais ou menos, observado por quatro horas.
Pessoa que continua lendo ainda que não conte
comigo que eu seja cúmplice de gente como Seu Rodrigues, indivíduo que parece
distraído ou quer fazer-se de distraído, porque não me sinto confortável no
papel de cúmplice de quem confunde distração com recreação.
É ato recreativo rir do mundo enquanto a
caravana passa.
Pessoa que me lê, vou latir enquanto o Seu
Rodrigues fica rindo da caravana que passa como se fosse catártico esse riso de
gente ignóbil, de farsante que se apresenta como gente adoecida pelos
amuamentos que o mundo provoca.
O mundo não adoece quem está com autoestima
baixa, afeta quem tem imunidade baixa, ou seja, a pessoa cujo corpo não é
fortaleza para proteger-se dos jacarés do fosso que a circunda, ela padece e
tem que sofrer até que suas defesas sejam restabelecidas.
Seu Rodrigues, a sua risada não é
trincheira, é máscara. Portanto, não espere de mim que lhe seja complacente,
porque baixarei a ponte e, por despeito, eu contarei que o baile vare o dia e
vire a noite.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de outubro de 2024.
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