O
circo do palhaço
Como a vedete abandonada estava
explicitamente desguarnecida, armou-se o circo: o caminhão recebeu pancadas,
teve a lataria riscada por cacos de vidro, nem pôde abafar a balbúrdia dos
pivetes.
Sem medo de serem escorraçados, os
baderneiros destravaram as portas; o cerco não era uma guerra à máquina, buzinaram
sem dó; por falta de freio, o veículo despencou ladeira abaixo, para o rio.
Só depois de encerrada a fuzarca que foi
possível escutar o ébrio à sombra da caçamba, tão soberano nos balbucios de desprezo,
adrede cabalístico nessa revolta.
Contra arruaceiros, bebe um gole de
aguardente, mas a golada que engulha dará outra chama à rebelião, será mesmo contra?
Por acelerar o pensamento, haverá a embriaguez que incendeia à lucidez?
Houve gritaria, acorreu a turba,
telefonou-se à lei.
Um segundo caminhão foi chamado para
tirar do rio o primeiro, que veio levar a caçamba e quebrara, foi vandalizado e
viu-se enfiado nas águas do riozinho.
Houve a vinda, ocorreu o socorro, dispersaram-se
os curiosos.
Além do bêbado que tanto rezingava, sem
dar na vista de ninguém, calada, fumando, uma mulher, do começo ao fim do
resgate, a fumante incógnita presenciou os caminhões saírem da travessa.
Entrementes, limpado o gargalo, ele
ofereceu a garrafa.
Por sua vez, batido o fundo do maço, ela
oferecia um cigarro.
Sem pestanejar, apenas ele aceitou a
oferta.
― O senhor viu tudo?
― Não sei de nada.
― Vai me dizer que o senhor só chegou
agora?
― Não vou dizer nem o que venha a me
comprometer, dona.
― Se não quer falar, por que aceitou o
meu cigarro?
― Saiba a senhora que eu nem tenho esse
vício, dona.
― Mesmo assim, fuma que até faz pose, parecendo
ator de cinema que olha fundo na câmera.
― Não trago na alma essa malícia de
penetrar pelo fundo de quem me queira seduzido para essa tentação de me ver
cativado.
― No entanto, o senhor traga o cigarro e
dá um trago da pinga como se estivesse usufruindo de um Cohiba e um Royal
Salute.
― Não faço ideia do que a senhora fala.
― Faz, sim, mas só não quer admitir que entende,
sim.
― Dona, não sou de apostar.
Principalmente quando eu sei que vou perder, que eu percebo ter muitas cartas contra
mim.
― O senhor sabe como se diz: quem
arrisca, petisca.
― Se a dona só quer mesmo é me ver
enrascado, com sua licença, eu prefiro petiscar a minha cachaça, senhora.
― Se o senhor jogar a garrafa contra o
muro, terei de prendê-lo.
― Então, a senhora quer me algemar?
― Se for preciso, eu algemo, sim.
― Dona, não sou engraçadinho que gosta de
ser algemado.
― Então, me ofereça a cachaça, pois pode
ser que eu agora tenha mudado de ideia e até aceite tomar um gole.
― A senhora aceita um gole de Velho
Barreiro?
Súbito, a mulher dá uma chave de braço.
Algemado o bêbado, diz-lhe ao pé do ouvido:
― Moleque que brinca com fogo quer mesmo
mijar na cama.
― Carambolas! Já estou me mijando todo,
minha senhora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de outubro de 2024.