terça-feira, 8 de outubro de 2024

O circo do palhaço

 

O circo do palhaço

 

Como a vedete abandonada estava explicitamente desguarnecida, armou-se o circo: o caminhão recebeu pancadas, teve a lataria riscada por cacos de vidro, nem pôde abafar a balbúrdia dos pivetes.

Sem medo de serem escorraçados, os baderneiros destravaram as portas; o cerco não era uma guerra à máquina, buzinaram sem dó; por falta de freio, o veículo despencou ladeira abaixo, para o rio.

Só depois de encerrada a fuzarca que foi possível escutar o ébrio à sombra da caçamba, tão soberano nos balbucios de desprezo, adrede cabalístico nessa revolta.

Contra arruaceiros, bebe um gole de aguardente, mas a golada que engulha dará outra chama à rebelião, será mesmo contra? Por acelerar o pensamento, haverá a embriaguez que incendeia à lucidez?

Houve gritaria, acorreu a turba, telefonou-se à lei.

Um segundo caminhão foi chamado para tirar do rio o primeiro, que veio levar a caçamba e quebrara, foi vandalizado e viu-se enfiado nas águas do riozinho.

Houve a vinda, ocorreu o socorro, dispersaram-se os curiosos.

Além do bêbado que tanto rezingava, sem dar na vista de ninguém, calada, fumando, uma mulher, do começo ao fim do resgate, a fumante incógnita presenciou os caminhões saírem da travessa.

Entrementes, limpado o gargalo, ele ofereceu a garrafa.

Por sua vez, batido o fundo do maço, ela oferecia um cigarro.

Sem pestanejar, apenas ele aceitou a oferta.

― O senhor viu tudo?

― Não sei de nada.

― Vai me dizer que o senhor só chegou agora?

― Não vou dizer nem o que venha a me comprometer, dona.

― Se não quer falar, por que aceitou o meu cigarro?

― Saiba a senhora que eu nem tenho esse vício, dona.

― Mesmo assim, fuma que até faz pose, parecendo ator de cinema que olha fundo na câmera.

― Não trago na alma essa malícia de penetrar pelo fundo de quem me queira seduzido para essa tentação de me ver cativado.

― No entanto, o senhor traga o cigarro e dá um trago da pinga como se estivesse usufruindo de um Cohiba e um Royal Salute.

― Não faço ideia do que a senhora fala.

― Faz, sim, mas só não quer admitir que entende, sim.

― Dona, não sou de apostar. Principalmente quando eu sei que vou perder, que eu percebo ter muitas cartas contra mim.

― O senhor sabe como se diz: quem arrisca, petisca.

― Se a dona só quer mesmo é me ver enrascado, com sua licença, eu prefiro petiscar a minha cachaça, senhora.

― Se o senhor jogar a garrafa contra o muro, terei de prendê-lo.

― Então, a senhora quer me algemar?

― Se for preciso, eu algemo, sim.

― Dona, não sou engraçadinho que gosta de ser algemado.

― Então, me ofereça a cachaça, pois pode ser que eu agora tenha mudado de ideia e até aceite tomar um gole.

― A senhora aceita um gole de Velho Barreiro?

Súbito, a mulher dá uma chave de braço. Algemado o bêbado, diz-lhe ao pé do ouvido:

― Moleque que brinca com fogo quer mesmo mijar na cama.

― Carambolas! Já estou me mijando todo, minha senhora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2024.

domingo, 6 de outubro de 2024

Tempestiva autocrítica

 

Tempestiva autocrítica

 

Acabado de chegar, vindo da escola onde votou, ele foi direto tomar banho, pois, um tanto a mais que o aceitável, o suor incomodava-o.

A ducha morna era calmante, e, já que foi e voltou pedalando, tinha que medir o quanto o minara aquela atividade tão pouco usual, pedalar contra o relógio.

Ainda bem que, no portão, lembrou-se de que o número de ônibus circulando era menor no domingo. Com pressa para votar e voltar, não acharia salutar ficar quarenta e cinco minutos plantado ao sol.

Antes de montar na bicicleta, porém, certificou-se de que precisava encher os pneus e, tão logo pisou na calçada, repreendeu-se, pois era imperativo buscar proteger-se com o capacete.

Como andava bastante esquecido, fez bem ao abrir a carteira para não sair sem o título, que continuava na gaveta da cômoda.

Em outras palavras, tinha razões para achar o quão relaxante era a chuveirada. Também pelo efeito regenerador, até mesmo pra sentir-se revigoradamente tranquilo, demorar-se-ia o quanto precisasse.

Ainda que economicamente nocivo pro bolso, seu banho prologava-se, pois ele percebia que tinha muito em que pensar.

Se a voz da urna é a voz do voto, a quem dirigira a sua voz?

Ele votou em quem fez a melhor promessa quanto aos ônibus, cuja frota de veículos, em nome de um ar menos intoxicante, haveria de ser todinha elétrica. Menos poluidora e mais econômica, mesmo a quem a usa diariamente, a frota poderia ser maior.

Para que a bicicleta não fosse roubada enquanto estivesse na fila, pra não ter que tomar o cuidado de passar-lhe em corrente e cadeado, ele votou em quem assumiu a incontornável promessa de aumentar a paz de espírito, diminuindo o sufoco que tal sensação de insegurança tanto produz, mesmo em quem, vez ou outra, anda de magrela.

Com mais vagar, nesse banho ansiosamente apreciado, ele poderia aferir a qualidade do voto se não o atropelassem os pensamentos.

Avaliou que fizera bem em não perder tempo com o café da manhã, pois, por afoiteza: não verificaria os pneus, e comeria pão amanhecido; não colocaria o capacete, e beberia pingado gelado; esqueceria o título na cômoda, e, sem se lembrar do desodorante, vestiria a camiseta que envergara ontem e anteontem.

Fez bem em ir votar sem ver TV, pois não atulhou a cachola com o emaranhado de problemas pesando no lombo da gente, da maioria da gente que vota porque tem em alta conta sua obrigação cívica.

Embora obrigado, foi confiante de que o candidato escolhido tinha verdadeira preocupação com a saúde mental dos seus eleitores; então, previdente, ele só pegou da cola para digitar o número certo.

Ele digitou, esperou que a foto aparecesse na tela, apertou a tecla que confirmava como certo o seu voto; então, consciente, ele desejava que fosse eleito quem lhe indicara uma colocação, boa o bastante para segurar um 4X4 novinho em folha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2024.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Bobeira

 

Bobeira

 

As três últimas semanas não me convenceram a gostar de sopa de beterraba, tanto que, ao terceiro dia, voltei à sopa de mandioquinha.

Ter pernas cansadas foi o primeiro desconforto, o vascular receitou o uso de meia de compressão, que me provou o quão chatinho é calçá-la e retirá-la, esse rolamento de pedra morro acima.

Em seguida, na segunda semana, deu-se o AIT, evento que me foi desnorteante, a ponto do esquecimento da máscara mesmo indo parar no hospital, em meio a outro surto de Covid na cidade.

Na última das três semanas tive restringida a vida pública, sedento de notícias das eleições, sequioso de entusiasmar-me com os embates eleitorais, uma vez que a política anima-me a ser mais que democrata, socialista e comedor de sopa de mandioquinha.

Assim, não fui pagar boletos; deixei avolumar a roupa suja no chão do quarto; sequer um dia deitei-me na rede para ouvir os passarinhos; gostei, no entanto, que a comida me fosse entregue; como nem só de futuro alimenta-se a minha alma, e sopa demais enjoa, lembrei-me da minha primeira surra pública.

Aos cinco anos, no prezinho, queria abraçar e ser abraçado, queria beijar e ser beijado, queria ser amado pelas meninas amáveis, e houve uns abraços e beijo tive um, somente um, que foi o bastante pro choro sentido da beijada, uma vez que o amor era fruto da minha cachola.

Denunciado pelo choro da surpreendida pelo meu beijo, fui levado ao desvelamento: além de recreio, escola tem diretoria.

E o diretor fez-me esperar por mamãe. E a secretária proibiu-me de desamassar papéis da lixeira, porque aviõezinhos não devem voar nas dependências da direção.

E mamãe veio, ouviu o que tinha que ouvir e deu-me a conhecer a cura que sabia que eu precisava sentir por mim mesmo, na pele.

A TV mostrou o homem pisando a Lua, minha mãe chinelou-me na bunda. O AVC do Costa e Silva não comoveu mamãe. Lamarca sumiu com 63 fuzis, a minha mãe continuou surrando a minha bunda. O Nobel do Beckett não afetou as mãos de mamãe, que não ia ficar esperando que a minha bunda ficasse corada diante de tanta gente estranha.

Pergunto: estará o passado conforme ao que lembro?

O passado continua lá, nesse recanto iluminado pela memória, farol que não impede barcos à deriva de chocarem-se em penedos.

Não digo que é divertido controlar a luz do farol e também não sofro o constrangimento de ser uma falésia. Não digo que me lembro porque desejo lembrar, é a memória que tem as suas bobeiras.

Se recordo as mãos de mamãe na minha bunda, não me ocorre de que cor eram minhas calças curtas ou por quanto ficaram arriadas.

Se não vem a cara da mãe batendo, ressoa a risada de quem viu a cena, e aquela gargalhada muito apoquenta, tanto.

Todavia, tenho uma nova pergunta: aos cinco anos, sem saber que dar tempo ao tempo quiçá não seja a melhor solução, o que podia um menino a não ser roubar selinhos às meninas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2024.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

A arte de merecer desaforos

 

A arte de merecer desaforos

 

Pessoa que lê a presente crônica, você me conhece, sabe que sou um narrador sensato, desses arregimentados pra não estorvar a leitura com parágrafos prolixos ou proferir opiniões que sejam mais cabulosas que indispensáveis à boa fluência da história.

Pessoa que me lê, você sabe que o desejo mais sensual que posso ter é convencê-lo da minha discrição, que preciso ficar recoberto pelos acontecimentos que vão revelando a anedota que a motive a continuar lendo, ainda que Seu Rodrigues apenas subscreva o escrevinhado.

Pessoa que me lê ainda que saiba que o Seu Rodrigues apela para que o acuda tão somente porque acredita estar impossibilitado de bem servir, por estar convalescendo-se de moléstia que não torna doloroso trabalhar em prol do próprio nome, mas, uma vez vagabundo, ele tem o direito de respaldar a vagabundagem num diagnóstico médico.

Primordialmente, a minha função é mofar da picaretagem do autor, que delega a mim que selecione as palavras, concatene-as em ideias e ultime o que seja captado como peça lealmente rodriguiana.

Não me entenda mal, pessoa que me lê, porque não quero que Seu Rodrigues fique oprimido por ter acordado com a boca torta, a fala meio bêbada, um braço lânguido, pois acidente isquêmico transitório enreda até quem se assegura imune à plausibilidade dos fatos.

A cadeia de eventos é esta: houve uma dor de cabeça repentina tão logo se deitou; os lábios ficaram secos; na madrugada, o braço esteve mole, mole, tanto que nem conseguiu alcançar os lábios mais salgados que o costumeiro; a língua estava mais áspera que o normal.

Por óbvio, o Seu Rodrigues foi pro hospital.

E foi-lhe dado soro e, pra que fosse confirmado que AIT era mesmo AIT, não um AVC ou outra sigla mais preocupante por obscuridade, lá ele foi ficando, mais ou menos, observado por quatro horas.

Pessoa que continua lendo ainda que não conte comigo que eu seja cúmplice de gente como Seu Rodrigues, indivíduo que parece distraído ou quer fazer-se de distraído, porque não me sinto confortável no papel de cúmplice de quem confunde distração com recreação.

É ato recreativo rir do mundo enquanto a caravana passa.

Pessoa que me lê, vou latir enquanto o Seu Rodrigues fica rindo da caravana que passa como se fosse catártico esse riso de gente ignóbil, de farsante que se apresenta como gente adoecida pelos amuamentos que o mundo provoca.

O mundo não adoece quem está com autoestima baixa, afeta quem tem imunidade baixa, ou seja, a pessoa cujo corpo não é fortaleza para proteger-se dos jacarés do fosso que a circunda, ela padece e tem que sofrer até que suas defesas sejam restabelecidas.

Seu Rodrigues, a sua risada não é trincheira, é máscara. Portanto, não espere de mim que lhe seja complacente, porque baixarei a ponte e, por despeito, eu contarei que o baile vare o dia e vire a noite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2024.

domingo, 29 de setembro de 2024

Atendendo a pedidos

 

Atendendo a pedidos

 

Para não me aborrecer, voltarei para casa.

Oferecem que eu passe na frente porque os meus cabelos brancos não disfarçam a condição, a de ter virado pessoa de idade provecta à gente trintona que se orgulha do reconhecimento gentil de estabelecer-me como mais um velho coroca a atravancar-lhe o caminho.

― A minha lentidão não é da conta de ninguém.

Em ônibus lotado, insistem que não é opróbrio algum tomar assento em lugar oferecido, uma vez que um ser humano envelhecido, e capaz de bazofiar, não tem que provar a resistência muscular que diz ter.

― Deus! Se eu tenho que caminhar do ponto até o sofá, os pulmões me pouparão de perrengues nos cem metros.

Como tem gente que pontifica que o mundo é palco a ser ocupado diuturnamente, ou seja, só artista amador reclama folga no instante de mais brilhar que ser ofuscado, eis que um cotovelo vai abalroar-me no nariz, um pisão vai acordar-me um calo e o olho na nuca não o esbalda por me harmonizar bailarino em performance capoeirista.

― Nos embalos de todo dia, travolteio que é espantoso!

Quiçá fosse interessante que amanhecesse chovendo, eu ficaria na cama até mais tarde, brincaria que a terra do quintal chama para pisá-la, que eu gostasse de me sujar, ou nada disso, eu fechasse a janela, lamentasse que chovia, que a lama do quintal nada tem de medicinal, terapêutica ou junguiana, eu sujaria meus pés, e, com tanta coisa para fazer, seria decepcionante a chuva cair, quem sabe eu me apressasse, quisesse andar na chuva, se ela cair, quiçá fosse o estimulante que me faça apressar, incomode e eu escape de vez.

― Minha estupidez me faz atenuar o que seja conflitante.

A inteligência das pessoas é atraente, não as pessoas inteligentes que optam pela mediocridade de agradar a si mesmas.

― Caraca! Mesmo sem dor de cabeça, não fico numa boa.

Essa é uma paixão que me perturba: quando sinto que não preciso sair e saio. Minha resistência é fraca, e saio. Nada de ficar em casa só porque não está chovendo, porque o boleto que vai vencer tem que ser pago uma semana antes. Fico apaixonado, me faço a crueldade de sair sem ser preciso, apenas pro calorão me secar a boca, eu seja punido por não usar chapéu, boné ou solidéu.

― Putz! A fome aperta quando eu sei que é meio-dia.

Falam que o pagamento deve ser feito na saída, marcam os preços do quibe, da esfiha e do espetinho de frango, desmentem que seja de graça o refrigerante, que as redes sociais querem tumultuar, a padaria depende do movimento, os empregados precisam trabalhar, o dono da padaria é um cara muito responsável.

― Cometi a idiotice de falar mal de mim na minha presença.

Se fizesse sol, não sairia. Se estivesse chovendo, não sairia. Mas, tirei o pijama, vesti a bermuda, descalcei os chinelos, calcei tênis, tudo para não me proibir de ficar em casa ou não ter que decidir o que seja, até emburrar à janela de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2024.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Mais ou menos

 

Mais ou menos

 

Quanto mais eu me seguro pra não dar palpite sobre problema que não é meu, mais dispara o meu coração.

Na ânsia de mostrar-me útil, misturo o que posso com o que confio que posso, ou seja, mais acelero a minha cachola, onde afloram ideias disparatadas, e, cáspite!, minhas ações me confundem.

Sendo quem pede à cachola que faça o que pode para ajudar quem precisa, confio que me ouço e atendo, mas não faço o que imagino ser da ordem natural de minhas vontades, pois a cabeça tem suas veredas e seus despenhadeiros.

Às vezes, querendo a gatinha na caixa de transporte, vem o calafrio, olho a cicatriz na minha mão, lembro-me da mordida quando eu quis a gatinha fora da minha casa.

Nessas vezes em que a memória precisa recordar os meus erros, descortino-me à passagem. Sinto que a pinguela está sobre um cânion tão fundo que nem ouço as águas do riachinho lá embaixo, embora os miados cheguem a mim.

Há situações complicadas que merecem a consideração da corrida de olhos, para tomar pé: estou na praia ou no alto da montanha?

Sem que me empolgue, sem que eu queira quebrar a cumbuca para tentar colá-la outra vez, do jeito que eu saiba, sem a reprovação de ter escolhido meter os pés pelas mãos, quero entender-me.

Ainda que eu tema, que o medo me proteja, me faça atravessar, me leve a ajudar a pôr a gatinha na caixa de transporte.

Tenho tal qualidade: chutei, vi o efeito, calculei a potência e garanto que chutarei melhor da próxima vez, quero chutar outra vez, mais uma, estou certo de que a próxima não será fumaça.

Todavia, é quarta-feira, é dia de feira, é hora de ir comer pastel de carne seca, é hora do cafuné na gatinha: é hora de pastel, gatinha.

Não espanta que eu nem saiba o que há comigo, pois não questiono a razão de tolerar-me já descontrolado, já meio bobalhão.

O que importa é que seja quarta-feira, haja feira, dê em mim aquela vontade de comer pastel de carne seca frito na minha frente.

O problema, o que compreendo como um problema, é querer levar a gatinha, que nem é minha, é do vizinho; e eu quero levá-la ainda que ela nem saiba o que seja pastel de carne seca.

Quanto menos me assegure que as minhas palpitações têm origem no que entendo, fundamentadas, portanto, em mim mesmo, mais tiro sarro de mim, até que, pelo riso e pelas caretas no espelho, eu pegue o retorno aos humores de amígdala, pâncreas e sovacos suadinhos.

Vendo a gatinha dando um baile no vizinho, estou suando. Penso e não saio do lugar. Meus lábios secam; tenho vontade de pular a janela. Quero acudir quem precisa de uma mãozinha, só que o vizinho precisa pedir ajuda, ou serei outro metido que nem sabe ficar na sua.

Penso que não sou uma criatura vagabunda porque fico pensando na vida. Ter opinião é um fato, caramba.

Se o alpinista não quer molhar os pés na flor d’água, o escafandrista se arrasta morro acima?

Narciso faz a gracinha de ter consciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de setembro de 2024.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Lavanda para borboletas

 

Lavanda para borboletas

 

Eu certamente adoraria voar se tivesse asas; como não me lamento de não as possuir, zanzo por aí como voejam as borboletas.

Às vezes, encanta-me ser uma borboleta.

Pelo amplo horizonte do que não sei sobre a vida de uma borboleta, imagino-a que pousa numa planta sem a danificar, penso que o néctar das flores alimente-a sem lhe abreviar a vida, quero andar de tal forma que o peso de meus pés seja mínimo, preciso sentir o mundo sem que a minha sombra enfraqueça a luz que banha uma joaninha.

É claro que não tenho antenas, tenho ouvidos.

Para tirar-me da espreguiçadeira, só hipnotizando meus tímpanos. Pouca gente tem dedos manhosos que produzam algum ritmo que me induza a prestar atenção na campainha, uma vez que ruídos não são música. Somente um camarada toca-a com o padrão acústico dos três apertos rápidos com dois compridos, é o Luisinho.

― De máscara, o que é que há?

― Deu positivo pra gripezinha, meu amigo.

Mais que afetar irritação pela demora em abrir-lhe a porta, ele ainda critica a minha recusa de integração ao mundinho contemporâneo, tão ricamente divertido pela montanha-russa de polêmicas políticas, bate-bocas morais e discussões bestas, só porque o caos é aleatório e nada é mais emocionante que espumar de ódio, babar por barbaridades ou, ao menos, inflamar-se com o fim dos tempos.

Ainda que me veja indisponível a cão do inferno, Luisinho diz a que veio. Se tivesse uma vida mais ativa nas redes sociais, ele certamente não teria que vir interromper-me a leitura matinal.

― Meu amigo, não conheço outra pessoa que tenha lido uma dúzia de vezes o mesmo livro. Será o normal pra gente pancada, hein?

― Só doze? As Viagens de Gulliver já li quinze vezes.

Como novidade boa é pão quente que tem que ser consumido sem a manteiga ficar rançosa, ele veio dizer que o vaso sanitário do Aurélio está dando o que falar.

Sem avisar, tem gente indo visitá-lo só pra dar uma chegadinha ao banheiro. Os mais caras de pau até levam garrafinhas de suco verde, cuja beberagem pode ser muito saudável, a bexiga, porém, fique cheia sem detença. Como demonstração de interesse pelas fotos altamente realistas, os menos afortunados bebericam limonada sem açúcar.

― O danado é um troço esquisito que parece bicho; mesmo sendo eletrônico, é inteligente pra burro. E sem que a gente peça, ele percebe a gente sentada, aquece o assento, liga musiquinha suave ou aquele barulhinho de água escorrendo que nem tem em posto de estrada.

Não falo, eu penso: logo logo, o trem projetará na parede os memes mais engraçadinhos, oferecerá wi-fi a quem anseie seguir o fluxo dos memes que não param de viralizar, dará acesso a informações sobre o primeiro vaso sanitário, a primeira rede de água encanada, a primeira estação de tratamento.

― Aliás, espertinho, a geringonça deixa o nosso rabo com cheirinho bom de lavanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2024.

domingo, 22 de setembro de 2024

Cachorro morto

 

Cachorro morto

 

Pisando dentro da área adversária, quero saber de humilhar pessoa que já está derrotada, bater em gente já vencida, tripudiar sobre quem já foi punido, chutar cachorro morto ― eu?

Jamais chutei cachorro morto que achei pelo caminho, não por me ter projetado em qualquer ser atropelado pelos trens descarrilhados do mundo, independentemente de quem seja o maquinista, ou adversário poderoso ou combatente arguto ou besta quadrada que se assenhora um bambambã.

Espero ter-me feito entender: não visto a carapuça para esconder-me como senhor, macho ou outro babaca envaidecido pelo poder que atribui a si precisamente por identificar-se como senhor, macho e mais um babaca a se achar o tal.

Pelo babaca que julga ser, puxo-lhe o tapete, zombo da sua queda e publico a imagem; assim mais gente rirá, muito mais gente vai querer puxar tapetes e, pela alegria de haver provocado o ridículo, muitíssimo mais gente poderá manifestar o desejo de puxá-los.

Em outras palavras, subscrevendo-se esta visão da vida, o jogo até pode valer três pontos, mas ganhar o dia com riso e alegria deixa mais leve a cabeça da gente no travesseiro.

Dentro da área adversária, mas testando de cabeça no contrapé do goleiro, esse gol gera uma onda de satisfação que nem seria boa coisa frear, bom mesmo, pois, é soltar-se na comemoração pelo feito.

O feito? Ora, isso é o bem-estar superando senões, é o dia ganho, é o beijo da pessoa amada, é o bife acebolado em vez de ovo, é sonhar com a bola alçada, o olho aberto, a cabeçada certa, o grito que escapa porque não tem de segurá-lo, é a corrida pro abraço, é o time contente com a jogada bem trabalhada, finalizada como precisava ser.

Sem trocar 6 por 1/2 dúzia, gol é realidade tornada sonho.

É óbvio que o gol tem que ser valorizado pelo que é, pois a maioria das jogadas não chegam a êxito, ou por falhas nossas ou pela eficácia da outra equipe.

Pra que as nossas deficiências não continuem gritantes, treinamos. A equipe técnica nos treina para tirarmos proveito das deficiências do próximo oponente. Ensaiamos jogadas, antecipamos reações, damos o devido peso ao que haveremos de trabalhar, vamos a campo cientes do que deveremos fazer.

Por que preparados, obteremos a vitória?

Ainda que o gol demore a sair, insistiremos. Quando ficar evidente que a jogada pode ser feita melhor, repetiremos. Acreditaremos que o gol só depende da gente. Quando não mais, trocaremos; e repetiremos até que o gol saia.

E o gol só depende de nós? E bandeirinha não conta? E árbitro não entra no cálculo? O VAR não contribui pro prejuízo?

Nas partidas em que o apito fala mais alto, bom é jogá-las pensando na vaquinha da breja, uma vez que isso de apelar para o VAR é coisa da elite.

Putisgrila!

Na várzea da vida, artilheiro zica é quem nunca deixa de ser vítima de palhaçada toda vez que a marca da cal não é apontada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de setembro de 2024.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Banho de lua

 

Banho de lua

 

A lua está escondida, talvez refugiada num buraco qualquer, é bem razoável que tenha fugido das atrocidades que os seres humanos têm cometido contra a natureza e contra si.

Olhei o céu nublado, quis adivinhar onde a lua estaria, concentrei a mente nessa localização, pois os problemas do mundo teriam solução.

Solucionados os problemas do mundo, eu seria o herói cujos óculos teriam lentes tradutoras para bem entender tudo quanto é sentimento, emoção e apoplexias.

Mas a lógica da vida natural é simples: não há herói que resista ao vírus da gripe.

Se eu fosse Sansão, daria de bom grado as madeixas, porque o pai de Dalila é sogrão que vive adoentado pelo cocuruto careca a pegar o sereno da madrugada.

Como eu sequer sou Don Juan, entraria pela lona do cenário, usaria da lanterna para ajudar um ou outro espectador a sair no meio da peça, sabendo que o Convidado de Pedra há de vencer no final.

Todavia, a natureza da vida põe simplicidade na lógica dos homens: todo herói de verdade tem Aquiles no seu calcanhar.

A minha vulnerabilidade não tem como de ser aparafusada ao chão do mundo quando a fúria surgir espontânea contra cálculos. A minha insônia não dá jeito no torto da minha coluna a fazer-me rolar na cama. À vera, meu ponto fraco é aquele que me vulgariza, que me apresenta um fantasma patético, um joão-bobo no meio do caminho de quem tem a honrada necessidade de descarregar-se de vez em quando.

Sou a válvula, o pino da panela, sou quem sente a pressão mas dá o seu jeito, quem teme ao dar-se como alívio.

No entanto não agi certo: molhei a manga da blusa; não tirei a blusa; deixei que a manga molhada secasse no meu corpo.

Embora os cientistas digam que vento encanado não dá gripe, que o vírus da gripe não curte roupa molhada, tênis encharcado ou a boca aberta de quem ronca de madrugada, ronquei como sempre e deixei a manga da blusa secar no meu corpo.

Primeiro veio a cabeça pesada, o mundo a rodar tão logo peguei do chão o garfo que derrubei; em suma, a minha cachola adulterada pedia comedimento, lentidão, que eu considerasse deitar-me imediatamente no sofá, ou seria oferenda viva ao mal-estar pantagruélico.

Pantagruélico, sim, pois em seguida os meus ouvidos entupiram, os músculos dos membros, tanto inferiores quanto superiores, passaram a doer, as pálpebras incomodavam, as narinas entupiram, começaram coriza e tosse.

Foi só largado no sofá que eu saquei: é gripe.

Gripado, a alma leve sujeitada às desventuras do corpo só chumbo. Febril, o espírito lúcido pressionado à tibieza bruta. Melancolicamente, esse poeta tornado nuvens a obscurecer a lua dos namorados.

Falta pastilha, irei comprá-la. Sem dipirona, entra na lista. Antigripal porreta, é mais um item incluído.

Com a voz anasalada, agradeço ao funcionário do caixa pela oferta da revistinha com dicas para domar certa ansiedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2024.


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Lorotas

 

Lorotas

 

Nem tento, qualquer explicação que eu ache bem fundamentada no que a realidade tem de mais concreto será inútil, pois não sou bom em me corrigir. Mesmo sabendo que a culpa pelo estrago crescerá quanto mais tentativas eu fizer, nem tento, mudo de assunto.

Como não vim tirar satisfação de ninguém, nem de mim vou cobrar a culpabilidade pelo erro cometido, ou pela série de erros que estou a cometer desde que o bem-estar convenceu-me a buscá-lo.

Assumido imbecil, julgo-me inimputável, feito qualquer idiota que vá por aí a dizer besteiras, perpetrar patacoadas, difundir barafundas, que a alegria nunca o alcança, já a felicidade e a satisfação perdidas.

Embora presumido energúmeno, opto pelo falsete, pelo disfarce de afinar a voz, pela liberdade de fazer o que bem entender com as cordas vocais que equipam a minha garganta, no melhor papel.

Sem gargantilha a adornar o meu gogó como gravata borboleta no Adoniram, garganteio que não passo de boneco de ventríloquo, porque o texto que vou escrevendo também me escreve, que fico bobo.

Sem cortesias à corte de descorteses, sou bobo.

Garganteio que sou forte, filho da sorte; tomo a liberdade, vendo as pessoas, observando-as, tirando lições pelo que observo como agem, garganteio mesmo que digo verdades.

Se tenho moral para tanto? Tanto tenho que me cortejo lúcido, fonte de água limpa a apagar queimadas, cupim voraz a devorar banquinho em pleno ar, voto que corrija a mão que tecla o número demoníaco que a todos nos consumirá.

Quando tenho que dar o melhor de mim, basta me sentir melhor ao beber a mistura de café com Coca-Cola, porquanto eu misturei no copo que bem escolhi.

Nem ingênuo nem energúmeno, sou o bobo que eu quero ser.

Às vezes eu sinto que posso dizer o que me mobiliza, mexe comigo, me faz querer falar pelas pessoas, embora elas nem cogitem que haja alguém no mundo que lhes entenda os mistérios, as contradições, que as faça transparentes, portadoras de evidências que as patenteiam tão gentis, solidárias e fraternas, mesmo que me engane, bobo.

Portanto eu bobeie, e continue bebendo da mistura que fiz com café e Coca-Cola. Que ande em linha reta, titubeie na corda, e siga crendo que ando ereto na linha bamba, a minha cerviz não me avilte ao curvar-me a falastrões velhacos.

Com mais café nem sentirei a Cibalena?

Na febre que me apavora: papai não tinha carro, nunca teve, nunca aprendeu a dirigir, nunca dirigiu carro de conhecidos; papai nunca me arrumou uma banqueta pra eu capotar na curva.

Lembro que o caminho mais curto até a escola era uma reta curva, ia da Capelinha ao Laurinda; a rua era uma barriga, uma rua como as demais: sem asfalto nem calçadas, tinha buracos e faltavam lâmpadas nos postes; a pança do Gigante Adormecido.

Serei Jonas sem saber em que baleia estou metido?

Com café, coca e cibalena, eis-me um moralista aditivado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2024.

domingo, 15 de setembro de 2024

Apagão

 

Apagão

 

O título pode ser enganoso ao paulistano que me lê, porque não há referência às seguidas quedas do fornecimento de energia elétrica na capital de São Paulo.

Esperançoso de que a leitura possa causar menos irritação, ou ao menos produza algum efeito calmante, abro a picada pela qual desejo muito transitar sem me ver abandonado pelo caminho.

Na trilha que traço, aponto a um de meus predicados positivos que é a tolerância: ainda que mais de um disparate seja dito, não bloqueio o fluxo; caso, ao fim e ao cabo, a sequência não leve a uma conclusão que convença, tolero-me detetive que se debruça sobre os passos.

Tolerante e atento, se a conclusão lógica não vem à tona, ou venho do início ou parto do fim, até que a precisão do conjunto tenha menos incoerência que a minha precipitação quer impingir ao trajeto feito.

O irracionalista sou eu, pois a vereda percorrida possibilita entendê-la inteligível, compreensível e, me contrariando absurdamente, lógica.

Contrariado por atinar que a conexão dos argumentos desconexos revela que a razão, por hábitos adquiridos e vícios cultivados, pode ter-me cegado, opto pelo silêncio de quem escuta, não por respeitar quem vomita besteiras como se me alimentasse pelos ouvidos, opto escutar porque não sou andorinha em ninho de chupim.

Quando a gengiva está anestesiada, também me pego calminho e, sem que me ocupe de mim a ouvir o que é dito, sinto que estou pronto para ouvir e ouço.

― A senhora tem certeza, agendo pra sexta?

― Pode marcar, pois não vejo problema que seja sexta.

― Ele virá mesmo sabendo que é dia 13?

― Quem tem estudo não liga pra superstição, pode marcar.

― É dia de azar, doutora, marco mesmo assim?

― Não queira debater, marque logo a consulta, pois eu garanto que ele virá sem nem saber que dia é.

― O horário vago na parte da tarde é 16 horas.

― Ótimo! Justo no horarinho que ele mais gosta de vir, às 16.

― Não é por gosto, doutora, é porque ele não tem como vir antes.

― OK. Vamos acreditar que ele faz o que diz fazer: que pela manhã tem as compras no mercado, vai à farmácia mais próxima pouco antes do almoço, almoça no horarinho de sempre, depois ele tira a meia hora de sesta, em seguida vem o banco e só quinze minutos para as quatro é que ele pode vir, para chegar cinco minutos antes da consulta. Então, a sua rotina é a mesmíssima todo santo dia? Por Cristo, que não!

― Doutora, a senhora acabou de confirmar que ele é bom paciente. Ele chega cinco minutos antes da consulta. E tem mais, ele bebe água mesmo que não esteja gelada, não pede pra mudar de canal ainda que a TV esteja sem som, não pede que eu atenda o telefone quando estou jogando. É ótimo cliente, doutora, pois sempre foi de pagar no ato: feito o serviço, não pede desconto nem quer parcelar, paga tudo no débito.

Assim que minha boca torta permitir, por ordinário, darei à elegância a discórdia de fiar-me esperto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2024.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Sua vez

 

Sua vez

 

Em razão do cheiro, da fuligem, dessa neblina que não é neblina, o dever de cada um, presentemente, é não ir às ruas por besteirinha, que só convém sair quando insofismavelmente precisar de colírio, inalação ou um pote de napolitano.

Uma pessoa sensível, todavia, percebe que não basta trancafiar-se em casa, ela sente ser preferível escutar-se, impreterivelmente quando lhe é sussurrado que, assim como fazer compras em shopping não tem graça sem a boa briga por uma vaguinha no estacionamento, ver TV e tomar sorvete casam bem.

Vivenciar um casamento harmônico é fundamental para o equilíbrio psíquico, ou haverá acentuada decepção com a realidade.

Pra que o trigo seja colhido, moído e pão, macarrão e biscoito sejam fabricados, a indigitada que vê TV dando as suas colheiradazinhas não pode se sentir decepcionada, então, sejam mostradas, reiteradamente, as chamas da Amazônia, do Pantanal, de canaviais sudestinos.

Em caso de decepção, a pessoa procure contato com outras, entre numa comunidade de gente decepcionada, mas só entre em grupo de gente que mantém a esperança de conservar-se decepcionada, sem a tentação de configurar-se frustrada, pois frustação acorda demônios.

Há demônios que engendram na gente a imobilização, a indiferença e o paquidérmico consumo de potes e mais potes de sorvete, incutindo na mente que colheradas de napolitano dão sustância a quem combate efetivamente as queimadas com o sopro de suas entranhas, deles, dos referidos demônios.

Portanto, põe cuidado!

Seja uma pessoa ardilosamente inteligente, só tolere ser aceita em comunidade cujas apreensões sejam, prioritariamente, o aquecimento global, a devastação ambiental e a hiperglicemia.

Certo de que não basta assinar nem propor abaixo-assinados, diga o que sente, grave vídeos, torne públicas as suas indignações de quem se preocupa com pessoas tomadas pela euforia da raiva e pelo frenesi do ódio, coisa de gente asfixiada em tanta efervescência negativa.

Não arda por dentro, não vire fumaça.

Se tem um pedido, faça-o. Caso o Sol não atenda, ainda que tenha sido feito em bom português, assim, fácil de ser entendido, aprovado e executado, torne a fazê-lo. Insista, continue pedindo, porque as forças arrebatadoras da Via Láctea querem empenho, convocam a força da mente, e esperam o ânimo que faça o mar levar as nossas basuras pra Grande Ilha de Plástico do Pacífico.

Bacataré, basuras são as sacolinhas do supermercado, os potes de sorvete, o comprovante fiscal dos potes comprados e o comprovante do valor pago com o cartão de crédito.

Mantenha o crédito, ore. Capriche na oração, pois seus pedidos são simples: já que o Sol é brasileiro e brasileiro nunca desiste, peça que o calorão não vire chuva preta, ore pra saliva impregnada de napolitano possa resfriar o céu da pátria neste instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2024.


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Fora do ar

 

Fora do ar

 

Naquele tempo, depois da passagem de um vento neurastênico que assobiava monstros na mente da gente miúda, nova e assustadiça não porque fosse miúda, nova e impressionantemente assustadiça, porque era refúgio a monstros que a gente adulta, crescida e intimorata achava risivelmente próprias de gente miúda, nova e ridiculamente incapaz de assobiar de volta, pondo para correr essas urucubacas mentais.

Tendo o vento varrido telhados como criança lambe Chicabom, era batata que o primogênito subisse ao telhado para pedir orientação, que virasse mais no sentido anti-horário ou menos no sentido contrário, até que a antena, modelo espinha de peixe, entrasse no eixo e permitisse a sintonia sem fantasmas e sem chiados, chegando à melhor recepção garantida pela tecnologia da época.

Como agora é outra era, a gente pensa que não basta ficar satisfeita com o melhor que faz, pois o momento é de qualificar o produzido como partícula de um processo maior, tendo em vista a evolução pessoal pro bem da sociedade, isto é, é bom lamber o Chicabom de modo a evitar que a mão fique melecada, ou seja, faz boa coisa quem vê como óbvio que o aquecimento global é palpável, efeito que pode ser medido pelo derretimento do sorvetinho nosso de todo dia.

Pensando que a gente percebe que o mundo tem funcionado como Fla X Flu estrutural, a antena tem que ser posicionada para que o jogo seja captado pela melhor revolução das nossas faculdades mentais ou haverá desperdício de Chicabom, até porque ter as mãos lambuzadas é sinal de idiotia.

Mas quem gosta de ser carimbado como idiota nem sempre é idiota; e a gente percebe que precisa melhorar, que pode evitar que os pingos formem uma poça, pois só mesmo um idiota para gozar ao ver-se feito alma na poça.

Olhando bem, sem se abalar pelas pressões de toda sorte, a gente tem a percepção de que o fantasma da poça rirá da nossa cara; e esse riso revelará o quão miúda e impressionável a gente é.

Impressionante, a gente envelhece porque a vida faz mal à saúde, pois sentir-se velho, estar velho, ter envelhecido, isso tudo mostra que, depois deste tantão de anos carregados na cachola, viver faz a gente ficar mais esperta do que o menino que a gente era quando a televisão tinha tubo, válvulas e estática na madrugada.

A madrugada seria um portal para manifestações ectoplasmáticas? Na real, haverá um poltergeist pra tão tosca realidade?

Ainda seguro o Chicabom como sendo a antena mais adequada pra captar o Fla X Flu destes dias. Sigo lambendo, até porque ele derrete, derrete, mas nunca que derreta até o palito.

Os ventos não derretem, mas são os transtornos que amplificam os horizontes da cachola, são tais ventanias metafísicas que desnorteiam antenas e desorientam birutas.

Já que a vida não muda da água para o vinho, sinto que cabe a mim querer trocar meu Chicabom por Sensação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de setembro de 2024.

 

domingo, 8 de setembro de 2024

As três estrelinhas

 

As três estrelinhas

 

Aspásio está chateado, veio-lhe aquela história que não lembrava porque a mulher fê-lo lembrar-se tão logo a reconheceu.

Se bem que, passados tantos anos, quem sabe ela nem lembre seu nome. Foi uma vez, naquele bailinho de fita nos anos setenta, naquele tempo em que um Campari já o deixava alegrinho. E foi uma única vez, aquela, à porta do banheiro, tão logo ela parou porque a tinha chamado pelo nome, porque ele sabia o seu nome, Ísis.

Aspásio tem isso, qualquer recordação feliz traz junto a amargura, porque a memória faz exalar esse cheiro inebriante, de coisa clorídrica, a agir como dose que o põe ligeiramente bêbedo por sintomaticamente acuado, portanto ele não devia ter sido visto por essa Ísis.

Ísis essa que a memória trouxe assim que o seu nome veio à tona, pois àquele nome estava associado o que ocorreu no bailinho daqueles anos setenta, naqueles anos adolescentes a quem adolescia.

Entretanto, ele se amargurou assim que a viu na fila. Não precisava lembrar-se daquela mulher, mas ela sorriu. Embora, quem sabe, fosse apenas uma gentileza, não um sorriso de pessoa que reconhece outra tão logo elas se vejam, tão logo desejem cumprimentar-se.

Só que ela parou de sorrir; repentinamente ficou carrancuda. Oxalá não tenha feito por mal, por lembrar-se do papelão de Aspásio à porta do banheiro num bailinho de fita em setembro de 1979, bem quando a Amii Stewart mandava brasa em Knock on wood.

Aspásio não quer cumprimentar a mulher da fila do caixa, ainda que lhe ocorra que ela não seja mais a mesma Ísis daquele dia à porta do banheiro, porque os cabelos dela estão grisalhos, talvez durante anos ela os tenha tingido, ou de ruivo ou de loiro, mas isso não importa, pois Aspásio sente a obrigação de dizer-lhe que originalmente quem cantou a tal canção foi o David Bowie; qualquer coisa, ele tem o compacto.

Ísis está aborrecida porque acabou por reconhecer o Aspásio.

Se o tivesse reconhecido logo de cara, não teria sorrido; ainda mais àquele pulha. Então, que isso fique bem claro: foi só por educação que sorriu a quem a observava na fila do caixa.

Se o nome dele, Aspásio, lhe ocorresse tão logo viu quem era que não parava de olhar para os seus pés, Ísis teria deixado a cestinha no chão e saído sem olhar para ninguém, muito menos para trás, só para verificar que ele não parava de olhar pro chão, pros seus pezinhos.

Ísis está com raiva. Antes não tivesse tomado banho e calçado seus chinelos, aquelas rasteirinhas de tiras douradas, uma vez que seus pés ficavam praticamente desnudos, à vista de velho tarado como ele, esse Aspásio.

Rezingueira como o diabo, tão logo uniu a cara à coroa, Ísis lembrou o que o safado pediu-lhe à porta do banheiro precisamente no dia que o pai deixou que ela saísse festejar os seus dezesseis aninhos.

Ísis não disse nada porque César sempre foi nervoso de espora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2024.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Fogo insaciável

 

Fogo insaciável

 

Vim parar aqui depois de ter empacado.

Estou travado pela falta do que contar; acho-me inseguro quanto ao modo de contar o que a falta do que contar produz em mim.

Embanana-me pensar de que maneira poderei desvencilhar-me do embaraço de estar sem assunto para cronicar; saio andar.

Sigo a esmo pelas ruas. Paro nas esquinas, em todas elas. Ouço o canto do joão-de-barro; zanzo sob as árvores. Canta outra vez o joão-de-barro, apuro o ouvido, concentra-me achá-lo. Porque não consigo vê-lo, volto a andar a esmo, mas para longe da pracinha. Torno a ouvir o canto do joão-de-barro, volto a querer achá-lo. Quero encontrar a sua casinha; porque seria retroceder à pracinha, não vou atrás dela.

A lanchonete não é a minha casa nem há gaiolas em suas paredes. Apesar de não ser nem isso nem aquilo, o corpo não questiona o meu espírito, que outra vez me põe sentado na cadeira, na mesma cadeira que novamente me deixa ver o salão da lanchonete, todo ele.

Para não ocupar a mesa como um vagabundo ocupa um banco de praça, peço um x-bacon, um guaraná e uma porção de fritas.

Sem imprevisto que desagrade ou aborreça, o almoço vai bem.

Prudente, não pedi salada porque sempre me ocorre de haver um bichinho verde a serpentear na folha de alface. Também acho horrível sentir grãos de areia numa concha de feijão. Não sou imbecil para que me chateie morder o xis e aliviar o salgado da batata com o refri, pois sei que posso almoçar bem se não pensar nisso.

As pessoas comem. Com o telefone a um palmo do nariz, engolem o que nem percebem o quanto mastigam. As pessoas nem precisam entender que vão sendo alimentadas pela realidade que a tela de um celular torna admirável. Mastigando ou não, não se encantam que vão sendo alimentadas por abismos admiráveis.

― Paloma, você precisa me passar as notícias mais frescas sobre o apocalipse zumbi. Não banque a espertinha pra guardar só pra você, pois amiga de verdade não faz isso. Por que você é amiga de verdade ou, Deus meu!, você resolveu jogar areia nos meus olhos?

Eis uma pessoa que se delicia em ser desagradável.

A pessoa que fica contrariada quando outra dá a entender que pode escolher o quê compartilhar ou quando compartilhá-lo é o tipo de gente que precisa ser contrariada, uma vez que ela se irrita quando se coloca no lugar de quem é posto de lado.

Essa pessoa desagradável quer fofocar como se estivesse dizendo que ama a democracia, mas ela não deve ser censurada. Para se sentir afagada, cobra transparência a quem se apresenta como gente amiga. Sem a necessidade de confrontar censores, é democrata porque posta que só imbecis ateiam fogo no campo. Embora as queimadas ocorram em vinte e cinco dos vinte e sete estados brasileiros, diz que não fuma, não tem isqueiro na bolsa nem fósforo na cozinha, pois o seu fogão de seis bocas e o seu micro-ondas bivolt gozam de acendedor manual.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2024.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

A ideia de que criança de colo é a inocência de quem não se sujeita a condicionamentos sociais e econômicos, como se os tutores legais fossem responsáveis pela ambivalência de conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e não o colo de quem o carrega, principalmente quando estão fotografando.

Quem assim o crê, engana-se, uma vez que o beijo não implica em compromisso com a transformação da realidade, ou seja, beijar criança de colo não ajuda na redução das desigualdades socioeconômicas que submetem pais, avós e candidatos.

O beijo do candidato na criança de colo não será visto como um ato inocente, mesmo que a foto não registre um ato inocente, mas seja um flagrante do ato amoroso do candidato beijando o próprio filho de colo, apesar do santinho colado no lado esquerdo do peito.

A foto não é pai beijando filho; a imagem mostra que um candidato que beija uma criança de colo é um candidato beijando uma criança de colo, ainda que seja o candidato que beija o próprio filho carregado em seu colo de pai.

É preciso ampliar a leitura dessa foto de candidato beijando criança de colo: que o candidato é pai, a criança de colo é seu filho e a imagem precisa ser validada como registro autêntico do candidato perfeito.

Não se engane, candidato ideal não é candidato perfeito.

Esta confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho, ainda que seja candidato e esteja em campanha, quando imagens precisam ser registradas e que tais registros revelem a verdade que há de ser compreendida na sua inteireza, de candidato que posa de pai porque é pai.

Por verdadeira, a imagem do candidato que é pai beijando a criança de colo que é seu filho pede ampliada a leitura, que o leitor da foto nem sinta que a foto é lida pelo viés do eleitor.

Todo eleitor tem ansiedades inegociáveis e precisa delas para que, ao notá-las defendidas em quem lhe pede o voto, produza a necessária identificação.

O eleitor identifica-se com um candidato que beija a criança de colo desde que seja imaginado como pai ideal, aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo que é mesmo o seu filho, pois isso há de acarretar a luta pelo bem-estar de toda criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo a seu filho e aos filhos de quem o eleja, já que cabe ao eleitor reconhecer a sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância ainda não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Vota consciente quem pede colo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2024.